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segunda-feira, 8 de maio de 2017

Em que consiste a inspiração bíblica?

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“Para quem aborda as Escrituras Sagradas, uma das dificuldades que em primeiro lugar se põem, é a de admitir a divina inspiração dessas páginas. Como pode a Bíblia ser Palavra inspirada por Deus, quando apresenta tantas deficiências do ponto de vista científico e literário? Que vem a ser inspiração bíblica?”

1. O que a inspiração bíblica não é

Faz-se mister estabelecer clara distinção entre inspiração bíblica e dois conceitos afins:

a) Revelação. Na Revelação religiosa, Deus comunica ao homem verdades que este nunca poderia ter aprendido, ou de fato nunca aprendeu, na escola de seu tempo. Sob o efeito da revelação divina, um arauto sagrado, por exemplo, prediz o futuro, desvenda mistérios, sem que se possa assinalar uma fonte humana para o seu saber. Tal foi, sem dúvida, o caso do profeta Isaías (7,14), quando predisse o parto virginal de Maria mais de sete séculos antes que ocorresse; falava então estritamente por efeito de revelação divina.

Ora a inspiração bíblica não implica necessariamente revelação de verdades desconhecidas ao autor sagrado. Este, sob o dom da inspiração divina, conserva simplesmente o cabedal (rico ou pobre) de noções cientificas, históricas ou religiosas, que ele tenha adquirido na escola de sua gente; o Senhor Deus nada acrescenta a essas noções. — Eis o que por ora nos interessa relevar.

Digamos ainda que inspiração bíblica também não é

b) Assistência meramente extrínseca. Pela assistência meramente extrínseca, o Espírito Santo apenas preserva de erro o trabalho humano de um pregador ou escritor sagrado, de modo tal que o raciocínio e a formulação das ideias exprimam certamente a verdade.

Ora a inspiração bíblica, se, de um lado, é menos do que revelação sobrenatural, de outro lado é mais do que assistência meramente extrínseca. Positivamente então, que vem a ser?

2. O que é a inspiração bíblica

2.1. Dizíamos que, pela inspiração bíblica, o Senhor nada revela ao autor sagrado. Deixa-o, portanto, desenvolver toda a atividade necessária para adquirir a verdade e formulá-la com clareza (e essa atividade foi assaz árdua para certos autores sagrados, como atestam os prólogos do Evangelho de S. Lucas 1,1-4 e do 2o livro dos Macabeus [2,26-31], assim como a conclusão do Eclesiastes [12,10-12]).

Pois bem. Em se tratando da redação de um livro, a atividade do autor abrange três etapas:

1) tarefa da inteligência, que procura angariar conhecimentos, investigar e estudar a matéria a ser explanada no livro;

2) tarefa da vontade, que deve decidir (e decidir com firmeza e perseverança) redigir tal e tal livro, correspondente às verdades adquiridas pelo estudo prévio;

3) tarefa das potências executivas do escritor, que deve conseguir o material (papiro, estilete, etc.) e manejá-lo (ou mandar manejá-lo por um secretário) de tal modo que se origine o livro como expressão fiel da verdade.

Ora, no caso da inspiração bíblica, o Senhor Deus, de um lado, não dispensa esse trabalho humano nem, de outro lado, lhe assiste apenas de maneira extrínseca, mas (por assim dizer) penetra-o e percorre-o juntamente com o escritor sagrado. O que quer dizer:

1) Ilumina, de maneira especial, a inteligência do hagiógrafo (= autor sagrado) a fim de que este, dentro do patrimônio cultural (religioso e profano) que possui, possa estabelecer uma seleção entre as noções que condizem com a mensagem de Deus e as que não condizem. Iluminado pelo Espírito Santo, o hagiógrafo vê, com a certeza do próprio Deus, serem tais e tais proposições (adquiridas na escola de seu tempo) aptas a exprimir os desígnios de Deus, ao passo que tais e tais outras não o seriam. Assim a inspiração bíblica, sem revelar coisa alguma, garante, não obstante, a autenticidade da mensagem.

2) Além de iluminar a inteligência, o Espírito Santo fortalece a vontade do escritor humano, a fim de que este, sem vacilação nem infidelidade, queira escrever a verdade, e somente a verdade. — Enfim, pelo dom da inspiração bíblica

3) O Senhor faz que a execução da obra não dê lugar a enganos e falhas que perverteriam a mensagem sagrada.

Em consequência, o livro assim oriundo pode e deve ser dito, todo ele, obra do homem e simultaneamente obra de Deus; é mensagem ou palavra divina envolvida dentro dos moldes da palavra humana, numa antecipação e numa prolongação estupendas do mistério da Encarnação, que ocupa o centro da história do mundo.

Voltando ao exemplo do parto virginal de Maria, lembramos que, além do profeta Isaías, também o Evangelista São Lucas (2,6s) nos refere o fato; contudo São Lucas o narrou depois de ocorrido… já não por efeito da revelação divina (revelação de que gozou o profeta Isaías para o poder consignar mais de sete séculos antes do acontecimento), mas unicamente sob o efeito da inspiração bíblica (pois S. Lucas foi informado do acontecimento por autênticos testemunhos humanos; o Senhor Deus, pelo dom da inspiração, apenas tornou evidente a S. Lucas que esses depoimentos eram fiéis à realidade histórica, podendo por conseguinte ser utilizados para a redação de uma página bíblica).

2.2. Observe-se agora que a finalidade da inspiração bíblica é «comunicar mensagem religiosa, não doutrinas profanas (de astronomia, geologia, biologia, etc.)». Contudo, já que a mensagem religiosa se dirige a homens que vivem no tempo e no espaço, a Escritura Sagrada tem que aludir aos objetos do tempo e do espaço (objetos dos quais tratam as ciências profanas); alude a isso, porém, de maneira pré-científica, popular, servindo-se dos modos de falar aceitos entre os homens de determinada região e época. Tais modos de falar («o sol nasce, a baleia é um peixe, o morcego é uma ave…») não resistem sempre a um exame rigoroso da ciência; contudo não iludem o leitor, o qual sabe muito bem que a intenção do escritor não era ensinar ciências profanas, mas apenas chamar a atenção para tais objetos e mostrar o sentido religioso dos mesmos, a luz de Deus e da eternidade.

Por conseguinte, distinga-se na Bíblia Sagrada entre

a) objeto primário, diretamente visado pelo dom da inspiração: é a doutrina religiosa. Esta é exposta com veracidade absoluta e em termos perenes;

b) objeto secundário, indiretamente apenas visado pela inspiração bíblica: são as noções de ciência profana. Estas vêm mencionadas segundo o modo de falar comum (não científico, mas também não enganador), modo de falar suficiente para levar a mente do leitor à apreensão de verdades superiores.

Assim tenha-se em vista, por exemplo, a narrativa da criação do mundo em Gên 1,1-2,4… O autor sagrado não intencionava dizer em quantas etapas (dias ou eras) ela se deu nem em que ordem de sucessão apareceram os minerais, os vegetais e os animais sobre a face da terra. Essas noções todas são de pouca importância para a salvação eterna do homem; a pesquisa das mesmas ficou, por isto, entregue ao trabalho da inteligência humana no decorrer dos tempos… Mas o que o autor sagrado queria dizer é o que o mundo e o homem (assim e assim discriminados pelo vocabulário pré-científico de um judeu do séc. XIII a.C.) valem à luz de Deus e da eternidade. Donde se vê que não seria lícito querer deduzir da narrativa bíblica teses de cosmologia ou biologia (tais como «.o mundo foi feito em seis eras, o gênero humano tem cinco ou sete mil anos de existência, há evolução ou não há evolução dos seres vivos…»); mas apenas se depreenderão verdades de índole religiosa cujo valor paira acima de qualquer cultura ou vocabulário; tais verdades são:

– o mundo não é eterno, mas começou no tempo;

– há um Criador, Deus bom, de todas as coisas;

– as criaturas não são más por si (nem mesmo as materiais), mas são obra boa de um Deus Bom;

– não há, portanto, dualismo cósmico ou dois seres supremos (o Princípio Bom, da Luz, e o Princípio Mau, das Trevas) que disputem entre si a história do mundo;

– o mal entrou no mundo, porque o homem abusou da liberdade que Deus lhe deu, desfazendo a harmonia inicial da criação.

Ouça também: Podemos abrir a Bíblia ao acaso para tirar uma palavra?

Tais verdades (e estas só) constituem a mensagem da Bíblia no tocante à origem do mundo; é sobre elas que recai diretamente o dom da inspiração bíblica; as proposições de ordem profana ligadas com tais verdades têm na Escritura significado relativo, isto é, destinam-se a ser veículo (ou vestiário inteligível à luz da mentalidade do povo de Israel antigo) que não deve deter a atenção do leitor e, sim, levá-lo ao entendimento da mensagem religiosa. Cf. «P.R.» 26/1960, qu. 4.

Na Bíblia, portanto, os meios ou veículos de expressão podem ter sua «moda», podem ter perdido seu uso na linguagem moderna, não, porém, as proposições religiosas assim expressas, as quais são eternas.

2.3. O conceito de inspiração bíblica é bem ilustrado pela analogia do homem que, com um pedaço de giz, escreve sobre o quadro-negro. O efeito produzido na pedra se deve atribuir tanto ao escritor como ao seu instrumento; um sem o outro não o produziria. E nesse efeito encontram-se inevitàvelmente os vestígios de um e outro agente: ao homem se devem atribuir os pensamentos expressos, ao passo que ao giz se deve reduzir a forma visível dos mesmos na pedra (cor, grossura, certa graciosidade, etc.); um só pensamento pode mesmo tomar configurações bem diversas conforme os diversos tipos de giz usados. Analogamente se relacionam Deus e o hagiógrafo na composição dos livros sagrados: as ideias ensinadas pela obra provêm primariamente de Deus, Autor principal da Bíblia; todavia a forma literária, a veste, que serve para exprimir tais ideias, é condicionada pelo hagiógrafo; o que quer dizer: fica subordinada à educação e às categorias culturais de um escritor humano; mais precisamente :… de um judeu que viveu no Oriente há dois ou três milênios atrás, ignorando muita coisa das ciências e das artes que hoje em dia se conhecem, possuindo, não obstante, sua cultura própria e não desprezível. E note-se que cada hagiógrafo, como indivíduo, deu os seus pressupostos pessoais, o seu cabedal, rico ou pobre, de cultura humana, para exprimir a verdade divina na Bíblia.

Assim o profeta Isaias deu o seu ânimo nobre e culto de cortesão dos reis de Judá em Jerusalém; o profeta Jeremias deu a sua têmpera afetiva e sofredora; o profeta Amós, sua Índole de pastor de ovelhas, rústico amigo das cenas da natureza; o Apóstolo São João, a sua mente contemplativa; São Paulo, o seu caráter de mestre e polemista ardoroso, etc.

«Em vista da redação dos livros sagrados, Deus se servia de todos os elementos que Lhe eram úteis; em particular, serviu-se das aptidões pessoais dos escritores. Não escolheu um emotivo para escrever os textos jurídicos do Pentateuco, nem um espírito meticuloso para compor o Cântico dos Cânticos. Todas as condições sociais, todas as culturas, todos os temperamentos puderam assim ser aproveitados» (Robert-Feuillet, Introduction à Ia Bible I. 1929, 25).

Destas considerações depreende-se que, na interpretação da Sagrada Escritura, é preciso discernir bem veste, forma literária, e o seu conteúdo, a fim de não se confundir a verdade infalível, divina, com a sua forma contingente de expressão. É mister, pois recorrer às leis de literatura dos antigos povos, a fim de se perceber com exatidão como falavam e apurar o que o hagiógrafo, em nome de Deus, queria dizer na Bíblia. Tenha-se por princípio firme que somente quando entendidas no sentido intencionado pelo autor sagrado (não, pois, como nós, modernos, as poderíamos entender numa leitura superficial) é que as afirmações da Sagrada Escritura são isentas de erro.

Eis a advertência de Pio XII:

«Com todo o esmero, recorrendo aos resultados das mais recentes pesquisas científicas, procure o exegeta averiguar o caráter pessoal e as circunstâncias de vida do escritor sagrado; examine a época em que viveu, quais as fontes orais ou escritas que tenha utilizado, quais os modos de expressão de que se tenha servido. Assim poderá o exegeta reconhecer adequadamente quem foi o hagiógrafo e o que intencionou exprimir mediante os seus escritos» (Ene. «Divino afflante Spiritu» n* 19).

Voltemo-nos agora para a consideração de algumas importantes

3. Consequências da inspiração bíblica

De quanto foi até aqui dito, decorrem quatro corolários importantes:

1) Na Sagrada Escritura, existem gêneros literários diversos.

Que se entende por esta expressão?

«Gênero literário» é o conjunto de regras de estilo e vocabulário a que os homens de determinada época ou região costumam obedecer quando querem escrever sobre certo assunto. Assim há o gênero literário do jurista (estilo muito conciso, evitando figuras e termos ambíguos), o do historiador (estilo por vezes prolixo, minucioso, destituído de artifícios; vocabulário, por vezes, popular, adaptado ao modo de falar dos personagens da história), o do poeta (extremo oposto ao do jurista: liberdade de expressões, figuras literárias, frases inacabadas, intuições subjetivas…), etc. — É óbvio que cada um dos gêneros literários deve ser interpretado de modo consentâneo com as suas leis e propriedades: caso o leitor se descuide disto e queira ler um texto de poesia como lê uma página de leis arrisca-se a não perceber a mensagem que o texto quer exprimir.

A propósito dos gêneros literários bíblicos, cf. «P.R.» 29/1960, qu. 5.

Quem pela primeira vez propôs a existência de gêneros literários dentro da Sagrada Escritura, foram os críticos racionalistas do século passado, os quais mediante esse recurso visavam afirmar que na Bíblia existem mitos, lendas e outras narrativas que derrogam à autoridade e à dignidade do Livro Sagrado. Daí surgiu entre os exegetas católicos da primeira metade deste século a desconfiança para com a tendência a admitir gêneros literários na Bíblia. Hoje em dia, porém, principalmente após a encíclica «Divino afflante Spiritu» (1943) de Pio XII, vê-se claramente que a inspiração bíblica não exclui, antes mesmo supõe, o uso de gêneros literários; na verdade, os autores sagrados, mesmo sob o influxo da inspiração bíblica, não deixaram de escrever como os demais autores de sua época, adaptando-se, portanto, às convenções de estilo e vocabulário vigentes para cada assunto. A inspiração divina apenas garantiu que nada de indigno, grosseiro ou mentiroso (como lendas e mitos) entrasse na Escritura Sagrada.

2) A inspiração bíblica se estende a todos os temas e mesmo a todos os vocábulos contidos na Sagrada Escritura.

Nos últimos decênios mais de um exegeta restringia a inspiração bíblica aos trechos concernentes à fé e aos costumes; assuntos profanos, portanto, não teriam sido atingidos pelo influxo da inspiração.

O Cardeal Newmann (+1890), por exemplo, julgava que a alusão ao cão que abanava a cauda, no livro de Tobias 11,9, ficava isenta da inspiração bíblica; da mesma forma, a menção do manto esquecido por São Paulo em Trôade e a ordem, dada a Timóteo, de o levar de novo ao Apóstolo (2 Tim 4,13)…

Contudo tais distinções são vãs… Para prová-lo, sirvamo-nos do exemplo já introduzido neste artigo: numa palavra escrita com giz em quadro-negro (como também numa estátua burilada por um artista com cinzel em mármore) não há traço algum que se deva exclusivamente ao autor principal (o homem que escreve ou burila) ou ao instrumento apenas (giz, cinzel…); mas todo e qualquer aspecto da escritura ou da estátua se deve reduzir integralmente à ação conjunta da causa principal e do instrumento respectivo. Assim também na Sagrada Escritura qualquer passagem, no seu teor preciso, versando sobre tal ou tal tema, com tal ou tal vocabulário, se reduz por inteiro à ação conjunta de Deus e do autor sagrado; nada fica entregue apenas ao autor humano, como nada fica entregue ao instrumento apenas (o cinzel) na confecção de uma estátua.

Então não há na Bíblia tema não inspirado ? — Não; não o há. A possível surpresa que esta conclusão talvez provoque, se esvanecerá desde que se tenha em vista que «inspirado» não quer dizer «revelado, comunicado por Deus ao autor humano de maneira extraordinária». «Tema inspirado» quer dizer, no caso, apenas: «tema que, considerado à luz de Deus, apareceu ao hagiógrafo como condizente com a mensagem divina da Bíblia». Assim entraram na Escritura muitos assuntos totalmente indiferentes ou neutros do ponto de vista religioso (árvores genealógicas, mapas geográficos, catálogos de povos, etc.); contudo não ficaram isentos do influxo da inspiração, pois tais assuntos estavam naturalmente ligados com outros temas (temas religiosos) na mente do autor sagrado; servem de vigas ou traves de conexão entre os assuntos religiosos da Bíblia; contribuem destarte para constituir o «arcabouço» da Escritura Sagrada.

Em particular com referência às palavras mesmas da Bíblia, deve-se dizer que não há alguma que haja sido escolhida pelo autor humano apenas, sem a colaboração do Espírito Santo ou do dom da inspiração. Lembremo-nos, porém, mais uma vez de que «palavra inspirada», no caso, não quer dizer «palavra caída do céu» ou «palavra que prorrompe repentinamente no espírito do autor humano», mas apenas «palavra já contida no vocabulário do hagiógrafo, a qual com certeza infalível apareceu ao autor humano como veículo capaz de exprimir a mensagem divina». — Note-se bem que, segundo a psicologia humana, não há na mente verdades dissociadas de determinado vocabulário ou expressionismo; todas as nossas ideias, mesmo quando não proferidas com os lábios, estão sempre unidas a uma linguagem qualquer interior que as suporta e carrega. Por isto será vão ou contrário às leis da psicologia querer distinguir entre ideias e palavras na Bíblia, como se aquelas fossem objeto de inspiração, e estas não. Toda ideia, toda verdade existe no homem associada a palavras mentais, e a ação do Espírito Santo respeita este estado de coisas, apenas garantindo que por essa via não se introduzam erros de doutrina.

3) Não há na Escritura Sagrada páginas «mais inspiradas» e páginas «menos inspiradas». A ação do Espírito Santo e de seu instrumento humano (o autor sagrado) se exerce igualmente em toda e qualquer página da Bíblia, como a ação do artista e a do cinzel se exercem igualmente na configuração de qualquer traço da estátua de mármore.

4) À luz de quanto dissemos, também se percebe não ser incompatível com a inspiração a existência de fontes literárias da Bíblia. Os documentos-fontes terão sido redigidos independentemente da inspiração bíblica por quem quer que seja (judeu, pagão, na Palestina ou no estrangeiro); quando, porém, o autor bíblico resolveu utilizar tais documentos, transcrevendo-os ou adaptando-os de algum modo para redigir uma página da Escritura Sagrada, foi iluminado por Deus, a fim de distinguir com certeza infalível o que havia de verídico e consentâneo com a mensagem divina nessas fontes, e o que havia de não consentâneo ou não autêntico. O que o autor sagrado então tirou dessas fontes, passou a ser garantido pela prerrogativa da inspiração bíblica. Cf. «P. R.» 26/1960, qu. 5.

Admitem-se também acréscimos sucessivamente feitos ao texto de determinados livros bíblicos; tais acréscimos, muitas vezes, passaram a constituir partes do conteúdo oficial ou canônico da Sagrada Escritura (assim, por exemplo, o «estatuto do Rei» em Dt 17,14-20 é pelos críticos modernos atribuído a um autor do tempo da monarquia em Israel, posterior a Moisés, embora o estatuto apareça num discurso de Moisés). À vista disso, deve-se dizer que todos os escritores que de algum modo concorreram para dar a configuração definitiva do texto bíblico canônico gozaram do dom da inspiração bíblica.

As considerações propostas já bastam para evidenciar o sentido das «deficiências» do texto bíblico. Sem afetar de algum modo a verdade (o que é de importância capital), elas constituem a face humana da Palavra de Deus; são consequências do mistério da descida do Divino ao humano, mistério que culminou na Encarnação do Filho de Deus em Jesus Cristo. A Sagrada Escritura é, por isto, dita «um sacramental», ou seja, um sinal sensível que comunica a graça, estendendo os benefícios da Redenção a quem a use com fé e amor.

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

Revista Pergunte e Responderemos.Novembro.1961.n.47

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