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terça-feira, 4 de julho de 2017

Um cristão da Idade Média

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A maior dificuldade para se estudar e entender bem a História, em especial a História bimilenar da Igreja, é saber compreender os acontecimentos do passado com a mentalidade da época em que aconteceram, para se ter um juízo perfeito dos fatos. Se quisermos julgar os fatos do passado com a mentalidade de hoje, cometeremos graves injustiças. Infelizmente isso acontece, e muito, com historiadores movidos mais por razões ideológicas, especialmente os “politicamente corretos”, que para atender ás suas ideologias distorcem o significado dos acontecimentos. É comum isso em alguns autores ligados à teologia da libertação.

O historiador Arlindo Rupert diz com muita propriedade o seguinte:

“Se quisermos compreender a história, sentir as atitudes dos nossos maiores, muitas delas para o homem de hoje chocantes e paradoxais, procuremos estudar a mentalidade de cada época, o sentido social do tempo, os critérios em que se estribava a legislação vigente… Assim poderemos entender melhor certos episódios históricos, tais como a chamada intolerância religiosa, a inquisição, a distinção entre cristão-novo e cristão-velho, o fato da escravatura… Aliás, nós homens do findar do século XX somos, com frequência, assaz ingênuos e incoerentes. Condenamos episódios passados que nos parecem monstruosos e calamos fenômenos históricos em adições contemporâneas ainda mais volumosas e cruéis, porque apresentados sob o disfarce de intenções aparentemente legítimas ou em nome de leis sociais que parecem validas e aceitáveis” (A Igreja no Brasil, vol. I, Santa Maria, 1981, pg. 17).

Como disse L.M. Carli, “O verdadeiro progresso jamais condena as suas fases anteriores; passa de um bem para outro melhor, sem, porém, considerar um mal aquilo que antigamente era um bem” (A Igreja Viva, São Paulo, 1971, p. 125). O homem moderno condena com facilidade e rapidez levianas a Idade Média, sem conhece-la.

Na Idade Média, formou-se a Cristandade, depois de seis séculos de longos e árduos trabalhos da Igreja, que foi a única Instituição que ficou de pé. Ela educou e evangelizou aquela massa bárbara que dominou Roma definitivamente em 476, quando o bárbaro Odoacro derrubou o último imperador romano do Ocidente, Rômulo Augustulo. A Europa se transformou num mosaico de povos bárbaros lutando entre si e disputando os despojos romanos. Nesses seiscentos anos toda a Europa foi evangelizada, mas dentro da cultura de época, ainda com forte conotação e violência bárbara. O povo convertido ao cristianismo amava a Igreja, lotava as grandes e majestosas catedrais e respeitavam os dogmas, mas não tinha ainda um comportamento moral adequado; o Sermão da Montanha não tinha ainda mudado os costumes bárbaros de outrora.

Para se ter ideia desta realidade, conto aqui um episódio narrado por Daniel Rops em sua coleção sobre a História da Igreja. Conta ele que um bárbaro convertido ao cristianismo, tendo-se separado da esposa, e querendo desposar outra mulher, foi pedir autorização a um bispo para isso, o que lhe foi negado. De pronto o homem puxou da espada para cortar a cabeça do bispo. Quando este inclinou a cabeça, o bruto lhe disse: não vou lhe dar a honra do martírio; e guardou a espada.

É um episódio marcante. De um lado o cristão ainda bruto acreditava no céu, no martírio e na sua beleza; de outro lado vivia uma vida ainda sem respeitar a moral. Este fato ajuda-nos a compreender um pouco a mentalidade cristã da Idade Média. É claro que nela houve grandes santos e santas, S. Francisco de Assis, S. Domingos de Gusmão, S. Gregório Magno, S. Columbano, S. Beda Venerável e tantos outros que viveram a moral impecável.

Sem entender isso não é possível entender porque havia a intolerância religiosa por parte de todos, a Inquisição, as Cruzadas, etc. Muito juízo errado se faz do passado por não se conhecer sua cultura e a base de suas leis.

Prof. Felipe Aquino

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