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segunda-feira, 26 de junho de 2017

Fé e matemática

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“A fé é a certeza daquilo que ainda se espera, a demonstração de realidades que não se vêem”, diz a chamada Carta aos Hebreus, 11,1. Matemática é a ciência teórica que estuda a categoria da quantidade abstrata, pelo método dedutivo e indutivo.
A matemática é uma ciência categorial. A fé é uma experiência que se ancora no transcendental. O objeto da matemática é o conjunto de entes de razão quantitativos, enquanto quantitativos. O objeto da fé é Deus. A fé é um ato pelo qual o homem toma posição ante o mistério de Deus. O ato de crer põe, obviamente, o problema humano fundamental: a existência ou não de Deus. Inclui também a questão central da noção de Deus. A matemática é uma ciência que estuda entes de razão simbólicos e conceituais. Estas definições todas, com um incontável número de nuances, emolduram uma permanente discussão entre o rigor lógico de argumentos matemáticos e as provas da existência de Deus. É, naturalmente, uma questão anterior àquelas que configuram a importância social e cultural da religião.

Esta discussão volta sempre à baila de reportagens. Um caminho árduo de reflexão e de abordagens multifacetadas. Um grande desafio que exige grandes esforços, clareando pontos de partida e questões de raiz. As ferramentas da matemática são usadas para mostrar, muitas vezes, onde os argumentos sobre a existência de Deus são inconsistentes. Engrossam o coro os que estão aí enfileirados a partir da crítica da religião que irrompeu na modernidade, com raízes fortes no iluminismo. Os séculos XIX e XX já hospedavam as discussões e confrontos com as críticas feitas à religião, tanto no âmbito das idéias quanto dos debates políticos. Já no século XVIII o ateísmo é visto como conseqüência da defesa da liberdade do ser humano. A tradição filosófica vigente considerava a dependência religiosa da pessoa como um freio e uma limitação indevida à liberdade. Sem retomar de modo completo, histórica e sistematicamente, esta discussão, sabe-se de sua complexidade e extensão.
Não é simples o desafio destes percursos todos. Contudo, é importante considerar o ponto de partida e os desenvolvimentos próprios das abordagens da questão de Deus e das raízes da experiência de crer. O cristianismo tem neste âmbito propriedades e singularidades muito profundas que não são argumentos que se diluem em água, como podem correr o risco de afirmações levianas. O Papa Bento XVI, no seu discurso inaugural da 5ª Conferência dos Bispos da América Latina e do Caribe (Aparecida, maio de 2007), afirmou: “Se não conhecemos a Deus em Cristo e com Cristo, toda a realidade se torna um enigma indecifrável; não há caminho e, não havendo caminho, não há vida nem verdade”. Esta convicção cristã católica tem raízes e força para se confrontar com o clima relativista contemporâneo.
O próprio Papa Bento XVI, na sua Carta Encíclica “Deus é amor”, n. 1, focaliza o ponto de partida, a raiz que fundamenta a fé cristã: “Não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande idéia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva”. Portanto a fonte desta adesão de fé não é uma idéia ou uma abstração. Mas, uma pessoa. Uma pessoa não é argumento que se dilui em água. Pelo contrário, tem força. Esta força está configurada no Evangelho de Jesus Cristo. Uma força singular que não se reduz nem mesmo depende simplesmente de grandes programas e estruturas. Na verdade, é um amor, um amor recebido do Pai graças a Jesus Cristo pela unção do Espírito Santo. Portanto é o dom do encontro com Jesus Cristo que configura o tesouro e a realidade da experiência de crer.
Há uma prova incontestável deste amor que é Deus revelado na pessoa de Jesus Cristo, razão e sentido pleno do dom deste encontro que transforma, torna-se sentido inesgotável de viver. Não é, pois, uma abstração. Não é uma argumentação para mostrar uma lógica sem lógica. È uma realidade que “faz passar da morte para a vida, da tristeza para a alegria, do absurdo para o sentido profundo da existência, do desalento para a esperança que não engana. Esta alegria não é sentimento artificialmente provocado nem estado de ânimo passageiro” (DA 17). A pessoa de Jesus Cristo é esta fonte e a prova incontestável deste amor que Deus é. Estas raízes profundas que se configuram em argumentos incontestáveis do amor de Deus, de sua existência e presença amorosa, Jesus Cristo, a plenitude da revelação de Deus, explicam a força das raízes católicas na arte, linguagem, tradições e estilo de vida.
Por isso mesmo, por estas raízes incontestáveis e consistentes, a tradição católica como dom “é um cimento fundamental de identidade, originalidade e unidade na América Latina e do Caribe: uma realidade histórico-cultural, marcada pelo Evangelho de Cristo” (DA 8). Fé, pois, não é matemática!
Dom Walmor Oliveira de Azevedo é arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

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