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quinta-feira, 11 de maio de 2017

Criação ou evolução

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Em síntese: O segundo relato da criação do mundo e do homem (Gn 2, 4b-3,24) põe em confronto o homem e a mulher para afirmar que compartilham a mesma natureza e têm a mesma dignidade. Criação e evolução não se opõem entre si, desde que se admita que Deus criou a matéria inicial, dando-lhe as leis de sua evolução, e cria até hoje toda alma humana (que é espiritual).

A explanação do hexaémeron apresentada no artigo anterior exige naturalmente um estudo do relato que lhe é paralelo e se encontra em Gn 2, 4b-25. Por conseguinte as páginas subsequentes abordarão o assunto.

O relato javista e a origem do homem

Em Gn 2, 4b tem início outra narração referente às origens, de estilo mais primitivo que a anterior: recorre a muitos antropomorfismos (Deus é oleiro, jardineiro, cirurgião, alfaiate, em vez de criar com a sua palavra apenas, como em Gn 1, 1-2, 4a); não menciona nem o mar com seus peixes nem os astros (o que revela horizontes limitados). Data do século X a.C. (fonte javista, J). Essa descrição começa por notar que não havia arbusto, nem chuva nem homem, mas apenas uma fonte de água, que ocasionava a existência de barro. Para compreender a intenção do autor sagrado, examinemos, antes do mais, a dinâmica do texto em pauta:

Muito estranhamente, Deus cria em primeiro lugar o homem (2, 7). Depois planta um jardim ameno, onde coloca (2, 8.15); verifica que o homem está só (2, 18). Cria os animais terrestres (2, 19); mas o homem continua só (2, 20). Então Deus cria a mulher e a apresenta ao homem, que exclama: “Esta sim! É o osso dos meus ossos e carne da minha carne!” (2, 23). Este curso de ideias poderia ser assim reproduzido:

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . HOMEM . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  MULHER

——–  plantas  ———   animais ———-     (o homem está só)

Vê-se, pois, que o relato não tem em mira descrever a fenomenologia ou o aspecto científico da origem das criaturas, mas, sim, visa a responder a uma pergunta: qual o relacionamento existente entre o homem e a mulher? Qual o papel da mulher frente  ao homem? – Estas questões de ordem filosófico-religiosa perpassam todo o relato. Para responder-lhes, o autor apresenta o homem (varão) sozinho¹; verifica duas vezes que ele está só, porque nenhuma planta e nenhum animal se lhe equiparam; finalmente Deus tira matéria do próprio homem para com ela formar a mulher; assim se justifica a exclamação: “Esta sim! É da minha dignidade!” Desta forma, o texto sagrado nos diz que a mulher não é inferior ao homem, mas compartilha a natureza do homem; é o vis-à-vis do homem. Esta afirmação é de enorme valor: já no século X a.C. a S. Escritura propunha uma verdade que muitos povos hoje não conseguem reconhecer e viver.

Evolucionismo e Criacionismo

O autor sagrado apresenta origem para o homem e para a mulher. Analisemos um e outro caso.

1. Origem do homem. Será que o texto de Gn 2,7 quer dizer algo sobre o modo como apareceu o homem na face da terra?

Respondemos negativamente. O autor sagrado utilizou a imagem do Deus-oleiro, que era assaz frequente nas tradições dos povos antigos. Com efeito; no poema babilônico de Gilgamesh conta-se que, para criar Enkidu, a deusa Aruru “plasmou argila”. Na lenda assiro-babilônica de Ea e Atar-hasis, a deusa Miami, intencionando criar sete homens e sete mulheres, fez quatorze blocos de argila; com estes, suas auxiliares plasmaram quatorze corpos; a deusa rematou-os, imprimido-lhes traços de indivíduos humanos e configurando-os à sua própria imagem.

No Egito um baixo-relevo em Deir-el-bahari e outro em Luxor apresentam o deu Cnum modelando sobre a roda de oleiro os corpos respectivamente da rainha Hatshepsout e do Faraó Amenofis III; as deusas colocavam sob o nariz de tais bonecos o sinal hieroglífico da vida ank, para que a respirassem e se tornassem seres vivos.

Entre os Maoris da Nova Zelândia, conta-se o seguinte episódio: um certo deus, conhecido pelos nomes de Tu, Tiki e Tané, tomou argila vermelha à margem de um rio, plasmou-a, misturando-lhe o seu próprio sangue, e dela fez uma cópia exata da Divindade; depois, animou-a soprando-lhe na boca e nas narinas; ela então nasceu para a vida e espirrou. O homem plasmado pelo criador Maori parecia-se tanto com este que mereceu por ele ser chamado Tiki-Ahua, isto é, imagem de Tiki.

Compreende-se, pois, que o tema do Deus-Oleiro, ocorrente também na Bíblia, não passa de metáfora. Quer dizer que, como o oleiro está para o barro, assim Deus está para o homem. E como é que está o oleiro para o barro? – Numa atitude de sabedoria, carinho, maestria, providência… Assim também Deus está para o homem, qualquer que tenha sido a modalidade de origem do ser humano. Não se queira extrair desta passagem alguma lição de teor científico.

2. Origem da mulher. Que significa a costela extraída de Adão para dar origem à mulher? – Não implica que esta tenha tido princípio diferente do homem. O tema da costela há de ser entendido a partir das palavras finais de Adão: “Esta é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2,23); tal afirmação é metafórica e significa: a mulher é da natureza ou da dignidade do próprio homem, em oposição aos demais seres (embora cercado destes, o autor enfatiza que o homem estava só). Ora, para preparar e justificar esta asserção a respeito da dignidade da mulher, o autor descreve o próprio Deus e tirar carne e osso (uma costela) do homem a fim de formar o corpo da mulher; a “extração” da costela e a formação da mulher, no caso, não têm sentido literal, mas vêm a ser a maneira “plástica” de afirmar a igualdade de natureza do homem e da mulher.

É à luz desta verdade que se deve entender também o desfile de animais perante o homem e a imposição de nome a cada um deles (2, 19s). “Impor o nome”, para os antigos, significa “reconhecer a essência, a identidade do ser nomeado”. O autor sagrado imagina Adão a impor nomes aos animais para poder enfatizar de moto muito concreto que nenhum animal era adequado ao homem; notemos que, antes e depois do “desfile”, o texto verifica que o homem estava só (2, 18.20). Devemos, pois, concluir que tal cena não tem sentido literal, mas visa apenas a fazer o contraste entre o homem e os animais inferiores e assim preparar o surto da mulher “feita da costela” ou participante da dignidade do homem.

Não se deve, pois, na base do texto bíblico, atribuir à mulher origem diversa da que tocou ao homem.

3. Resta, então, indagar: que diz o texto sagrado sobre a maneira como apareceu o ser humano?

A Bíblia não foi escrita para dirimir o dilema “criação ou evolução?”. Todavia, a partir de premissas filosóficas e teológicas, é preciso dizer que o dilema não existe. Vejamo-lo por partes.

Quanto ao homem, a pergunta é colocada popularmente nestes termos: “Vem do macaco ou não?” – Responderemos distinguindo entre corpo e alma do homem. O Corpo, sendo matéria, pode provir de matéria viva preexistente; não proviria dos macacos hoje existentes, pois estes já são muito especializados e não evoluem mais; proviria, porém, do primata ou do ancestral dos macacos e do corpo humano. A alma, contudo, não teria origem por evolução, mas por criação direta de Deus; sendo espiritual, ela não provém da matéria em evolução (o espírito não é energia quantitativa nem fluido nem éter; por isto não pode originar-se da matéria). Assim se conciliam criação e evolução no aparecimento do homem: pode-se admitir que, quando o corpo do primata suficientemente evoluído ou organizado, Deus lhe infundiu a alma espiritual, diretamente criada para dar-lhe a vida de ser humano. Isto terá ocorrido tanto no surto do homem como no da mulher.

Considerando agora o universo, podemos dizer que a matéria inicial, caótica (nebulosa), donde terá procedido a evolução, foi criada diretamente por Deus (não é matéria eterna). Deus lhe haverá dado as leis de sua evolução de modo que dela tiveram origem os minerais, os vegetais e os animais irracionais até o limiar do homem. Quando o Senhor Deus quis que este aparecesse na face da terra, realizou outro ato criador, infundindo a alma espiritual no organismo do primata evoluído. É o que se pode reproduzir no seguinte esquema:

Ato criador         Evolução        Ato criador

Alma                      espiritual

Matéria inicial    minerais   vegetais   animais     organismo aperfeiçoado

(nebulosa)                                 irracionais                               H M

No tocante à origem da vida, é preciso distinguir vida vegetativa, vida sensitiva e vida intelectiva. As duas primeiras modalidades dependem de um princípio vital material, que bem pode ter sido eduzido da matéria em evolução. Ao contrário, a vida intelectiva
depende de um princípio vital (alma) espiritual, que só pode provir de um ato criador de Deus.

Monogenismo ou poligenismo?

Pergunta-se: quantos indivíduos houve na origem do gênero humano atual? É costume responder: um homem (Adão) e uma mulher (Eva). Esta afirmação pode ser licitamente repensada em nossos dias.

A ciência reconhece três hipóteses referentes ao número de indivíduos primitivos:

Polifiletismo: muitos troncos ou berços do gênero humano (na Ásia, na África, na Europa…). Monofiletismo  poligenismo: um só berço com muitos casais;

(um só tronco) { monogenismo: um só berço com um casal só.}

Ora a primeira hipótese (polifiletismo) contraria à fé e às probabilidades científicas. Não se diga que o gênero humano apareceu sobre a terra em localidades diversas simultaneamente.

O monofiletismo monogenético (um casal só) é a clássica tese, aparentemente deduzida da Bíblia. Todavia verifica-se, após leitura atenta do texto sagrado, que não é a única hipótese conciliável com a fé. O poligenismo não se opõe a esta. E por quê?

A palavra hebraica Adam significa homem; não é nome próprio, mas substantivo comum. Por conseguinte, quando o autor sagrado diz que Deus fez Adam, quer dizer que fez o homem, o ser humano, sem tencionar especificar o número de indivíduos (um, dois ou mais…). Muito significativo é o texto de Gn 1, 27: “Deus criou o homem (Adam)  à sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou; homem e mulher Ele os criou”. Neste versículo verifica-se que a palavra Adam não designa um indivíduo, mas a espécie humana diversificada em homem e mulher. – O nome “Eva” também não é nome próprio, mas significa em hebraico “mãe dos vivos” (Gn 3, 20). Fica, pois, aberta ao fiel católico a possibilidade de admitir mais de um casal na origem do gênero humano. O que importa, em qualquer hipótese, é afirmar que os primeiros pais (dois ou mais) foram elevados à filiação divina (justiça original) e que, submetidos a uma prova, não se mantiveram no estado de amizade com Deus (cometeram o pecado original). – Seria falso, porém, dizer que Adão e Eva nunca existiram ou que são fábula ou alegoria: são tão reais quanto o gênero humano é real; o texto sagrado nos diz que Deus tratou com o homem nas suas origens,… com o homem real, e não com um ser fictício. E a história referente aos primeiros pais é história real, embora narrada em linguagem figurada (serpente, árvore, fruta…). – De resto, é inútil insistir sobre a questão “poligenismo ou monogenismo?”, pois não há critérios científicos para dirimi-la (a ciência até hoje não tocou a estaca zero do gênero humano); apenas interessa notar que a hipótese poligenista não contrária à fé.

A origem das raças não exige o polifiletismo. Com efeito: o conceito de “raça” é assaz flexível; raça resulta de um conjunto de determinados elementos do ser humano (cor da pele, forma dos olhos, tipos de cabelo…). Todavia a mesclagem desses elementos é tão variegada sobre a face da terra que há uma gama contínua de tipos entre o indivíduo branco, o negro, o amarelo… Em consequência, a origem desses tipos raciais pode explicar-se a partir de um só princípio: devem-se não somente às diversas condições de clima, alimentação, trabalho… das populações, mas também ao fenômeno do mutacionismo (mudanças bruscas em indivíduos raros, que se transmitem estavelmente).

São estes alguns comentários que o texto de Gn sugere ao estudioso contemporâneo.

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¹ É certo que o homem não pode viver sem vegetação e animais. Todavia sabemos que o autor não escreve uma página de ciências naturais.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 469 – Ano 2001 – p. 257

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