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quinta-feira, 13 de abril de 2017

O Martírio de São Policarpo (†155)

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Meio século depois do martírio de Santo Inácio de Antioquia, foi a vez do seu amigo São Policarpo (†155), bispo de Esmirna, na Ásia Menor, hoje Turquia, experimentar o mesmo sacrifício no tempo de Antonino Pio. Foi discípulo de São João em Éfeso, cidade próxima de Esmirna, e martirizado aos oitenta e seis anos. Seu martírio ficou muito bem documentado na carta que a comunidade de Esmirna enviou aos irmãos da Frígia a pedido destes.

Vejamos a narração do seu martírio por seus contemporâneos. No ano 155 doze cristãos de Esmirna foram presos e julgados. Apenas um não deu prova de fé admirável. Um deles, em pleno interrogatório chegou a bater no procônsul. A multidão enfurecida pediu a morte de todos, especialmente a de Policarpo. Vejamos o relato da Carta circular da igreja de Esmirna:

“A Igreja de Deus, estabelecida em Esmirna, à Igreja de Deus estabelecida em Filomélia e a todas as comunidades da Igreja santa e universal, onde quer que esteja: a misericórdia, a paz e a caridade de Deus Pai, de Jesus Cristo Nosso Senhor, superabundem em vós. Escrevemo-vos, irmãos, a respeito dos mártires e do bem-aventurado Policarpo, cujo martírio foi, por assim dizer, o selo final, que pôs termo à perseguição.

Por isso o povo, espantado diante do heroísmo dos cristãos, dessa raça que ama a Deus e é amada por ele, gritou: “Abaixo os ateus! [ateus aqui seriam os cristãos]. Tragam Policarpo!”.

Um apenas, chamado Quinto, frígio e recentemente chegado da Frígia, ao ver as feras, acovardou-se. Esse, justamente, tinha desafiado espontaneamente o poder público e incitado outros a fazerem o mesmo. Mas não resistiu às instâncias repetidas do procônsul, fez juramento e ofereceu. Eis por que, irmãos, não louvamos os que se entregam espontaneamente a si mesmo; de mais a mais não é isso que ensina o Evangelho.

Policarpo, o mais admirável, longe de se perturbar ao receber esta notícia, quis permanecer na cidade. Muitos, entretanto, o persuadiram a retirar-se. E ele se retirou para uma pequena casa de campo, a pouca distância, onde permaneceu, com poucos amigos, nada fazendo senão rezar dia e noite por todos e por todas as igrejas conforme o seu hábito.

E quando rezava teve uma visão, três dias antes de ser preso. Viu seu travesseiro pegando fogo. Voltando-se para os que estavam com ele, disse-lhes: “Devo ser queimado vivo”.

Policarpo, entretanto, mandou servir-lhes comida e bebida à vontade e pediu-lhes apenas o prazo de uma hora para rezar livremente.

Tendo eles consentido, Policarpo começou de pé a sua oração; a graça divina transbordava nele de tal maneira que pelo espaço de duas horas não pôde interrompê-la.

Todos os que ouviram se encheram de espanto e muitos se arrependeram de perseguir a um ancião tão cheio do amor de Deus.

Concluindo a oração, na qual se lembrara de todos que havia conhecido, grandes e pequenos, nobres e humildes, e da Igreja Católica de toda parte do mundo, chegou o momento da partida.

Montando um jumento foi conduzido para a cidade, já na manhã do grande sábado. Vieram a seu encontro Herodes, o chefe de polícia, e Niceto, seu pai, os quais o fizeram sentar-se consigo no carro e tentaram persuadi-lo: “Que mal pode haver em dizer”: “César é Senhor, oferecer o sacrifício, e dizer as coisas que o seguem, para salvar-se?” A princípio não respondeu, mas como insistissem, disse-lhes Policarpo:

“Não teria o que me aconselhais!”, perdida assim, a esperança de seduzi-lo, insultaram-no com palavras ameaçadoras e jogaram-no do carro com tanta precipitação que feriu na queda a parte anterior da perna. Policarpo nem sequer voltou-se, mas prosseguiu alegremente o caminho para o estádio depressa, como se nada houvesse sofrido. Aí, reinava tal tumulto que ninguém podia fazer-se ouvir.

Quando ele entrou, foi ouvida uma voz do céu, dizendo: “Coragem, Policarpo, seja homem!”, ninguém viu quem falou, mas a voz foi ouvida pelos irmãos presentes. Foi levado à presença do procônsul, que iniciou o interrogatório, perguntando se de fato era Policarpo. Recebida a resposta afirmativa tentou persuadi-lo a renegar a fé: “Respeita a tua velhice”. E seguiram-se os argumentos usuais, em tais circunstâncias: “Jura pela sorte de César, renega as tuas ideias e dize: “Morte aos ateus!”.

Policarpo então, voltando-se para a multidão do estádio, fixando firmemente com um olhar severo aquela ralé criminosa, elevou a mão contra ela e disse, com os olhos voltados para o céu: “Morte aos ateus”. Insistiu ainda o procônsul: “Faze o juramento e eu te libertarei. Insulta ao Cristo”. Respondeu Policarpo: “Há oitenta e seis anos que o sirvo e nunca me fez mal algum. Como poderia blasfemar meu Rei e Salvador?” Como de novo insistisse, dizendo: “Jura pela sorte de César”, replicou Policarpo: “Se esperas, em vão, que vá jurar pela sorte de César, simulando ignorares quem sou, ouve o que te digo com franqueza: sou cristão! Se, por acaso, quiseres aprender a doutrina do Cristianismo, concede-me o prazo de um dia e presta atenção!”. Disse-lhe o procônsul: “Experimenta persuadir o povo”. Respondeu-lhe Policarpo: “Julgo que diante de ti devo explicar-me, pois aprendemos a honrar devidamente os princípios e as autoridades estabelecidas por Deus quando não são nocivas à nossa fé. Quanto àquela gente, porém, não a julgo digna de ouvir a minha justificação”.

Nem com isso desistiu o procônsul: “Tenho feras”, disse, “às quais te lançarei, se não te converteres”; “faze-as vir”, respondeu Policarpo; “impossível para nós uma conversão do melhor ao pior; o bem é poder passar dos males à justiça”.

De novo, o procônsul: “Se não te convertes, se desprezas as feras, eu te farei consumir pelo fogo”. Policarpo: “Ameaças com o fogo que arde um momento e logo se apaga. Não conheces o fogo do juízo que há de vir e da pena eterna onde serão queimados os inimigos de Deus. Mas, que esperas ainda? Dá a sentença que te apraz!”. Não somente o interrogatório não o perturbou, mas foi o procônsul quem perdeu a calma. Este mandou então o arauto proclamar por três vezes no estádio:

“Policarpo acaba de confessar-se cristão”. Mal tinha anunciado, a multidão de gentios e judeus de Esmirna prorrompeu em gritos furiosos e desenfreados: “Eis o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o blasfemador dos nossos deuses, o que induz tantos outros a não mais honrá-los com sacrifícios e orações”. E assim gritando, exigiram do asiarca Filipe que lançasse um leão sobre Policarpo. Ele recusou-se, observando que isso era impossível, pois os combates de feras haviam sido proibidos. Ocorreu imediatamente outra ideia à multidão gritando, a uma só voz: “Que Policarpo seja queimado vivo!”.

Com efeito, era preciso que se cumprisse a visão do travesseiro. Tinha visto em chamas, quando estava em oração e voltando-se para os fiéis que o rodeavam dissera em tom profético: “Devo ser queimado vivo”. Armada a fogueira, Policarpo despiu as suas vestes, desatou o cinto, tentou desamarrar as sandálias, o que já não fazia, pois os fiéis sempre se apressavam em ajudá-lo, no desejo de tocar-lhe o corpo, no qual muito antes do martírio já brilhava o esplendor da santidade de sua vida.

Rapidamente cercaram-no com as coisas trazidas para o fogo. Quando os algozes quiseram amarrá-lo, disse-lhes: “Deixa-me livre. Quem me dá forças para suportar o fogo, dar-me-á igualmente a de ficar nele imóvel sem necessitar deste vosso cuidado”.

“Senhor, Deus onipotente, Pai de Jesus Cristo, teu Filho amado e bendito, pelo qual te conhecemos: Deus de toda a família dos justos que vive na tua presença – eu te bendigo por me haveres julgado digno deste dia e desta hora, digno de participar no número dos mártires, do cálice do teu Cristo para a ressurreição da vida eterna do corpo e da alma, na incorruptibilidade do Espírito Santo! O fogo tomou uma forma de cúpula, como a vela de um barco batido pelo vento e envolveu o corpo do mártir por todos os lados. Ele estava no meio, não como carne queimada, mas como um pão que se assa ou como ouro ou para candentes, na fornalha. Sentimos então um odor suave como o do incenso ou de outra essência preciosa.

Vendo, afinal que o fogo não conseguia consumir o corpo, os ímpios mandaram o executor transpassá-lo com o punhal. E quando isto foi feito, saiu da ferida tal quantidade de sangue que apagou o fogo. Vendo o centurião a oposição dos judeus, fez queimar publicamente o corpo, conforme o costume pagão.

Deste modo pudemos mais tarde recolher seus restos, mais preciosos do que pedras raras e mais valiosos do que ouro, para depositá-los em lugar conveniente, onde todos, quando possível, nos reunimos com a ajuda do Senhor, para celebrar com alegria e júbilo o dia do seu nascimento pelo martírio, em memória dos que combateram antes de nós, preparando-nos e fortificando-nos para as lutas futuras.

O santo Policarpo sofreu o martírio no dia dois do mês xanthicos [22 de fevereiro], sétimo dia antes das calendas de março, num sábado, à hora oitava [2 horas da tarde]. Quem o prendeu foi Herodes, sob o pontificado de Filipe de Trales, sendo procônsul Estácio Quadrado, no reinado eterno de Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem sejam glória, honra, majestade e o trono de geração em geração. Amém” (Patrologia grega 5, 1029-1045).

Retirado do livro: História da Igreja, A Idade Antiga. Ed. Cléofas.

Fonte: http://cleofas.com.br/o-martirio-de-sao-policarpo-%E2%80%A0155/

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