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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O Tempo das Catacumbas

catacumbaas

As catacumbas são cemitérios gigantescos, subterrâneos, onde gerações de cristãos enterraram seus mortos. As mais importantes estão em Roma, mas as encontramos também em Nápoles, Siracusa, na África, Egito e Ásia Menor. As mais antigas de Roma são as grutas vaticanas, do século I, Comodila, Domitila, Giovani, Panfilo, São Sebastião, Santa Priscila, Santa Domitila, Santos Marcelino e Pedro, Santa Sabrina e São Calisto. Os cristãos preferiam sepultar os seus mortos ao invés de incinerá-los como faziam os romanos, pois a tradição bíblica nunca falou em cremação, embora esta seja hoje permitida pela Igreja, desde que não seja para desafiar a fé na ressurreição (cf. CIC §2301).

Para livrar-se da perseguição os cristãos haviam convertido as catacumbas em intrincados labirintos. Mas este recurso não lhes salvou do ódio dos pagãos, encurralando-os e matando-os como se fossem bestas ferozes. De modo especial isso ocorreu no século III.

Flávia Domitila, sobrinha do imperador Vespasiano (69-79), convertida, entregou o terreno de uma de suas casas de campo para a sepultura dos seus parentes cristãos e demais fiéis. A lei romana considerava sagrado o lugar de um cemitério. Esses cemitérios cristãos cresceram tanto que tinham um administrador. No ano 217 um desses se tornou o Papa Calisto I (217-223), cujo nome ficou ligado a uma dessas regiões. Essa Roma subterrânea é imensa; algumas delas têm cinco andares e a mais profunda chega a 25 metros abaixo da superfície. O total de seu comprimento é algo em torno de mil quilômetros. A de Santa Sabrina, que não é a mais extensa, tinha 16.500 metros quadrados de superfície e 1600 metros de comprimento, com 7736 túmulos (Rops, Vol. I, p. 200).

Os cadáveres se depositavam em nichos construídos nas paredes dos corredores, alguns tão estreitos que só permitiam passar uma pessoa. Mas existiam lugares onde se alargavam formando pequenas criptas e ali se celebrava a Santa Missa. Ali, na escuridão daqueles lugares, esperava a Igreja, orando e sofrendo com paciência, que chegasse a hora de brilhar a luz do sol.

Nelas se encontram muitas figuras religiosas pintadas, o que mostra que os primeiros cristãos nunca rejeitaram as imagens. Encontramos a mais antiga imagem da Virgem Maria nas catacumbas de Priscila, em Roma. Pode-se ver claramente a representação do mistério central da nossa fé, a Encarnação: “Ali se vê a figura de um homem que aponta para uma estrela, situada acima da Virgem com o Menino, um profeta, provavelmente Balaão a anunciar que um astro procedente de Jacó se torna chefe” (Nm 24,17) (Catecismo da Igreja, Ed. Loyola, pp. 19-20).

Pode-se conhecer muito da história do Cristianismo nascente pela imensa quantidade de documentos arqueológicos encontrados nas catacumbas: diversos textos, cartas de bispos e santos, obras místicas, etc., que podem ser vistos no livro de Fabrizio Mancinelli.

De 117 a 138, reinou Adriano, que construiu o seu famoso mausoléu, hoje chamado de Castelo de Sant´Angelo próximo do Vaticano. A princípio Adriano mostrou certa tolerância com os cristãos, até que em 133 os romanos travaram três anos de guerra contra os judeus na Terra Santa e Adriano mandou profanar ali os lugares sagrados, tanto dos judeus como dos cristãos, sem que estes tivessem participado das revoltas contra o Império. Ele implantou o paganismo na Terra Santa e construiu sobre os lugares santos do Cristianismo, templos aos deuses romanos. A Palestina foi transformada na província romana Aelia Capitolina e a entrada em Jerusalém foi proibida a judeus e cristãos. O templo de Salomão foi transformado em templo de Júpiter; o Gólgota (Calvário) foi todo coberto para desaparecer, e sobre o túmulo de Jesus foi construído um templo a Vênus. Isto fez com que Santa Helena, no século IV, pudesse encontrar exatamente os lugares sagrados. Do mal Deus sabe preparar o bem.

Infelizmente os cristãos foram erroneamente identificados com os judeus, piores inimigos dos romanos; e a perseguição recomeçou, com muitos mártires. Em sua perseguição morreram os Papas Sisto I (115-125) e Telésforo (125-136).

De 138 a 161 reinou Antonino Pio e a perseguição continuou. O Liber Pontificalis e o Martirológio Romano afirmam que o Papa Santo Higino (136-140) sofreu o martírio no dia 11 de janeiro de 140 durante esta perseguição e foi sepultado junto ao corpo de São Pedro no Vaticano. O Martirológio diz ainda que foram mártires sete filhos da senhora Felicidade:

“Em Roma [festeja-se] a paixão dos santos sete irmãos mártires, isto é Januário, Félix, Filipe, Silvano, Alexandre, Vidal e Marcial no tempo do imperador Antonino, quando era prefeito da cidade Públio. Entre esses, Januário, após ter sido açoitado com varas e padecido no cárcere, foi morto com flagelos chumbados; Félix e Filipe foram mortos a cacete, Silvano foi jogado num precipício; Alexandre, Vidal e Marcial foram punidos com sentença capital” (Sgarbossa, 1996, p. 216).

De 161 a 180 reinou o filósofo estoico Marco Aurélio, que perseguiu os cristãos; foram martirizados São Justino (†165) o senador Apolônio, os Papas Aniceto (155-166), Sotero (166-175) e São Policarpo de Esmirna, que foi discípulo de São João em Éfeso. Em 172 o bispo Melitão de Sardes, na Lídia, escreveu uma Apologia a Marco Aurélio, mostrando que um bom entendimento entre o Estado e a Igreja seria bom para ambos. Também, em 177, Atenágoras de Atenas escreveu ao mesmo imperador e a seu filho Cômodo a respeito dos cristãos.

No ano de 177 um furor popular anticristão estourou em Lião, na Gália, em uma festa. Cerca de cinquenta cristãos, depois de torturados foram jogados às feras por serem “ateus”; não cultuavam os deuses. Em 180 seis cristãos de Cílio, no norte da África foram condenados à morte pelo procônsul Saturnino. O relato deste martírio é o primeiro texto cristão em língua latina.

De 180 a 192, reinou Cômodo, filho de Marco Aurélio; houve também mártires. No entanto, uma das mulheres de Cômodo, Márcia, tinha simpatia pelo Cristianismo e conseguiu que seu esposo diminuísse a perseguição aos cristãos. Muitos cristãos foram livres do exílio, da prisão e trabalhos forçados que estavam sofrendo. Embora o Cristianismo tenha sido considerado ilegal, a perseguição diminuiu e a Igreja pôde descansar durante um tempo. Mas a perseguição voltaria pesada no século III.

De 193 a 211, reinou Septímio Severo, que baixou um decreto contra os cristãos e judeus, e proibiu as conversões ao Cristianismo. Foram martirizados: Santa Perpétua e Santa Felicidade, em Cartago; Clemente de Alexandria e os Papas Vitor I (189-199) e Zeferino (199-217).

Tertuliano (†220) em 197, escreveu o seu Apologeticum aos governantes do Império, onde ataca as violações do direito nos processos contra os cristãos: falta de advogado, torturas usadas, condenação apenas por causa do nome de cristãos, enquanto os filósofos pagãos podiam negar impunemente a existência dos deuses. Ele escreveu que: “Pendemos da cruz, somos devorados pelas chamas, a espada abre nossas gargantas e as bestas ferozes se lançam contra nós” (Apologeticum 31; cf. 12,50). E fazia esta observação aos pagãos, falando dos cristãos: “Vede como se amam mutuamente e como estão prontos a morrer um pelo outro!” (Idem 39).

São Justino (†165), escreveu:

“Cortam-nos a cabeça, crucificam-nos, expõem-nos às feras, atormentam-nos com cadeias, com o fogo, com os suplícios mais terríveis” (Diálogo com Trifão 110, p. 278).

Clemente de Alexandria (†215), escreveu:

“Diariamente vemos com os nossos olhos correr torrentes de sangue de mártires queimados vivos, crucificados ou decapitados” (Stromata II).

Em Roma, a morte dos condenados era para o povo um espetáculo. Dizia o poeta Prudêncio que “a dor de alguns é o prazer de todos” (Contra symmachum II, 11,26).

O Cristianismo era perseguido também pelos escritores pagãos como Celso, platônico, que no ano 178 atacava a fé cristã em suas obras; foi refutado por Orígenes em 245.

Retirado do livro: “História da Igreja – Idade Antiga”. Prof. Felipe Aquino. Ed. Cléofas.

Fonte: http://cleofas.com.br/o-tempo-das-catacumbas/

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