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Pergunta de Paulo Roberto Ribeiro de Pires do Rio / Goiás e resposta do Prof. Dr. OdalbertoOlá Paulo Roberto Ribeiro de Pires do Rio / Goiás !Imagino que a pergunta que estas fazendo tem relação com a caminhada do povo de Deus a terra prometida. O caminho do Êxodo. Para responder esta pergunta temos algumas dificuldades, este povo em caminho seguia pelo deserto, possivelmente tinha caminhos de caravanas que sabiam onde estavam os Oasis, para se reabastecerem, assim o caminho se tornava tortuosos e mais longo.

Capítulo I O LIVRO DE GÊNESIS - A Criação

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1.1. - A ORIGEM

O homem é atormentado pela consciência que tem da inexorável morte; morte, o término da existência a revelar-lhe a vida; vida, o pulular de vários matizes e formas a reve-lar-lhe um ordenamento; ordenamento inteligente, a revelar-lhe a Criação; Criação, a reve-lar-lhe o Criador: - Deus:
“Sua realidade invisível - seu eterno poder e sua divindade - tornou-se inteligível, desde a criação do mundo, através das criaturas...” (Rm 1,20).
A origem é um desafio à inteligência e a existência é um mistério ainda não desven-dado. O homem quer conhecer a origem de tudo e a finalidade da existência. Percebe que na natureza tudo é cíclico: começa o dia que atinge o seu clímax, termina e reinicia em outra manhã; igualmente as fases da lua; também, as estações do ano a anunciar em cada primave-ra o reiniciar e a continuidade existencial: novos frutos, novas ninhadas e novos seres. Tudo recomeça. Tudo inspira novo começo e um fim à vista.

Tudo isso se insinua em um recomeço após a morte e sente anseio pelo que esse de-senrolar lhe sugere. Assim como termina tudo deve ter um começo. E então procura o come-ço de tudo e a própria origem. Tem a esperança de que o conhecimento da origem de tudo venha a lhe revelar para que existe: só quem sabe de onde vem, sabe para onde vai e a que se destina. Busca então localizar as minúcias tanto físicas como cronológicas da sua origem obscura. Também os contornos e detalhes que desconhece da criação, origem e formação tanto de si mesmo como de tudo o mais que existe e o cerca.
Porém, o Homem só pôde conhecer alguns traços ainda indecifráveis e complexos de seu pequeno e esparso percurso histórico fossilizado nas sucessões cronológicas da sua exis-tência, manifestando-se aqui e acolá disperso no mundo por onde passa. A origem real e propriamente dita permanece um mistério, um enigma que ele não a consegue atingir. No âmago de toda a dinâmica existencial, o homem é o mistério do homem: não sabe de onde veio e não sabe para onde vai; e, não conhecendo o que precisa para se situar consciente-mente nada sabe de si mesmo, nem mesmo o que é.
Para o narrador bíblico ou hagiógrafo não existe tal mistério insondável e nem se preocupa com muitos detalhes e complexidades: para ele a origem e o fim de tudo é Deus, o criador de tudo o que existe:
“No princípio, Deus (hbr = Elohim) criou o céu e a terra. Ora, a terra estava vazia e vaga, as trevas cobri-am o abismo. O Espírito (=sopro) de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1,1-2).
Seus conhecimentos, sua ciência, eram limitados àquilo, e somente àquilo que lhe informavam os sentidos nus, o que via e ouvia. Não possuía telescópios nem microscópios, desconhecia qualquer fenômeno físico, químico ou bacteriológico, bem como desconhecia
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por completo toda e qualquer conquista científica. E com os parcos recursos de que dispunha traçou a linha de sua concepção humana da Obra de Deus, então conhecido por “Elohim = deuses”.
Nasceria assim a primeira teoria científica da origem de tudo que o envolvia, profun-damente mesclada com a concepção religiosa e doutrinária, condicionada à sua época e men-talidade. Por causa disso torna-se sumamente injusto avaliar a sua teoria ou o seu desenvol-vimento com base nas conquistas modernas, exigindo-se dele conhecimentos que não possu-ía. É indispensável se deslocar à sua cultura para melhor o compreender, separando-se ainda a verdade religiosa aí mesclada por revelação e inspiração de Deus já que ninguém presen-ciou o Princípio e a Obra da Criação. O narrador expõe tudo com simplicidade sem se deixar prender e perder por mitos, superstições, fantasias ou lendas apesar de estar tudo paradoxal-mente mesclado nela. Então, quando diz que Deus criou o céu e a terra, diz que Deus criou tudo o que existe já que tudo o que via e conhecia era todo o seu universo, que se resumia ao que seus sentidos lhe informavam. Não conhecia nem poderia conhecer as galáxias ou ou-tros astros do sistema solar ou do universo astronômico. Nem poderia imaginar a constitui-ção da matéria, a molécula, o átomo e sua estrutura infinitesimal; nem muito menos outros campos do saber humano atual tais como as bactérias, os protozoários etc. ou qualquer outro fenômeno físico, animal ou vegetal.
1.2. - A CRIAÇÃO
Para ele nada do que existe, existe sem Deus; no princípio tudo foi criado por Deus e caminha inexoravelmente conforme os Seus desígnios sem mistérios, sem complexidades e com a simplicidade inspirada por uma fé rudimentar e intuitiva. Diz apenas e vigorosamente que tudo começou a partir do impulso propulsor e ordenador da Palavra de Deus, mostran-do-O assim onipotente e transcendente, bem destacado e não se confundindo com a Criação:
“Deus disse: „Haja luz‟ e houve luz” (Gn 1,3).
Deus, no começo, afasta as trevas e cria a luz para ver a obra em andamento e como estava sendo feita, tal como a cultura antropomórfica de então, concebendo-O como Homem que não trabalha no escuro. Quando amanhece parece à primeira vista que a luz do dia pre-cede a luz do sol, qual seja o dia começa a clarear antes da surgir a luz solar, como se distin-guissem. Porém, a luz do dia é a luz do sol, mas ao narrador havia a distinção que se percebe a olhos nus, e sem o menor conhecimento científico. Não sabia que a luz do sol gasta apro-ximadamente oito minutos para atingir a terra. Para ele coexistiam ambas, distintas e separa-das. Por isso, na sua concepção, Deus a cria antes de criar o sol, qual seja e melhor dizendo, independentemente da criação dele. Criou a luz erradicando as trevas (Gn 1,2), como que prevendo o big-bang da ciência atual, e facilitando assim a explosão da matéria, da vida e do calor criados pelo Espírito [sopro] de Deus [Elohim] (Gn 1,2). Daí então, a Criação se des-dobra vertiginosamente em sequência culturalmente lógica para o narrador e em ordem sis-temática delimitada em espaços uniformes de tempo, em dias seguindo uma evolução siste-mática, não espontaneamente como Darwin ou Teilhard de Chardim pretenderam, mas, con-forme Deus (Elohim) pronunciava Sua Palavra [“... e Deus (Elohim) disse...”, “... e Deus (Elohim) chamou...”]. Isso tudo traz à baila as cinco vias de Aristóteles e São Tomás de A-quino demonstrando a existência do „Primeiro Motor‟ da Criação, dando o empurrão inicial: Deus:
“Deus (Elohim) chamou à luz dia e às trevas noite. Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia” (Gn 1,5).”
O mundo de então foi concebido como um grande volume cheio de água onde tudo já se encontrava confusamente disposto que Deus (para maior compreensão usaremos sim-
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plesmente Deus) vai formando e ordenando, tal como se a Terra toda fosse um feto na pla-centa rodeado de líquido:
“Deus disse: Haja um firmamento no meio das águas e assim se fez. Deus fez o firmamento, que separou as águas que estão sob o firmamento das águas que estão acima do firmamento, e Deus chamou ao fir-mamento céu. Houve uma tarde e uma manhã: segundo dia” (Gn 1,6-8).
Desconhecendo as leis físicas da evaporação da água, da formação das chuvas, e vendo-as a olho nu caírem, supôs que tanto havia águas no azul do céu como no mar azul:
“Deus disse: „Que as águas que estão sob os céus se reúnam numa só massa e que apareça o continente‟, e assim se fez. Deus chamou ao continente terra e à massa das águas mares, e Deus viu que isso era bom” (Gn 1,9-10).
Delimitou Deus a terra e desse modo a separou dos mares. Estavam assim preparados os ambientes para a criação, geração e propagação dos vegetais, ervas e frutos com o que se deu a erradicação da aridez da terra virgem:
“Deus disse: „Que a terra verdeje de verdura: ervas que deem semente e árvores frutíferas que deem sobre a terra segundo a sua espécie frutos contendo a sua semente‟, e assim se fez. A terra produziu verdura: er-vas que dão semente segundo a sua espécie, árvores que dão segundo sua espécie frutos contendo sua se-mente, e Deus viu que isso era bom. Houve uma tarde e uma manhã: terceiro dia” (Gn 1,11-13).
A vegetação e as árvores, bem como as ervas que cobrem a superfície da terra não são imanentismos dela, mas gerados dela e nela pela Palavra de Deus, fonte de tudo o que existe e nada vindo à existência sem que Ele chamasse:
“Deus disse: „Que haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia e a noite; que eles sirvam de si-nais, tanto para as festas quanto para os dias e anos; que sejam luzeiros no firmamento do céu para ilumi-nar a terra‟, e assim se fez. Deus fez os dois luzeiros maiores: o grande luzeiro para governar o dia e o pe-queno luzeiro para governar a noite, e as estrelas. Deus os colocou no firmamento do céu para iluminar a terra, para governarem o dia e a noite, para separarem a luz e as trevas, e Deus viu que isso era bom. Houve uma tarde e uma manhã: quarto dia” (Gn 1,14-19).
Aquela luz já criada é depositada em receptáculos apropriados à sua distribuição du-rante a noite e durante o dia. Não são os luzeiros seres absolutos a ponto de se tornarem até mesmo objetos de adoração pagã, mas advindos da Criação de Deus. Recebeu de Deus a missão de comando e direção da luz principalmente para as funções fundamentais da vida e indispensáveis à existência:
“Deus disse: Fervilhem as águas um fervilhar de seres vivos e que as aves voem acima da terra, diante do firmamento dos céus, e assim se fez. Deus criou as grandes serpentes do mar e todos os seres vivos que rastejam e que fervilham nas águas segundo sua espécie, e Deus viu que isso era bom” (Gn 1,20-21).
Não bastava criar os seres vivos. Era preciso dotá-los de fecundidade para a propaga-ção e perpetuação da espécie. Deus então os fecunda, tornando-os férteis e capazes de se reproduzirem: é a bênção:
“Deus os abençoou e disse: „Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a água dos mares, e que as aves se multipliquem sobre a terra‟. Houve uma tarde e uma manhã: quinto dia” (Gn 1,22-23).
Quando Deus abençoa, Deus fecunda e é de Deus que os seres recebem a vida e a fecundidade não da natureza ou do mundo: as vegetações bem como as ervas e as árvores frutíferas tiveram por fonte criadora o próprio Deus. Ele lhes injeta a faculdade de viver e procriar como aptidão imanente a cada uma e a toda espécie viva estendendo a bênção à própria terra e aos demais seres vivos:
“Deus disse: Que a terra produza seres vivos segundo a sua espécie: animais domésticos, rép-teis e feras segundo sua espécie, e assim se fez. Deus fez as feras segundo sua espécie, os a-
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nimais domésticos segundo sua espécie e todos os répteis do solo segundo sua espécie, e Deus viu que isso era bom” (Gn 1,24-25).
E a Criação prossegue inexorável aperfeiçoando-se sempre mais e mais em cada no-vo estágio ou etapa, em cada ciclo ou dia, três obras por dia, caminhando em direção a sua obra prima: a Criação do Homem, o ápice, com o que será ultimada e coroada a Criação.
É de se notar que vários indícios evidenciam a forma poética dessa narração, quais sejam dentre eles a repetição sistemática de várias expressões tais como “Deus disse”, “Deus viu que era bom”, “Houve tarde e manhã:... dia”, os números com sua significação peculiar, tanto na criação em seis dias, como nas três obras por dia, bem como no sétimo dia, e na forma ritmada de todo o contexto. Não houve testemunhas nem a escrita havia sido in-ventada ainda. Daí compreender-se que essa narração para se permanecer viva na memória através dos tempos era assim composta em versos para ser declamada sistematicamente, método ainda usado no Oriente para a retenção e divulgação de acontecimentos importantes. Todo o Velho Testamento está repleto de outras poesias como forma de celebração de fatos destacados na História da Salvação (Gn 49; Ex 15; Nm 23 e 24; Dt 32 e 33; Jz 5; 1 Sm 2,1-10; Os Salmos; etc.); e, no Novo Testamento destacam-se dentre muitos trechos dos rituais cristãos dos primórdios o Magnificat de Maria (Lc 1,46-55), o Benedictus de Zacarias (Lc 1,67-79) etc..
Em toda a narração transparece a onipotência e onisciência de Deus nada criando ao acaso, mas inteligentemente, obedecendo a uma ordem determinada e coerentemente dispos-ta com vistas a um fim deliberado: a criação do homem.
1.3. - O HOMEM
No relato bíblico da Criação registram-se as operações da Palavra de Deus enquanto criava. O “Disse Deus” evidencia o impulso inicial criador e a expressão “e Deus viu que era bom” caracteriza cada novo estágio criado e completo. No segundo dia, tal expressão não aparece e aquela operação só será completada no princípio do terceiro dia, ocasião em que se completará o mecanismo das águas e a delimitação com a terra seca, circunscrevendo-a.
Depreende-se da própria narrativa que tudo aquilo que Deus faz é perfeito principal-mente por ser de sua própria natureza e essência fazer bem feito tudo o que faz. Descabe, portanto, a expressão viu que era bom, sistematicamente repetida, à perfeição da obra que Deus cria ainda mais quando não aparece na Criação do Homem, Sua Obra-Prima:
“Deus disse: „Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que ele domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra” (Gn 1,26).
Aí está: Deus cria o Homem à sua imagem e semelhança e, como tal, tendo poder sobre toda a Criação:
“Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher os criou. Deus os abençoou e lhes disse: „Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os pei-xes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra‟. Deus disse: „Eu vos dou todas as ervas que deem semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que deem semente: isso será vosso alimento. A todas as feras, a todas as aves do céu, a tudo o que rasteja sobre a terra e que é animado de vida, eu dou como alimento toda a verdura das plantas‟, e assim se fez. Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom. Houve uma tarde e uma manhã: sexto dia” (Gn 1,27-31).
Num só lance o narrador finaliza o último dia de Criação, o sexto dia. Nele criou “os animais domésticos, répteis e feras segundo a sua espécie” e “Deus viu que era bom”. Po-rém, após criar o Homem não diz o mesmo “viu que era bom”; mas, após cuidar da alimen-tação do que foi criado nesse último dia “Deus viu tudo o que tinha feito: e tudo era muito bom”. Só se pode concluir daí que Deus verificava se tudo “era bom” para o Homem, para
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quem Deus tudo criava. Uma comparação facilitará a compreensão: é como sucede a um profissional ao selecionar material e ferramentas para fazer uma mesa de madeira. Ao sele-cioná-los um a um vai pensando de si para si mesmo ser bom o que separa, e bom para a finalidade que busca, - a construção da mesa de madeira: separa o martelo e ao separá-lo vê que isso era bom; separa os pregos e ao fazê-lo vê que eram bons; separa a madeira para os pés e vê que era boa; separa as tábuas do tampo e da mesma forma vê que eram boas; tudo o que separou era bom para a mesa que queria construir; e, ao concluí-la mira toda a mesa pronta e vê que ficou muito boa. É essa a imagem que se irradia de toda a narração em análi-se da Criação: toda a criação é boa para o Homem ou Deus criou tudo para o Homem.
Portanto, a expressão e Deus viu que era bom (1,4.10.12.18.21.25 e 31) traduz que tudo foi criado bom para o homem, a ele amoldado e entregue servindo-lhe até mesmo de alimento. Desempenhando função ordenadora cumpria-lhe dar prosseguimento ao que foi criado sempre em vista da finalidade de tudo e de cada coisa já existente. O Homem é um auxiliar de Deus, um consorte com função executiva (Sl 8, 6-9) feito para conviver com Deus, sua Imagem, sucedendo-O e secundando-O. Veio de Deus, reflete Deus, devendo com Ele conviver e compartilhar, vivendo por, com e para Deus. Por ser Imagem de Deus pode conhecê-lO, bem como as Suas leis.
Visivelmente, Deus trata o homem desde a sua criação com carinho todo especial, expresso no ato de amoldá-lo Ele mesmo com as Suas Próprias Mãos e dar-lhe a Vida com um sopro em suas narinas, com arte e afeto especiais como um oleiro molda amorosamente no barro o objeto que cria:
“Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou “em suas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2,7).
O Homem recebe de Deus o “sopro de vida e torna-se ser vivente”, trazendo em si a vida advinda do imo de Deus: o Homem tem Vida Divina em sua natureza de pó: O Homem é a Matéria Divinizada. Ao falecer, o Homem exala o último suspiro; nisso o hagiógrafo viu que recebe de Deus o sopro inicial de sua vida. Nascido diretamente de Deus é Imagem de Deus, reflete Deus, tal como uma imagem reflete aquilo que representa tal como o reflexo de um espelho. O Homem já neste estágio se identifica com Deus pelo domínio sobre a Criação e reflete a Santidade de Deus por sua integridade pessoal distinta e inconfundível, por isso a semelhança e a imagem. Tal como Deus, transcende e não se confunde com a Criação, é dela separado, dela se distingue e até a submete e a possui (Gn 1,26-28).
Para o autor sagrado, o Homem sem Deus nada é. Não passa de um viajante que tra-fega sem direção, sem caminho certo, um navegante que navega sem rumo, não encontra o seu trajeto, não parte e nem chega. Perde-se em sua realidade existencial sem finalidade e desligado de si mesmo por não se encontrar em Deus de onde veio e para os fins e desígnios que lhe foram traçados por Ele. Ocupa lugar privilegiado no quadro existencial da Criação e sem Deus fica deslocado gravitacionalmente, não girando em torno do eixo certo.
A Criação traz em si mesma o seu próprio ordenamento com a fixação de leis pró-prias, eficazes e imanentes. Centralizam-se no Homem cujo desenvolvimento supõe a apti-dão de ocupar o seu lugar no quadro vivo. É que tudo tem função peculiar, obedece à deter-minações específicas e satisfaz até mesmo um conjunto sistemático e dinâmico. Tudo é se-gundo uma finalidade material e orgânica, total e parcial de toda a construção impressa, or-denada e governada por Deus. O Homem com os seus dons deve conduzir tudo à eficácia ideal mediando entre as coisas, as criaturas e Deus. O Homem, que é matéria e ao mesmo tempo sopro de Deus, seria o encontro de ambos. A expressão divina da matéria, eis o Ho-mem, “imagem e semelhança de Deus” e, também, “barro”, “pó”. O Homem é a expressão máxima da Criação sem o qual a Criação para nada serve e perde a própria finalidade. É no Homem por meio de suas aptidões racionais e inteligentes que a própria natureza das coisas se encontra consigo mesma e se realiza em plenitude material e culmina em sua plenitude objetiva.
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É do Homem o universo todo, assim Deus lhe destinou. Não apenas isso. Estabele-ceu-se também um modo particular de convívio e relacionamento específico, e em especial chamando-o a uma vida mais íntima e partilhada familiarmente (“Deus passeava pelo Jar-dim, à hora da brisa...” Gn 3,8).
1.4. - DEUS E O HOMEM
O distinto e profundo relacionamento e singular convívio com o Homem manifes-tam-se desde então ora como estreita colaboração mútua, ora como profunda comunhão de vidas, ora como intimidade bem familiar. Em qualquer caso ocupa o Homem a posição ím-par de colaborador e coordenador da Obra de Deus, podendo-se dizer ser ele o catalisador da Criação. É que, apesar da perfeição que coroa cada ato criativo de Deus, particular ou con-junto, há sempre presente uma demanda nas coisas criadas exigindo um ordenador comum e inteligente - o Homem, imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26). É o caso da mescla em que se apresenta a natureza criada: tudo misturado e esparso, gêneros e espécies, a compor determinado ambiente. Cabe ao Homem separar, ordenar e semear conforme necessário, separando, ordenando por gênero e espécie, função essa bem destacada:
“No tempo em que Iahweh Deus fez a terra e o céu, não havia ainda nenhum arbusto dos campos sobre a terra e nenhuma erva dos campos tinha ainda crescido, porque Iahweh Deus não tinha feito chover sobre a terra e não havia homem para cultivar o solo” (Gn 2,4-6).
Deus tudo criara com aptidão imanente para germinar e propagar-se; também ofere-cia a chuva cabendo ao Homem o cultivo do solo. Estabeleceu-se então entre ambos um real consórcio de tarefas, um “co-munus” num perene relacionamento: Deus propiciava a chuva, e o Homem oferecia o seu trabalho. Ao Homem cabia cultivar o solo, eis um dos motivos imediatos da sua Criação. Tudo assim disposto dá-se ainda o deslocamento dele para outra situação em nova dimensão ou novo estado de vinculação relacional com Deus:
“Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente.” / “Iahweh Deus plantou um Jardim em Éden, no oriente, e aí colo-cou o homem que modelara... Iahweh Deus tomou o homem e o colocou no Jardim do Éden para cultivá-lo e guardar” (Gn 2,7-8.15).
É uma maneira diferente de dizer a mesma coisa já dita com outras palavras: Ao “in-suflar em suas narinas o hálito de vida” Deus cria o Homem “à sua imagem e semelhança” e ao “colocá-lo no Jardim que Ele mesmo plantara” modifica a sua situação e o distingue dos outros seres já criados. Criando o Homem para cultivar o solo não havia a necessidade de lhe preparar um local especial para aí o colocar a não ser que se pretenda evidenciar a exis-tência de um relacionamento especial preparado pelo próprio Criador. E tendo sido prepara-do e ordenado pelo próprio Deus só podem resultar numa maior aproximação de ambos, Deus e o Homem. Isso traz para o último uma profunda modificação em seu estado elevan-do-o a um relacionamento sobrenatural. Pode-se então vislumbrar sem esforço a existência de dois campos de relacionamento entre Deus e o Homem:
 O primeiro é aquele em que Deus fornece a chuva e o homem fornece seu trabalho no cultivo da terra (Gn 2,5-6); e,
 O segundo, onde Ele mesmo planta um “jardim” e nele “coloca” o Homem para dele “cuidar” (Gn 2,7-15).
Há fundamental diferença entre ambos: eis que no último aprofunda-se a vinculação entre Deus e o Homem colocado num jardim para ele especialmente preparado, com a fina-lidade de cultivá-lo e guardá-lo (Gn 2,15). É como se fossem dois mundos que se destina-vam ao cultivo pelo homem. No último, Deus passeava a brisa do dia (Gn 3,8) caracterizan-
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do-se com essa sua presença física a elevação do estado do Homem a uma verdadeira comu-nhão de vidas entre ambos, fruto de ato exclusivo de Deus. O Homem de então participa da Criação pelo trabalho e da Vida Divina pela comunhão sobrenatural com Deus. Estabelece-se assim, desde o início, um convívio mais dependente e íntimo, e profunda familiaridade. Essa comunhão de vidas foi e são o ápice de toda a Criação, percebendo-se o grande privilé-gio conferido ao Homem tratado e considerado em ambas as dimensões como o único centro gravitacional da atenção generosa, amorosa e objetiva de Deus. Por causa disso é que Adão dá o nome a todas as criaturas (Gn 2,20), eis que nomear biblicamente significa ser dono:
“... chamei-te pelo teu nome: meu tu és” (Is 43,1).
Desde essa integração e relacionamento comum se apresentaram os vários elementos indissociáveis e que compõem a natureza humana e se destinam à consecução de um desen-rolar antecipadamente elaborado, planejado e estabelecido apesar de profundamente livre. Uma espécie de plano geral tal como uma obra inteligente e pensada, elaborado pelo próprio Deus, na qual o Homem torna-se participante ativo e consciente. Mas, não se trata de um plano no sentido específico e humano: Deus não elabora planos, “Deus é ato puro”, segundo Tomás de Aquino, e só executa inexoravelmente o Seu Desígnio.
Desfrutam então da glória e da felicidade de uma vida em estreita comunhão, intimi-dade e familiaridade do Homem com o Criador. Estabelece Deus com o Homem, pessoa a pessoa um consórcio de tarefas (Gn 2,5-6) e uma comunhão de vidas (Gn 2,7-15). A partir de então Deus sempre quer manter viva e dinâmica essa intimidade, familiaridade e comu-nhão de amor com o Homem, sua Criação predileta a quem destinou toda a Criação:
“Deus abençoou-os e lhes disse: „Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai so-bre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra” (Gn 1,28).
Recebe o Homem diretamente de Deus toda a Criação. O tom imperativo da entrega denota toda uma dinâmica em que se fundará a atividade humana e a íntima relação entre Deus e toda a humanidade. È a linha de toda a História. Esse desígnio de Deus é o mesmo ainda e será o mesmo até o fim dos tempos na culminação de toda a Obra. Nada, nem mes-mo qualquer ato humano pode alterar ou perturbar a realização do desígnio de Deus. Em si; pode perturbar apenas o gozo e o recebimento dos benefícios, retardando-os apenas quanto ao próprio Homem e à Criação na História: a criação é um ato irreversível de deus.
1.5. - O M A L
Há um fato contraditório no relato da Criação e retrata sua presença contumaz em toda a História Humana bem como na vida particular ou social de cada um: é a presença do mal. Da mesma forma que a consciência da morte revela a vida, a consciência do mal revela o bem. Busca o homem ansiosamente conhecer e compreender a causa, a natureza e a finali-dade do mal. Infrutiferamente, porém. Busca e quer erradicá-lo ao encontro de um bem total. Para isso precisa conhecê-lo, estabelecendo a sua causa, sua natureza e fins, diferenciando-os. O mal é a expressão do sofrimento, da dor e da morte em contraste com o bem significa-do na felicidade, na paz e na vida. O mal é a ineficácia ou a ausência do bem, o desordena-mento da Criação e sua consequente esterilidade. É a volta ao estado anterior à ação criadora de Deus, é o deserto, o caos:
“... - ele é Deus, o que formou a terra e a fez, ele a estabeleceu; não a criou como um deserto, antes a for-mou para ser habitada” (Is 45,18).
Para o escritor sagrado, o hagiógrafo, da mesma forma que a origem, o problema é simples e teve como fonte a atitude do Homem em face do seu relacionamento com Deus. Relacionamento elevado à intimidade, familiaridade e comunhão que, em determinado mo-
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mento, apresentou ao Homem um preceito com uma opção. Melhor seria dizer o aviso de que determinada forma de comportamento provocaria como consequência o advento da mor-te. Foi no instante em que Deus mostrou ao Homem de que o dispôs de livre-arbítrio poden-do optar em cada situação como melhor lhe aprouvesse. Mostrou-lhe uma condição e dei-xou-a a sua livre escolha mostrando-lhe o que lhe adviria. Deus criou um ser livre não um robô. Apesar do tom imperativo vê-se que não se trata de uma ordem absoluta, pois o podes bem como o uso de uma negativa amenizam e facilitam por demais a opção, como se fosse dito que a morte virá dependendo de sua opção:
“Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não come-rás, porque no dia em que dela comeres terás que morrer” (Gn 2,16-17).
Analisando melhor o trecho vê-se que não se trata de uma árvore do bem e do mal, mas de uma árvore do conhecimento do bem e do mal. O “podes” indica a mencionada ple-na liberdade de escolha do Homem; também, a árvore caracteriza uma fonte, a origem onde se forma o fruto, a consequência anunciada: a morte. Depositava-se só e exclusivamente nas mãos do Homem a possibilidade da existência da morte e todos os seus efeitos.
E o que é a morte e o que ela representava para Adão e Eva que a desconheciam tan-to como causa como efeito, isto é, completamente? Para quem já vive no seu império a ex-periência mostra que é o fim de uma existência física. Mas qual seria o significado dela para aquele primeiro Homem considerando-se o aspecto geral antes e depois da sua presença na Criação? Para aquele primeiro Homem que desconhecia a morte, como lhe teria soado ou como fôra explicada, já que sem conhecimento prévio inexiste a responsabilidade pessoal?
Considerando abstratamente aquele fato naquele tempo, como se dariam os fatos hoje sem a morte? Ora, inexistindo a morte, nem a vida, nem nada do que fora criado, nin-guém se findaria! Por sua vez o Homem não perderia a vida seja por doença ou por acidente, de fome ou por qualquer outra causa. Para o Homem atual não haveria, além disso, a neces-sidade da luta pela sobrevivência, a disputa, as contendas, o ciúme, a inveja e outros males bem como a infelicidade de tudo isso decorrente, que culmina no sofrimento.
Percebe-se, num relance, que a morte é a convergência de todos os males e ao ho-mem foi dada a oportunidade de acolhê-la ou rechaçá-la, parceiro de Deus que era pelo co-munus. Só se pode dizer que ele parece não ter se dado conta do alerta e a trouxe, e a intro-duziu na Criação que a desconhecia até então. Somente onde há a possibilidade de escolha consciente aparecem a liberdade e a responsabilidade e somente onde elas coexistem pode haver um relacionamento de duas ou mais pessoas em íntima comunhão de vidas e de tare-fas. O Homem é imagem e semelhança de Deus, não um teleguiado, por isso é, necessaria-mente, responsável e consciente de seus atos, arcando com as consequências. Já havia entre Deus e o Homem, pessoa a pessoa, um consórcio de tarefas (Gn 2,5-6) e uma comunhão de vidas (Gn 2,7-15) como se concluiu. E, para a eficácia dessa responsabilidade e consciência deveria ter o mais amplo e pleno conhecimento de tudo, até de todas as consequências de sua livre escolha, donde lhe adveio uma aparente punição com a morte.
A simbologia dessa narração nada revela além dessa opção livre, que somente se percebe num vislumbre quase intuitivo, o que evidencia a inteligência e sagacidade do nar-rador procurando traduzir para seus semelhantes fatos que não foram presenciados por nin-guém. A começar pelo nome dela: a árvore do conhecimento do bem e do mal, que traduz numa conotação especial o esforço e a habilidade com que se impede qualquer vinculação de Deus com a existência do mal. Coloca-a como a fonte (árvore) de uma experiência sensível que passará a ser de seu conhecimento, a morte. Principalmente porque ali no Paraíso o Ho-mem só conhecia o bem e ao fazer ingressar no mundo a morte, conheceria a diferença entre aquele bem pleno de que usufruía e o mal que lhe adviria. É a figura do conhecer bíblico, que é fruto de uma percepção sensível em si mesmo. Assim exprime o narrador que Deus não é o autor do mal, mas apenas e tão somente do bem. O mal é fruto da atividade do Ho-mem fora dos desígnios de Deus.
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Deus dispusera ali também no Éden a árvore da vida (Gn 2,9) que lhe seria um dom perene e da qual fora o Homem afastado (Gn 3,22) ao optar pela árvore do conhecimento do bem e do mal. O Homem, por algum motivo, preferiu o caminho da dor, do sofrimento e da morte desta árvore ao da Vida Eterna daquela. É o que se julga assim de imediato e num relance. Conhece-se o resultado da aparentemente infeliz opção cuja iniciativa é atribuída à mulher, Eva, com o nome de Queda Original. A causa vem colorida com a expressão tenta-dora de que sereis como deuses, versados no bem e no mal (Gn 3,5):
“A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos, que Iahweh Elohim tinha feito. Ela disse à mulher: Então Elohim disse: Vós não podeis comer de todas as árvores do Jardim? A mulher respondeu à serpente: Nós podemos comer do fruto das árvores do Jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do Jardim, Elohim disse: Dele não comereis, nele não tocareis, a fim de não morrer. A serpente disse então à mulher: „Não, não morrereis! Mas Elohim sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como Elohim versado no bem e no mal” (Gn 3,1-5).
Facilmente se constata o uso ao tempo de algumas das denominações para Deus: Iahweh, Iahweh Elohim e Elohim. Outras denominações serão apresentadas oportunamente.
Alguns dos detalhes dessa narrativa merecem uma análise mais elucidativa por causa da farta simbologia empregada. Em virtude da responsabilidade do Homem pela guarda do jardim a serpente por ser o mais astuto dos animais do campo não deveria estar ali. Não se pode culpar apenas a serpente pela queda eis que a sua responsabilidade se prende ao fato de dar asas à inclinação humana já alojada no íntimo de Eva. Vê-se isso da facilidade de íntimo colóquio entre ela e a mulher bem como da resposta que esta lhe dá em seguida já bem re-forçada com a expressão nele não tocareis, que não constou do aviso ou conselho de Deus. Deus não lhes dissera que não a tocassem! Eva demonstra então seu anseio mais íntimo e a luta que trava, qual seja a inclinação já atuante no seu coração de provar o fruto a que resisti-ra até aquele momento. A astúcia da serpente está em ter percebido a tentação a que ela es-tava se sujeitando e estimulado a prática do ato vedado com uma alternativa falsa da do ad-vento da grande recompensa de se tornarem como Deus (Elohim - deuses)!.Tanto é assim que imediatamente os efeitos sedutores e falsos da indução aparecem para Eva:
“A mulher viu que a árvore era boa ao apetite e formosa à vista, e que era, esta árvore, desejável para ad-quirir discernimento. Tomou-lhe do fruto e comeu. Deu-o a seu marido também, e ele comeu” (Gn 3,6).
A conseqüência do ato não tardou infiltrando-se a morte como um dos elementos integrantes do mundo criado por ato de livre opção e responsabilidade do Homem. Todos os demais imperativos impostos (Gn 1,28; 3,16.18-19) até mesmo à própria terra (Gn 3,17-18) não traziam em si mesmos conseqüências advindas de sua violação ou descumprimento co-mo aqui. Interessante que nenhum deles depende da vontade humana para se formarem, ou se cumprirem, se manifestarem, ou se concretizarem e, apesar da rebeldia ocorrida, perma-neceram ainda integrados à natureza do Homem cumprindo a sua função. O Homem rompeu com Deus, mas Deus se manteve o mesmo não rompendo com seus desígnios para o Ho-mem. Apesar de todas as funções humanas sofrerem a deformação advinda da perda do cen-tro gravitacional pelo mau uso da liberdade que lhes dera nem por isso Deus a retira. O Ho-mem continua dotado de liberdade e objeto de cuidados de Deus significados no Seu gesto amoroso:
“Iahweh Deus fez para o homem e sua mulher túnicas de pele, e os vestiu” (Gn 3,21).
Deus nada modifica! Toda a estrutura fundamental da Criação permaneceu em si intocável se bem que as maldições subsequentes à serpente e à terra acarretem sério descon-trole e desequilíbrio advindos do rompimento do Homem. Quando o narrador declina as maldições nada mais faz que traduza a imensa limitação ao controle absoluto do Homem (Gn 3,14-19). A esse ato de rompimento do Homem com os desígnios de Deus é que se de-nomina Pecado Original por ter sido a fonte e a origem de todos os males e de todos os pe-
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cados ou a sua causa principal. Percebe-se facilmente que todo o desequilíbrio da natureza e até mesmo as diferenças climáticas têm a sua origem e a sua causa naquele pecado. Também por ele o desvio de toda a natureza humana trazendo sérias conseqüências como a guerra, o terrorismo, o assalto, as rixas, as bebedeiras, o sexualismo desordenado, as doenças etc.. Por causa da maldição da terra até mesmo as diferenças climáticas, chovendo copiosamente em algumas regiões e não chovendo de forma alguma em outras, todo e qualquer desequilíbrio, tremores de terra, secas ou enchentes, é fruto do primeiro ato livremente praticado pelo Ho-mem dando assim livre curso à morte. Para que ela atuasse era necessário que isso aconte-cesse, e aconteceu.
1.6. - O DESÍGNIO DE DEUS.
Aquele desígnio de Deus em estabelecer com o Homem uma vida íntima e em co-munhão plena não arrefece, mas sofre o Homem desde então as consequências de enormes dificuldades antes inexistentes. Manifesta-se sobremaneira com a visão sobrenatural da que-da havida e antes dela na própria estrutura familiar do Paraíso, que se deslocaram. O Éden, em sua simplicidade estrutural, é a expressão dessa íntima relação buscada, projetando-se pela presença de Deus nele:
“Eles ouviram o passo de Iahweh Deus que passeava no jardim, à brisa do dia” (Gn 3,8).
Deus passeava no Paraíso que fora entregue à sua criatura predileta como um Pai passeia familiarmente no jardim da casa de seu filho mais velho. O Homem, que fora colo-cado no Jardim do Éden plantado pelo mesmo Deus, com isso significando a íntima familia-ridade a que fora destinado e elevado, é dele expulso significando assim a perda de toda a familiaridade e de tudo com a restituição ao estado anterior:
“E Iahweh Deus o expulsou do jardim do Éden para cultivar o solo de onde fora tirado” (Gn 3,23).
Apesar de ter sido desprovido da Vida em familiaridade com Deus, da Vida em Gra-ça, Deus não destruiu o jardim. E “os querubins e a chama da espada fulgurante” ali disposto se destinaram exclusivamente “a guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3,24) para que o homem “não viva para sempre” (Gn 3,22). Assim afastado perde o acesso imediato à vida eterna, mas não fica privado dela para sempre tal como é o Desígnio de Deus, pois não fora destruído o local onde estava. Fora do Jardim nasceriam todos os descendentes de Adão e Eva o que evidencia a consequência propriamente dita desse rompimento, o motivo de se denominar “Pecado Original”. Nascem todos os seres humanos a partir de então desprovidos da intimidade e familiaridade com Deus, da Vida em Graça, correspondente ao privilégio perdido por culpa e responsabilidade exclusivas do próprio Homem. O que não se pode pre-tender é que com essa Queda tenha havido o rompimento de toda e qualquer relação entre Deus e o Homem selando-se a sorte humana com as maldições advindas:
“Porque escutaste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te proibira de comer, maldito é o solo por causa de ti! Com sofrimento dele te nutrirás todos os dias de tua vida. Ele produzirá para ti espinhos e cardos e comerás a erva dos campos. Com o suor de teu rosto comerás o teu pão até que retornes ao solo, pois dele foste tirado. Pois tu és pó e ao pó tornarás” (Gn 3,17-19).
A atitude do Homem, além do rompimento de sua intimidade com o Criador causa também o desequilíbrio e a desarmonia de toda a Criação em cuja maldição se exprime e a que ficou reduzida daí em diante. Não poderia ser amaldiçoado o Homem já abençoado an-teriormente, mas o seu ato vai causar a esterilidade de toda a Criação impedindo que a terra correspondesse ao que dela deveria advir se não houvesse acontecido o pecado. Torna o seu
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trabalho infrutífero, cansativo e penoso negando-lhe a terra aquilo que produziria se não houvesse a maldição. Colhe daí em diante o que plantou com o seu ato.
Porém, não ficaria o Homem definitivamente privado da possibilidade de Vida So-brenatural a que fora elevado qual seja a Vida em Íntima Comunhão e Familiaridade com Deus. O Criador não muda os seus desígnios e não teria razão de ser, nem poderia ser outro o sentido de suas palavras à serpente, anunciando-lhe a sua derrota final:
“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Ela te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3,15).
Nessas palavras está o germe de toda a dinâmica salvífica a que fica condicionado a situação do Homem, que por si só, não poderá reencontrar o caminho de volta, nem restabe-lecer o relacionamento rompido, bem como o equilíbrio da Criação toda. Deus, não muda, não se altera, nem se deixa abalar por um ato humano. Caso o ato humano tivesse o condão de alterar o Desígnio de Deus ou se o Criador tivesse mudado ou modificado seu relaciona-mento com o Homem esse Protoevangelho não poderia ter sido proferido. Deus continua cuidando do Homem:
“Iahweh Deus fez para o homem e sua mulher túnicas de pele, e os vestiu” (Gn 3,21).
“Iahweh Deus... os vestiu”, como a indicar que não modificara seu desígnio para a sua criatura predileta e assim, agasalhada e protegida pelo próprio Deus, são reconduzidos ao antigo consórcio de tarefas Deus fornecendo o clima e o Homem o seu trabalho (o que se deduz de Gn 2,4b-5). Agora, num mundo cheio do mal que é lamentado por Iahweh, como se dissesse “quis ser como um de nós (Deus e a corte celeste, astros, estrelas etc. v. 1 Rs 22,19 / Jó 1,6 combinado com 38,7) conhecedor do bem e do mal”, mas vejam o que conse-guiu:
“Fez o Iahweh Deus vestimenta de peles para Adão e sua mulher e os vestiu. Então, disse Iahweh Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente. E Iahweh Deus o expulsou do Jardim do Éden, para cultivar o solo de onde fora tirado” (Gn 3,21-23).
1.6.1. - O SÁBADO
O escritor bíblico ao expor os acontecimentos do passado mesclou-os com a cultura de então levando para a origem ou para a Criação as instituições vigentes no seu tempo, ai as localizando e as justificando. É o caso do sábado, como é conhecido o sétimo dia da sema-na. Com base no que já se viu pode-se compreender o significado dado originariamente a ele, e qual o seu sentido religioso:
“Assim foram terminados o céu e a terra e todo o seu exército. E no sétimo dia Deus deu por terminada a obra por ele feita; e no sétimo dia cessou de toda a obra que havia feito; e, por isso, deus abençoou o sétimo dia e o santificou, porque nele cessou de toda a obra que, ele, criando, tinha feito. Esta é a geração do céu e da terra na sua criação” (Gn 2,1-4).
A palavra cessar em hebraico pronuncia-se mais ou menos “shabat”, de onde veio o nome e a pronúncia do sétimo dia da semana, do sábado, tal como é conhecido em alguns locais. Nesse trecho não se trata da instituição do respeito ao sábado, mas de explicar a sua distinção entre os outros dias a ponto de vir a se vedar nele todo e qualquer trabalho. Não se trata de um repouso de Deus, propriamente falando. Deus não precisa de repouso algum (Jo 5,17), mas se trata do dia em que termina a Criação e lhe dá o acabamento final, “abençoan-do-a”. “deus abençoou o sétimo dia e o santificou” (ver: Ex 31,16-17) -, quando Deus aben-çoa, fecunda e energiza para que cumpra a sua finalidade conforme Seus Desígnios tal como abençoara os animais e o homem ao criá-los. Não se trata de fecundar e energizar um dia tornando-o fértil para a reprodução de outros dias de sábados, mas de imprimir na Obra da
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Criação as leis que lhe são peculiares, fecundando-a e energizando-a para que prossiga de conformidade com seus desígnios, abençoando-a toda. Deus cessa de criar, apenas, tal como o próprio Jesus nos revela:
“...: meu pai trabalha sempre e eu também trabalho” (Jo 5,17).
Deus nada criou sem motivo, sem meta a atingir e, muito menos para destruir. Daí porque Deus santificou o sétimo dia, qual seja num sentido bíblico separou, distinguiu. A-parecem então com toda a clareza a irreversibilidade e inexorabilidade da criação:
“Enquanto durar a terra, semeadura e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite não há de faltar” (Gn 8,22).
1.6.2. - O PROTOEVANGELHO
O chamado protoevangelho traz em si claramente a maldição da serpente, formando um só corpo e devem ser analisados em conjunto:
“Porque fizeste isso sê maldita entre todos os animais e entre todas as feras do campo. Caminharás sobre teu ventre e comerás poeira todos os dias de tua vida. Porei hostilidade entre ti e a mulher e entre a tua descendência e a descen-dência dela: ela te esmagará a cabeça e atacá-la-ás no calcanhar” (Gn 3,14-15).
Alguns outros trechos distintos (Is 25,12c; 26,5s; Sl 91/90,13 etc.) mostram que nesta transcrição encontra-se bem caracterizada a condição da serpente de traiçoeira, contumaz e conhecida inimiga, comparando o seu modo de agir com o dos inimigos de Deus “curvando-se e lambendo o pó da terra”, destacando-se:
“Diante dele o homem do deserto se curvará e seus inimigos lamberão o pó...” (Sl 72/71,9) / “Que lambam o pó co-mo a serpente, como os animais que rastejam terra” (Mq 7,17).
É clara a referência que se faz aos inimigos vencidos e traduzem o tratamento que se lhes dirigiam identificando-se ao início do protoevangelho, onde consta o que a serpente colherá com sua atitude, - “Caminharás sobre teu ventre e comerás poeira todos os dias de tua vida”. Mais ainda, além de inimiga teria ela agora outra consequência a suportar: con-trastando com aquele diálogo insinuante e a hostilidade da mulher e da descendência dela, amistoso com que seduziu Eva no Paraíso. O diabo de agora em diante deverá temê-la por causa do desate final aí previsto: “ela te esmagará a cabeça e tu atacá-la-ás [„roça-la-ás‟, seria melhor] no calcanhar” (Gn 3,14-15). Não se trata de uma ameaça apenas futura, mas de um fato que pertence a História de agora em diante, qual seja a luta entre a mulher e o diabo. A maldição é proferida pelo próprio Iahweh e como tal se identifica a outras palavras exis-tentes, tendo necessidade de se identificar a algumas características, para ser assim reconhe-cida:
“Talvez perguntes em teu coração: „Como vamos saber se tal palavra não é uma palavra de Iahweh? ‟ Se o profeta fala em nome de Iahweh, mas a palavra não se cumpre, não se realiza, trata-se então de uma palavra que Iahweh não disse” (Dt 18,21-22).
A principal característica da Palavra de Deus é a de que se realiza inexoravelmente, qual seja a partir de seu pronunciamento se cumpre. Por isso a Profecia é reconhecida imedi-atamente como advinda de Deus. Há que ter um primeiro lance ou uma realização imperfeita imediata e, com ou sem intermediários um final definitivo a se esgotar, realizar-se e a se cumprir em Cristo:
“Não penseis que vim revogar a Lei e os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes pleno cumprimento...” (Mt 5,17).
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O protoevangelho é “uma palavra que Iahweh disse” (Dt 18,22) devendo apresentar por isso a mesma característica em sua realização, isso é aquela ocorrência sempre presente na História, pelo que é sempre reconhecível. A sua primeira realização se dá com a única mulher presente no momento da maldição, Eva. Corporifica-se com o nascimento de Set (Gn 4,25) a quem ela mesma dá o nome, nomeia (Gn 4,25b), e “dar o nome” tem um significado peculiar de se assumir todo o destino ou especifica a missão ou condição dela (Gn 2,20; 4,25; 17,5; Is 43,1; 2Rs 24,17; 2Cro 36,4; Mt 1,21; Lc 1,31 etc.). Quando Eva dá o nome a Set assume a oposição na luta contra o diabo começada pela descendência do mal com Caim (Gn 4,17-24). Já se manifesta a “hostilidade entre a descendência da serpente e a da mulher” (Gn 3,15), com a primeira vitória da mulher: Enós, o filho de Set e descendente dela (neto), é “o primeiro a invocar o nome de Iahweh” (Gn 4,26):
“... seca-se a erva, murcha-se a flor, mas a palavra de Deus subsiste para sempre” (Is 40,8).
Essa atuação perene da palavra de Deus na História aparece também quando as es-crituras registram que todas as mulheres ligadas à Aliança, instituição destinada à redenção humana, eram estéreis. Só se engravidavam por uma ação especial de Deus que as tonava férteis a começar pela mulher de Abraão, Sara (Gn 18,14); a mulher de Isaac, Rebeca (Gn 25,21); bem como, as mulheres de Jacó, Lia (Gn 29,31) e Raquel (Gn 30,22). Até que, na Nova Aliança, também fertiliza Isabel, a mãe de João Batista, “... na velhice... aquela que chamavam estéril” (Lc 1,7.13.24.36), quando se dá a inauguração da Fecundidade Messiâni-ca e Maria, a mãe de Jesus, “uma virgem concebe e dá à luz” (Mt 1,23). Resume-se assim o percurso e o ponto culminante da vitória da mulher sobre a serpente, fecundada por Deus com vistas ao retorno do Homem ao Paraíso a que fora destinado. Deus não destruiu o jar-dim nem alterou seu desígnio de que o Homem o habite e na qualidade de Autor da Salvação mantém a mesma disposição de ânimo que teve ao criar o Jardim do Éden. E, por meio do Espírito Santo fecunda a “virgem que concebe e dá à luz” ao “Filho do Altíssimo” (Lc 1,32) para se cumprir o seu Santo Desígnio de levar o homem à comunhão, intimidade e familiari-dade com Ele. Assim, tudo aquilo que estava significado no Jardim de Deus está no conteú-do do Protoevangelho em germe e figura. É que na “Árvore da Vida no meio do Jardim” estavam identificados como pertinentes, indestacáveis à Obra da Criação tanto a Encarnação do Verbo de que é essência, como o meio para a “humanação (como dizem os gregos)” do Filho, Maria, desde então preservada em plenitude como a mãe do verbo feito carne, natu-ralmente adequada para tal missão com todos os dons.
Iahweh Deus não é um ser criado que esteja sujeito à ação de outrem, fruto de movi-mento e condicionamento a um futuro desconhecido ou incerto e dependente do acaso. Seus desígnios se cumprem inexoravelmente. A Criação é um fato irreversível e não seria o ato humano que perturbaria qualquer pretensão divina por mínima que seja. É que o Homem não tem poder nenhum suficiente para que seus atos venham a alterar ou comprometer o desígnio de Deus. Uma fragilidade assim não se coadunaria com os Seus Atributos de onipo-tência e onisciência. Assim, esse Jardim de Deus tal como preparado para o Homem aguar-daria a redenção “na plenitude dos tempos” (Gl 4,4) pela Encarnação do Filho. Jesus não é
um remendo improvisado por Deus Pai em virtude de ter havido um comprometimento de Seu Desígnio pelo Pecado Original (1 Pe 1,19-21). Essa Encarnação já era desígnio de Deus e seria o prêmio de Vida Eterna caso aceito pelo Homem na mesma plenitude (Jo 10,10) a que o reconduz o Messias. O Pecado Original atingiu tão somente a Criação, mas o Desígnio de Deus continua em pleno vigor. O Homem é que sofre uma transformação tal, que o retar-da e condiciona o gozo da Vida Eterna.
1.7. - AS CONSEQÜÊNCIAS IMEDIATAS DO PECADO
É muito perigoso em Bíblia precipitar conclusões sem um exame da maneira de se expressar e da mentalidade da época a que se refere o escrito. Não é possível uma palavra ter
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sido usada em sentidos diferentes num mesmo contexto a não ser que ela tenha mesmo essa propriedade de dualidade de significações. Quanto a isto, observa-se a existência de outro consórcio de tarefas ou comúnus, agora entre o homem e a mulher:
“Iahweh Deus disse: Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe seja igual” (Gn 2,18).
Salta aos olhos a necessidade de muito cuidado no exame desse trecho, pois, naquele Jardim, tendo vida familiar e íntima com Deus é um absurdo o Homem sentir solidão. Quando se está em íntima comunhão com Deus não se pode estar só, solitário. Por isso, aqui é o mesmo diapasão da afirmativa já analisada anteriormente de que “Deus viu que era bom” (Gn 1,4.10.12.18.21.25.31), ocorrida durante a narrativa inicial, coordenando-a como um refrão. Vimos então que o sentido era de que aquilo que se criava era bom para o Homem na finalidade que lhe foi dada e impressa por Deus na Criação. Tem aqui o mesmo sentido. As-sim o Homem, sozinho, sem uma auxiliar que lhe fosse igual não atingiria nunca aquele ide-al que lhe fora designado por Deus como não é bom. No Jardim recém-plantado tudo se de-senvolveria no seu sentido natural, ali viveria a família humana advinda do casal em comu-nhão plena com Deus na glória e felicidade eternas coordenadas e junto, com toda a Criação:
“O homem deu nomes a todos os animais,... mas... não encontrou a auxiliar que lhe fosse igual. Então Iahweh Deus..., da costela que retirara do homem... modelou uma mulher e a trouxe ao homem. Então o homem exclamou: „Esta sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne... ‟ Por isso um homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne. Ora, os dois estavam nus, o homem e sua mulher, e não se envergonhavam” (Gn 2,20-25).
Novamente se torna imperioso o uso do bom-senso para se compreender essa “procu-ra de uma que lhe fosse igual entre os animais” que foram entregues a Adão. Não se pode pretender que se tratasse de encontrar uma esposa, uma fêmea, para a mãe de seus filhos! Não! A atividade programada por Deus ao Homem não se limitava a isso. A ele cabia “do-minar e cultivar a terra e possuí-la, e submetê-la, dominar sobre os animais de toda a espé-cie” (Gn 1,28; 2,5). Era-lhe indispensável uma auxiliar à altura, com as mesmas aptidões naturais para complementar sua atividade. Foi um ser assim que Adão não encontrou entre os animais, e foi-lhe preparada a Mulher, o ser também Humano que lhe era igual, pois “não lhe era bom ficar só” para se conseguir o objetivo como era desígnio de Deus.
Com a Queda Original fica rompida a comunhão com Deus, dissolve-se a unidade gravitacional de todo o sistema e manifestam-se várias desordens. Começam a se manifestar no relacionamento do casal com o próprio Deus e entre si mesmos em atitudes agressivas mútuas e com a própria unidade total que, perdendo a convergência dinâmica e harmônica em direção ao Criador, por mediação humana torna-se divergente, sem sentido, completa-mente difusa e passa a reinar a confusão total. O Homem e a Mulher não sabem o que fazer e se escondem um do outro e do próprio Deus:
“Eles ouviram os passos de Iahweh Deus que passeava no jardim à brisa do dia e o homem e a mulher se esconderam da presença de Iahweh Deus, entre as árvores do jardim. Iahweh Deus chamou o homem: „Onde estás?‟, disse Ele. „Ouvi teu passo no jardim‟, respondeu o homem; „tive medo porque estou nu, e me escondi‟. Ele retomou: „E quem te revelou que estavas nu? Comeste, então, da árvore que te proibi de comer!‟ O homem respondeu: „A mulher que puseste junto de mim me deu da árvore, e eu comi!‟ Iahweh Deus disse à mulher: „Que fizeste?‟ E a mulher respon-deu: „A serpente me seduziu e eu comi” (Gn 3,8-13).
Instala-se a insegurança e a desarmonia. Surge o medo, levando-os a se esconder em virtude da nudez que passaram a sentir, denotando-se a insegurança da perda da comunhão com Deus e o profundo sentimento de culpa mútuo então advindo. A seguir, inquiridos, o Homem acusa Deus e a Mulher: “A mulher que puseste...”, isto é “a culpa é tua e da mu-lher”: “tua por tê-la posto junto de mim e dela por me ter seduzido”; por sua vez, a mulher acusa exclusivamente a serpente; e a esta nem é dada a oportunidade de defesa: não é inter-rogada, nem dá explicações e desaparece do cenário terrivelmente amaldiçoada, denotando-se assim uma situação de inimizade já existente, e devendo ainda perdurar e prosseguir. A
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luta do homem com ela apenas começava e as maldições que lhe foram dirigidas se asseme-lham às condições de tratamento dado ao inimigo quando derrotado [cfr. Sl 72 (71),9; Mq 7,17; Is 25,12].
O consórcio Homem-Mulher continua vigorando mesmo após a expulsão do Paraíso, eis que os Desígnios de Deus são irreversíveis, e um ato humano nem mesmo o pecado os pode comprometer. Porém, passaram à condição de mortais, seja pelo fato de que “és pó e ao pó tornarás” (Gn 3,19), seja pela presença das “dores de parto” (Gn 3,16), seja “no impé-rio da força a vigorar entre marido e mulher” (Gn 3,16b), seja pelo “sofrimento advindo do trabalho humano” (Gn 3,17-19b), seja por todos estes fatos e muitos outros advindos como conseqüências imediatas do Pecado Original. Na verdade, toda a Criação perde o seu eixo central ou gravitacional e perde o equilíbrio natural (Gn 3,17a), desnorteando-se completa-mente caindo, como diz São Paulo, numa espécie de gestação até que se cumpra a salvação advinda com a Encarnação do Verbo:
“... a criação em expectativa anseia pela revelação dos filhos de Deus. De fato, a criação foi submetida à vaidade - não por seu querer, mas por vontade daquele que a submeteu - na esperança de ela também ser libertada da escravi-dão da corrupção para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus. Pois sabemos que a criação inteira geme e so-fre as dores do parto até o presente” (Rm 8,19-22).
Outras consequências passam a se manifestar principalmente no predomínio do ins-tinto carnal próprio do animal que é o Homem, tendo desaparecido a vida sobrenatural a que fora elevado e não quisera: as conseqüências mediatas do pecado.
1.8. - AS CONSEQUÊNCIAS MEDIATAS DO PECADO
O afastamento do primeiro casal de seu centro gravitacional trouxe diretamente e até mesmo sem nenhuma intervenção as consequências anteriormente descritas. Além delas, trouxe outras advindas de modificações ocorridas no equilíbrio da natureza do próprio Ho-mem. Tratando-se de conseqüências indiretas podem ser denominadas de mediatas. No mo-mento em que forem descritas procurar-se-á demonstrar essa ocorrência, pois elas só são dedutíveis a partir das condições peculiares de cada narrativa. São repletas dos fatos cultu-rais do tempo em que foram escritas reproduzindo às vezes costumes desconhecidos de nos-sa cultura.
Após a expulsão do Paraíso, o narrador passa a expor o início da propagação da es-pécie destacando no episódio de Caim e Abel os baixos instintos agora dominantes na natu-reza humana, usando para tal o mesmo gabarito cultural, o modo de narrar e a linguagem de seu tempo:
“Quando Deus criou o homem, fê-lo à imagem de Deus... Adão... gerou um filho à sua imagem e semelhança...” (Gn 5,1-3).
O hagiógrafo está dizendo, na sua maneira culturalmente condicionada, que o Filho de Adão não poderia mais totalmente refletir Deus, por estar contaminado em sua natureza desfigurada pelo advindo desequilíbrio causado pelo desligamento de Deus. Ele não mais partilhava a presença de Deus tal como no Éden e não mais trazia aquele equilíbrio original que o tornava total “imagem e semelhança de Deus”. Era agora nada mais que “imagem e semelhança de Adão”, fruto do pecado, não mais aquela imagem perfeita que era anterior-mente. Era a imagem do homem decaído que se transmitiria de ora em diante portadora de todos os efeitos do rompimento sobrenatural com Deus. Várias situações vão se manifestar daí em diante num relato rudimentar e sem nenhuma ordem cronológica dos acontecimentos ocorridos, mas narrados com a lógica cultural de então.
1.8.1. - CAIM E ABEL
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O primeiro acontecimento que se oferece é na família envolvendo os dois irmãos, Caim e Abel, em que o primeiro mata o segundo. Agora, neste exato momento, por todo o mundo irmãos estão matando irmãos. Não seria necessário mostrar isso com tantos detalhes não fora a presença de um fato novo advindo que é a causa principal dessa consequência. É a inveja e os impulsos conhecidos como ciúme e despeito, como também, a competição ou qualquer outro antagonismo entre os membros de uma família todos ensejadores da rivalida-de ou do ódio que a destroem ou a comprometem e ainda vão explodir no meio social.
A desarmonia consequente entre o Homem ou a Mulher e Deus e entre o Homem e a Mulher vai agora explodir em outra, na desarmonia entre os irmãos ocasionada por emoções agora pertinentes ao contexto psicológico do ser humano. Rompidas a unidade, a familiari-dade e a intimidade com o Criador tornam-se impossíveis a unidade, a concórdia e a paz na família. A harmonia da Obra da Criação tem por fonte a intimidade de Deus com o Homem que explode na coesão e identificação mútuas na unidade dinâmica do conjunto daí formado, tal como fora criado. Rompida essa unidade com Deus cai-se no domínio do instinto de so-brevivência e desencadeia-se a necessidade da luta em busca do sentimento de segurança perdido. Abel, preferido por Deus significou para Caim essa insegurança e eliminá-lo torna-se uma questão de vida ou morte, a própria sobrevivência:
“..., Caim apresentou produtos do solo em oferenda a Iahweh; Abel, por sua vez, também ofereceu dos primogênitos e da gordura de seu rebanho. Ora, Iahweh agradou-se de Abel e de sua oferenda. Mas não se agradou de Caim e de sua oferenda, e Caim ficou muito irritado e com o rosto abatido. E Iahweh disse a Caim: „Por que estás irado e por que andas cabisbaixo? Se fizeres o bem, há motivo para erguê-la, mas se não procederes bem, eis que o pecado está à espreita em tua porta; as suas ganas estão voltadas para ti, mas tu podes dominá-lo. Entretanto Caim disse a seu ir-mão Abel: “Saiamos”. E, como estavam no campo, Caim se lançou sobre seu irmão Abel e o matou” (Gn 4,3-8).
Quando foi escrita essa narrativa transferiram-se para o início dos tempos a necessi-dade de se cumprirem todas as formalidades rituais então em uso. Tal como com o sábado, aqui também com o sacrifício e suas normas, observando-se facilmente algumas das regras que lhe são pertinentes:
 a distinção das oferendas: “Abel oferece dos primogênitos do rebanho e os mais gordos e Caim dos produtos do solo”; e,
 a identificação e vinculação da vítima com a pessoa do ofertante: “Deus agradou-se de Abel e de sua oferenda e não se agradou de Caim e de sua oferenda”.
Atualmente, não há sentido algum em se pretender qualquer diferença entre uma e outra das oferendas, nada as distinguindo em si. Porém, para os antigos israelitas, Caim, o filho primogênito deveria oferecer as primícias do campo em sacrifício (Dt 26,2). Não o fez, enquanto Abel ofereceu “dos primogênitos e dos mais gordos” (Ex 22,28s; Dt 15,19) cum-prindo as exigências religiosas do ritual. Por isso “Deus agradou-se de Abel e de sua oferen-da e não se agradou de Caim e de sua oferenda”. Tudo indica que a narrativa foi adaptada ao tempo em que os israelitas haviam deixado a vida nômade e se tornado sedentários, quando então Caim se dedicara ao cultivo da terra e Abel ao pastoreio (Gn 4,2). Está o narrador fa-zendo apologia das exigências rituais do sacrifício e expondo o desenvolvimento do mal bem como a manutenção da responsabilidade do Homem por seus atos, caracterizada pela expressão “e tu podes dominá-lo” (Gn 4,7).
Essa busca de segurança ainda intuitiva e instintivamente buscada pelo Homem for-mando os grupos sociais onde se abrigava e naquele tempo em que se registrou o aconteci-mento, conforme o rito das tribos patriarcais. Por não compreender o regime social de uma tribo de então é que parece à primeira vista que Caim não fora castigado por Deus pelo ho-micídio que praticara. Não é assim, porém. Na realidade cultural de então, recebe Caim o maior castigo a que se poderia condenar uma pessoa excluindo-a do clã, deixando-o assim
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exposto a toda espécie de infortúnios, hostilidades e vivendo entre estranhos de outras tribos sem a segurança e proteção da sua própria, bem como de seu Deus tribal:
“Agora, és maldito e expulso do solo fértil que abriu a boca para receber de tua mão o sangue de teu irmão. Ainda que cultives o solo, ele não te dará mais seu produto: serás um fugitivo errante sobre a terra”. Então Caim disse a I-ahweh: ”Minha culpa é muito pesada para suportá-la. Vê! Hoje tu me banes do solo fértil, terei de ocultar-me longe de tua face e serei errante e fugitivo sobre a terra: mas o primeiro que me encontrar me matará” (Gn 4,11-14).
Evidencia-se a gravidade do castigo imposto principalmente no gemido de Caim, lamentando seu afastamento da tribo tendo de “ocultar-se longe de tua face e serei errante e fugitivo sobre a terra” e o perigo a que estaria exposto já que “o primeiro que me encontrar me matará”. Tudo isso por estar desguarnecido, fora da cobertura da tribo e ao dizer “longe de tua face” nada mais afirma que a possível vinculação a outros deuses. É evidente a inten-ção do narrador em mostrar o início e o crescimento da luta do bem e do mal começando com a descendência da mulher e em consonância com a maldição redentora proferida contra a serpente:
“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre tua descendência e a descendência dela. Ela te esmagará a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3,15).
Ora, biblicamente, a serpente é o símbolo do mal e a personificação do diabo, autor e fautor da morte por sua maldade natural (Sb 2,23-24). Era então o começo da luta entre as duas descendências a do mal significada em Caim e a do bem significada em Set, o filho que fora dado à Eva “em lugar de Abel, morto por Caim” (Gn 4,25). Anunciava-se que o Ho-mem não estaria para sempre ou totalmente entregue nas mãos do diabo, e abandonado por Deus. Iniciava-se uma luta que culminaria inexoravelmente com a derrota do mal, com a mulher (Maria) a esmagar-lhe a cabeça. Mostra inicialmente o narrador o começo e o avanço do mal:
Caim, o primeiro filho da primeira mulher comete o primeiro homicídio e mata o primeiro justo, Abel (Hb 11,4; 12,24; Mt 23,35): a partir de então ‘o justo é e será sempre a vítima do pecado’. Daí em diante a hostilidade entre a descendência da mulher e a descen-dência do diabo tem a conotação de uma luta entre o bem e o mal. O mal é representado pela descendência de Caim e o bem é representado pelo filho que veio para a mulher em lugar de Abel - Set. Ambos vieram de uma mesma mulher, Eva. Com Caim o mal progride ao extre-mo (Gn 4,17-23); com Set o bem começa a frutificar sendo o filho dele Enós, “o primeiro a invocar o nome de Iahweh” (Gn 4,25-26). Com Caim começam a se construir cidades, „fon-tes do mal‟ (Gn 13,12-13). Ainda hoje os simples camponeses temem os habitantes da cida-de muitas vezes espertos e golpistas. Aparece na mesma linhagem a primeira poligamia (Gn 4,19.23) e o desenvolvimento dos homicídios até mesmo de crianças (Gn 4,23), crescendo cada vez mais a violência, tudo exigindo e clamando por vingança (Gn 4,24). Surge ainda a arte (Gn 4,21), volta-se ao nomadismo (Gn 4,20) e aparece a técnica (Gn 4,22), atividade até hoje muitas das vezes comprometida pela maledicência popular com a libertinagem, imora-lidade e o banditismo.
Transparece no relato e começando com Eva (Gn 4,1.25) uma fase da história em que as mulheres davam o nome aos filhos (Gn 21,6; 29,31-30,24; 35,18) principalmente aos descendentes dela e o fazem com referência a alguma circunstância ou com algum significa-do. Ora, dar nome é assumir a propriedade e o destino tal como quando Adão nomeou todos os seres criados ao assenhorear-se deles (Gn 2,19-20). A mulher, ao dar nome a Set, o pai de Enós (“quem primeiro invocou o nome de Iahweh” - Gn 4,25-26), assume assim o seu lugar e de certa forma inaugura a luta que se instituiu contra o diabo para a redenção humana, que se culminará com a vitória de Jesus Cristo, a “descendência da mulher” - Maria. Também, ao tempo da narrativa existia a poligamia donde a necessidade da distinção em descendência do Homem e descendência da mulher. Jesus era Filho de Maria, não de José tratando-se de uma afirmação profética.
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1.8.2. - O DILÚVIO
Para o Homem moderno a Bíblia tem o crédito comprometido por causa de descri-ções não muito verossímeis como é o caso da do Dilúvio. É simplesmente impossível aceitar que um volume de água de chuva caindo durante quarenta dias seja capaz de cobrir toda a superfície terrestre acima dos “mais altos montes” (Gn 7,19). Mas para o Homem antigo não havia tal dificuldade pois a sua concepção física do universo permitia-lhe isso facilmente. Primeiro porque o mundo todo era o horizonte que ele atingia com o olhar; e, segundo por-que concebia o mundo como tendo água em cima e em baixo do firmamento celeste, pois “romperam-se as fontes do grande abismo e abriram-se as cataratas do céu” (Gn 7,11).
Assim o máximo que se poderia atualmente aceitar é o fato do dilúvio não ter passa-do de uma grande inundação que, aos olhos do passado, cobriu todo o mundo criado. O que se pretende realçar com essa comparação entre o fenômeno ocorrido na realidade e a sua interpretação pelo narrador é que fenômenos como enchentes, furacões, tremores de terra e outros cataclismos ainda apavoram o Homem. Leva-o imediatamente a pensar em castigo de Deus por causa da sua pequenez e fragilidade ante a dimensão catastrófica do fato. Lembra-se então intuitivamente de Deus percebido como presente, no controle, disposição e direção de todo o mecanismo da natureza.
Ocorreu uma grande inundação no mundo antigo e o narrador bíblico busca-lhe uma explicação razoável conforme sua formação cultural que não exclui Deus, nem a Obra da Criação, nem a consciência do Rompimento Original. Foi um acontecimento terrível num passado remoto até mesmo dele, cuja narração oral lhe chegou dos antepassados. É como parte da história de sua própria tribo em que Noé seria um membro tal como se enunciava que Noé entrou na arca com seus filhos, sua mulher e suas noras (Gn 7,1.7.13), um casal de cada animal, ave ou réptil, bem como, separando de todos animais puros sete pares, dos a-nimais impuros um par (Gn 7,2.8.9.14.15...). Da mesma forma o narrador projeta no passado os rituais do sacrifício usados no seu tempo acreditando-os em uso desde a Criação e para ser mais bem entendido. Por isso inclui também a divisão em animais puros e impuros (Lv 11), obedecendo as normas sacrificais e de alimentação.
Não se perca de vista nunca que a harmonia de toda a Criação tem por fonte a intimi-dade e familiaridade do Homem com Deus e se manifesta na unidade de todo o conjunto. Daí, pensando nas conseqüências da Queda Original e localizando num passado ainda lem-brado o acontecimento do Dilúvio é ele apresentado como exemplo do crescimento do mal atingindo a natureza terrestre. Mostra também que todo o gênero humano da mesma forma vai se corrompendo associando-se cada vez mais com o mal significado na união carnal dos descendentes de Set com os descendentes criminosos de Caim:
“... os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas e tomaram como mulheres todas as que mais lhes agradavam” (Gn 6,2).
Novamente se projeta no passado o costume de não se misturar pelo casamento membros de tribos desconhecidas pelo perigo que representavam ao clã (Gn 24,3-4; 26,34-35; Nm 36,6-9) principalmente pela intromissão de diferentes deuses bem como de costumes então condenáveis. Para o narrador estabeleceu-se daí uma verdadeira confusão entre o bem e o mal que não mais se distinguem para o Homem e essa presença do mal, consequência da desarmonia original na própria natureza, mesclado e indestacável de toda a ação humana continua indesejável para Deus:
“Iahweh disse: „Meu espírito não permanecerá para sempre no homem, porque é carne e os seus dias serão de cento e vinte anos” (Gn 6,3).
Esse trecho aqui destacado faz crer que se trata de uma redução da idade elevada dos Patriarcas relatada quando da genealogia de Adão (Gn 5) onde constam alguns com até
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mesmo quase mil anos. Não é bem assim, porém, já que de Noé se diz após essa aparente diminuição que viveu trezentos e cinquenta anos após o Dilúvio (Gn 9,28). Também Abra-ão, Isaac e Jacó tiveram respectivamente cento e setenta e cinco (Gn 25,7), cento e oitenta (Gn 35,28-29) e cento e quarenta e sete anos (Gn 47,28), idades maiores que a limitação aparente aqui imposta. Essa maneira incomum de relatar idades é atualmente muito misteri-osa e não se encontra uma explicação satisfatória, se bem que o sentido religioso dos núme-ros é muito usado pelos antigos. Na realidade existem algumas particularidades interessantes quanto a esses números, destacando-se:
 Henoc é o que viveu menor tempo e gerou Matusalém, o que mais viveu. Justificam-se ambas as condições pelo fato de que andou com Deus, con-trastando com a pouca vida material de apenas trezentos e sessenta e cinco anos (Gn 5,21-27), número de anos que tem o mesmo número de designa-ção que o de dias de um ano solar; e, apesar disso, teve vida mais fecunda gerando Matusalém, o que mais viveu;
 Lamec, o pai de Noé, registra a idade total de setecentos e setenta e sete anos, gerando um filho com a idade de cento e oitenta e dois anos, vivendo mais quinhentos e noventa e cinco anos até a morte. Todos esses anos da vida de Lamec são divisíveis por sete, o número religioso por excelência, por se igualar ao dos dias da Criação e Noé é o Patriarca do Dilúvio, que é apresentado como Nova Criação dentro da Criação propriamente dita;
 Após o Dilúvio continuam as menções de idades avançadas de outros pa-triarcas (Gn 11,10-32). Há uma indicação clara de que os clãs diminuíram ou houve uma modificação cultural na sua estrutura influindo na contagem da idade total.
 Também:
 a idade de Abraão corresponde a: 7 x 5 x 5 = 175 anos;
 a idade de Isaac corresponde a : 5 x 6 x 6 = 180 anos; e,
 a idade de Jacó corresponde a : 3 x 7 x 7 = 147 anos.
Melhor é considerar que, no tempo antigo, havia uma profunda relação cultural entre a fecundidade de procriação e a bênção de Deus, representados e significados no número de descendentes. Conclusão a que se chega pela redação da genealogia de cada um deles a par-tir do nome do primogênito seguido da expressão que se repete em todos: “o tempo que vi-veu (...) após o nascimento de (...) foi de (...) anos, e gerou filhos e filhas”, reiniciando a seguir com a genealogia do primogênito deste seguindo o mesmo diapasão. Logicamente, se pode deduzir que a idade então apresentada como sendo do Patriarca nada mais é que a soma das idades de sua mulher, todos os seus descendentes e membros da sua casa até a sua mor-te, formando a sua tribo ou o seu clã. Muitas explicações existem e não se deve preocupar com isso. Basta que se entenda a inexistência de qualquer relação entre essas idades e a menção dos cento e vinte anos no trecho em exame mesmo por que não se podem aceitar idades tão elevadas principalmente no mundo antigo onde faltavam os mais elementares recursos para a sobrevivência num ambiente hostil. Vê-se assim que tais longevidades ti-nham um significado cultural ainda misterioso e o versículo transcrito deve traduzir o fato da perda com a morte, da vida divina, que Deus insuflara no Homem (Gn 2,7), bem como pelo Pecado Original, a perda da eterna a que o destinara no Éden (Gn 2,9 / 3,22).
É como um recordar de Deus a se manifestar em cada catástrofe ou cataclismo que ocorra e atinja o Homem decaído. A corrupção carnal se generaliza a partir da quebra daque-la unidade total com Deus causada pelo Pecado. A cisão se manifesta cada vez mais comple-ta desde a vida familiar até a natureza e o pecado, por sua vez, atinge a sua força máxima. Tudo se corrompe até mesmo os descendentes de Set, a linhagem dos bons, tudo se descen-
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traliza e tudo partiu o vínculo com Deus. Rompido o elo Homem-Deus tudo se descentrali-zou e se desequilibrou não mais se encontrando, transparecendo como que uma repulsa de Deus, outra das consequências do Pecado Original:
“E disse Iahweh: „Farei desaparecer da face da terra o homem que criei; e com o homem também os animais, os rép-teis e as aves do céu; porque estou arrependido de tê-los criado” (Gn 6,7).
Ora, Deus não se arrepende nunca. Não é alguém que não sabe o que faz. Não se pode deduzir daí que o narrador esteja se referindo a uma surpresa ocasionada em Deus a ponto de se lhe exigir uma providência séria. O que o narrador quer manifestar é que Deus, tal como no Jardim do Éden, não se identifica ao pecado nem à corrupção geral que se alas-trava cada vez mais:
“Iahweh viu que a maldade do homem era grande sobre a terra, e que era continuamente mau todo o desígnio de seu coração. Iahweh arrependeu-se de ter criado o homem sobre a terra e se afligiu em seu coração,...” (Gn 6,5-6).
Os cento e vinte anos marcados (Gn 6,3) não passam, portanto, de um prazo simbóli-co cujo sentido não é mencionado em virtude de ser conhecido tal modo de se expressar cul-turalmente pelos demais membros do grupo a que se dirigia a narrativa. Referia-se ao tempo determinado por Deus para o Dilúvio eliminando toda a carne. Esse prazo centenário tam-bém realça como Deus é lento para manifestar a sua ira, pois “Deus não fez a morte nem se alegra que pereçam os vivos” (Sb 1,13) e “criou o homem para a imortalidade, e o fez ima-gem da sua própria natureza” (Sb 2,23). É que Deus não criou o mundo para a corrupção que agora se apresentara e o Dilúvio que se descortinava nada mais era que outra consequência do Pecado Original, aquilo que se costuma designar como ira de Deus. É a repulsa d‟Ele que também se manifesta na natureza criada apesar de corrompida como um protesto (Rm 8,20-22), assemelhando-se a um verdadeiro e impossível arrependimento de Deus:
“Deus não é homem, para que minta, nem filho de Adão para que se arrependa. Por acaso ele diz e não o faz, fala e não realiza?” (Nm 23,19).
A não ser assim há de se estabelecer uma enorme contradição da narrativa com o gesto carinhoso de Deus que “fez para o homem e sua mulher túnicas de pele e os vestiu” (Gn 3,21), solidarizando-se com eles (Gn 3,22) ao expulsá-los do Jardim (Gn 3,23). Não é possível que somente agora Deus fosse demonstrar um arrependimento tão tardio a não ser que tudo não passe de conclusão e metáfora do próprio narrador em face da enormidade do cataclismo ocorrido. Tanto é assim que fica claro não possuir o pecado força suficiente para comprometer ou destruir todo o bem, ainda ali se manifestando e se destacando nitidamente pelo menos em um único homem:
“Noé achou graça aos olhos de Iahweh,... Noé era um homem justo, íntegro entre seus contemporâneos, e andava com Deus” (Gn 6,8-9). / “Iahweh disse a Noé: ...és o único justo que vejo diante de mim no meio desta geração” (Gn 7,1).
Na linhagem de Set, da qual veio Noé, encontra-se também um justo que andava com Deus tal como Henoc (Gn 5,24). Ressurge assim do abismo de mal que germinara e crescia por demais a mão de Deus, ainda em ação na própria Criação corrompida, em busca do Ho-mem para reconduzi-lo à vida. Mostra o narrador essa atitude do Criador protegendo o Ho-mem, e no meio de tanta convulsão livrando-o de um dos frutos do rompimento inaugural da harmonia de Sua Obra coerentemente com aquele ato de “vestir o casal com as túnicas de peles” (Gn 3,21). No quadro de desequilíbrio geral em que se debate a natureza decaída apa-rece a esperança amparada pela mão de Deus: o justo que adveio da linhagem de Eva, a Mu-lher, descendente de Set, a quem Eva deu o nome (Gn 4,25), começando a pisar a cabeça da serpente. Em cada fenômeno da natureza que traduza a corrupção a que fora reduzida pelo mal se refletirá pela presença de um justo a vitória preanunciada no Protoevangelho. Deus é
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fiel, verdadeiro (Rm 3,4), imutável e com Noé mantém ainda além do consórcio de tarefas (Gn 2,5) bem vivo o mesmo apelo à intimidade, familiaridade e comunhão de vidas a que foram convocados, em Adão e Eva, todos os Homens.
Não se tratava de uma destruição total da Criação eis que tivesse Deus essa intenção ficaria sem sentido a Arca onde entraram Noé, “teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos” (Gn 6,18), além de “tudo o que vive, de tudo o que é carne... dois de cada espécie, um macho e uma fêmea, para os conservares em vida contigo” (Gn 6,19-21). Essa a grande contradição aparente da narrativa que mais se agiganta quando se recolhe “sete casais de animais puros e um de impuros” (Gn 7,2). A se considerar a impureza como tal seria essa a oportunidade ideal para se acabar com os animais impuros, não os salvando como fez. Outra conclusão não pode existir: a narrativa tem uma conotação subjacente ou outra finalidade paralela, não se limitando apenas a demonstrar o efeito do Pecado Original também nos de-sequilíbrios e cataclismos da própria natureza:
“Iahweh aspirou o perfume que aplaca e disse consigo: „Eu não amaldiçoarei nunca mais a terra por causa do ho-mem, porque os desígnios do coração do homem são maus desde a sua infância... ‟” (Gn 8,21).
“... perfume que aplaca...” (Lv 1,9,13,17...) – muitas Bíblias trazem essa tradução, a que melhor se identifica ao resultado almejado com um Sacrifício, em casos como esse do Dilúvio e conforme a cultura do narrador, que seria aplacar Ira de Iahweh, pelos atos contrá-rios ao Seu Desígnio. A palavra memória em hebraico tem uma conotação com perfume ou odor. É que quando alguém usa perfume mesmo após sua saída do local a presença do odor marca a sua estadia pela lembrança. Quando se celebra um sacrifício imola-s a vítima em lugar do ofertante e Deus ao sentir o odor da fumaça, lembra-se dele, do ofertante, aplacando a ira. Esse fato é também afirmado com expressão bíblica mais insinuante quando da oferta de Abel e a de Caim: “Deus olhou para Abel e sua oferta, para Caim e sua oferta não olhou“ Além disso, o narrador oferece a grande mensagem do Dilúvio: a fonte do mal está no cora-ção do Homem e não na Criação, outra consequência do primeiro pecado (Gn 8,21). Mesmo destruindo e recriando-se tudo de novo não se resolve o problema do mal se ele não for erra-dicado do coração humano, essa é a grande lição da narrativa! Não se pode perder de vista a condição cultural do narrador já que os seus conhecimentos da natureza física eram-lhe mui-to limitados. Realmente ali aconteceu um grande cataclismo, outros povos antigos também o narram. O hagiógrafo o coloca como ato de repulsa de Deus ao pecado que então se pratica-va segundo a interpretação dele, humana e culturalmente condicionada, tendo julgado que tenha atingido o mundo todo. Traduz aquilo que se denomina de ira de Deus que consiste no abandono a que a própria criatura por si mesma se entrega às forças do mal, no qual mais e mais se afunda. Pareceu-lhe como uma Nova Criação:
“Deus abençoou Noé e seus filhos, e lhes disse: „Sede fecundos, multiplicai, enchei a terra” (Gn 9,1).
Esta frase é como um retorno ao ato inicial da Criação e toda a narrativa nada mais é que, no próprio relato da presença do desequilíbrio na natureza, o prosseguimento da luta que o bem de Deus trava com o mal do diabo. E anuncia a vitória com a colocação do Ho-mem na Arca, protegendo-o durante todo o percurso, e conduzindo-o à terra firme, culmi-nando com uma Bênção, e ratificando a Obra, num recomeço total de Nova Criação. É para, pelo e por meio do Justo a Criação, refletindo sempre os Desígnios de Deus para o Homem. Assim vem o Dilúvio espelhar em forma de uma pacificação de Deus que não tem o desejo de destruir nem o mundo nem o Homem: os atos de Deus são irreversíveis. Retrata também que apesar do pecado e desenlaces havidos não há guerra entre Deus e o Homem. Tal como o guerreiro depõe o arco de flechas após a guerra, Deus depõe o ”seu arco nas nuvens” a-nunciando a paz:
“Eis o sinal da Aliança que instituo entre mim e vós e todos os seres vivos que estão convosco para todas as gerações futuras: porei o meu arco na nuvem e ele se tornará um sinal da aliança entre mim e a terra” (Gn 9,12-13).
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O arco da guerra entre Deus e o Homem foi deposto e para sempre passa a escorar com a sua parte curva as comportas que mantêm no firmamento as “águas que estão em ci-ma” (Gn 1,6-7). O arco funcionava na cultura de então como uma espécie de vigorosa viga semicircular que mantinha para sempre “fechadas as comportas que contêm as águas do fir-mamento” (Gn 7,11; 8,2...). È conhecido com o nome de Arco Íris passando a ser visto por Iahweh como um memorial da Aliança universal ali contraída:
“Quando o arco estiver na nuvem, eu o verei e me lembrarei da aliança eterna que há entre Deus e os seres vivos, com toda a carne que existe sobre a terra” (Gn 9,16).
Novamente o narrador mistura aqui instituições existentes em seu tempo e coloca nessa pré-história bíblica o ritual do sacrifício como já existente e em uso pelo justo. Faz isso para ser compreendido pelos seus contemporâneos. Assim, quando fala em animais pu-ros refere-se a uma disposição da Lei de Moisés (mosaica) ou do Código do Sinai (Lv 11), fazendo a apologia das instituições religiosas em uso e cuja observância entende ser desde então condição de eficácia da proteção de Deus:
“Noé construiu um altar a Iahweh e, tomando dos animais puros e de todas as aves puras, ofereceu holocaustos sobre o altar. Iahweh respirou o agradável odor e disse consigo: Eu não amaldiçoarei nunca mais a terra por causa do ho-mem, porque os desígnios do coração do homem são maus desde a sua infância; nunca mais destruirei todos os vi-ventes como fiz” (Gn 8,20-21).
Facilmente se percebe que animais puros são aqueles que se destinavam ao sacrifício onde eram consumidos. No holocausto a vítima é toda queimada nada se come (Lv 1) só a consumindo Iahweh, respirando o odor da fumaça a que se reduziram os pecados do ofertan-te e assim significar a expiação deles:
“Se sua oferenda consistir em holocausto (...) oferecê-lo-á à entrada da Tenda da Reunião, para que seja aceito pe-rante Iahweh. Porá a mão sobre a cabeça da vítima e esta será aceita para que se faça por ele o rito de expiação” (Lv 1,3-4).
Uma das finalidades do sacrifício é a santificação advinda da comunhão de vidas com Deus (1Cor 10,18). Era oferecido num altar especialmente ungido para a santificação das oferendas (Ex 30,22-29) com as quais se santificavam pela consumição pelos participan-tes, o ofertante, os seus familiares e convivas, entrando em comunhão com Deus que, por ser espírito, aspirava ao suave odor das partes queimadas, como confirma Jesus:
“Quem é maior, a oferta ou o altar que santifica a oferta?” (Mt 23,19)
A substituição do ofertante pela vítima que se opera pela imposição das mãos (Lv 1,4) foi institucionalizada a partir da imolação de um cordeiro em lugar de Isaac assim aceito pelo próprio Deus (Gn 22,13-14). Aparece também a crença de que a parte simboliza o todo quando Noé “tomando de todos os animais puros” (Gn 8,20) e não todos eles, e os oferece em holocausto, tal como ensina São Paulo:
“E se as primícias são santas, a massa também o será; e se as raízes são santas, os ramos também o serão” (Rm 11,16).
A concepção vigente era de que o todo se solidariza com a sorte da parte. No sacrifí-cio, santificada a oferenda no altar santificava-se o ofertante, a sua família, amigos partici-pantes e bens além da comunhão com o sacerdote e Iahweh, com o Altar (1Cor 10,18). Na-quele ato Noé representando a raça humana, único remanescente e primogênito do clã (Gn 5,28-29), justo, oferece a Iahweh o holocausto em substituição expiando assim todas as o-fensas praticadas:
“... tendo o sacerdote feito o rito de expiação pelos membros da comunidade, serão eles perdoados” (Lv 4,20).
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A oferenda foi eficaz e restabelece-se a relação com Deus, a ordem no mundo e a atribuição do Homem:
“... nunca mais destruirei todos os viventes, como fiz. Enquanto durar a terra, semeadura e colheita, frio e calor, ve-rão e inverno, dia e noite não hão de faltar. Deus abençoou Noé e seus filhos e lhes disse: „Sede fecundos, multipli-cai-vos, enchei a terra” (Gn 8,21-9,1).
Há em sequência nova bênção aos únicos sobreviventes do cataclismo com algumas diferenças da anterior, quando da Criação do Homem (Gn 1,28-29):
Gn 9,1-7
Gn 1,28-30
Deus abençoou Noé e seus filhos e lhes disse: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra. Sede o medo e o pavor de todos os animais da terra e de todas as aves do céu, como de tudo o que se move na terra e de todos os peixes do mar: eles são entregues nas vossas mãos... Quanto a vós, sede fecundos, multiplicai-vos, povoai a terra e enchei-a1
Deus os abençoou e lhes disse:
“Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; domi-nai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra”. Deus disse:
Tudo o que se move e possui a vida
tudo isso eu vos dou, como vos dei a verdura das plantas
vos servirá de alimento...
“Eu vos dou todas as ervas que deem semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dêem semente”.
Isso será vosso alimento.
“A todas as feras, a todas as aves do céu, a tudo o que rasteja sobre a terra e que é animado de vida, eu dou como alimento toda a verdu-ra das plantas”.
Mas não comereis a carne com sua alma, isto é, o sangue. Pedirei contas, porém do sangue de cada um de vós. Pedirei contas a todos os animais e ao homem, aos homens entre si, eu pedirei contas da alma do homem. Quem derrama o sangue do homem pelo homem terá seu sangue derramado. Pois à imagem de Deus o homem foi feito...”.
Algumas modificações são facilmente perceptíveis pelo simples cotejo das duas bên-çãos acima, transcritas em colunas para melhor visualizar. Tal como anunciado na Maldição da Terra (Gn 3,17-19) o Homem perde o controle sobre ela e agora “não mais domina sobre os animais”. Fugiu-lhes tudo ao domínio anterior que o Dilúvio apresenta como outra das conseqüências do Pecado Original que ora se manifesta na própria natureza terrestre. Tam-bém, pela mesma causa Deus estabelece novas normas de comportamento pelo que o Ho-mem passa a ter o direito de comer a carne de todos os seres vivos. Inaugura-se o que se chama resgate, isso é, por ter salvado os animais passa a ter direito sobre eles e o Homem de herbívoro passa a carnívoro. Além disso, é estabelecido o direito social da Pena de Morte para quem derramar sangue humano, pois “o Homem foi criado à semelhança de Deus” (Gn 9,8). O ritual do sacrifício, no tocante ao respeito pelo sangue, é aí colocado em sinal de expiação, fato retroagido pelo narrador advindo da codificação levítica (Lv 17,11).
É que naqueles tempos o sangue era tido como a fonte da vida (Lv 17,11a) e comen-do-se o seu sangue adquire-se a vida dele ou o pecado do ofertante de que tinha sido conta-minado no sacrifício pela imposição das mãos. Partia-se do fato de que, ao se frustrar a menstruação da mulher, estava concebido o nascituro entendendo-se que “o sangue materno coagulava-se ao desaparecer em virtude da mescla com o esperma, gerando-se o feto” (Jó 10,10 / Sb 7,2 / Lv 17,11). O sangue, sendo vida, somente a Deus pertence pelo que se de-volve à terra ou se derrama em torno aos pés do altar e parte dele no próprio povo conforme o ritual.
De tudo isso fica mais que claro que a grande mensagem do Dilúvio é a Nova Ordem aí presente na forma de uma Aliança entre Deus e o Justo abarcando pela bênção da parte a todos os Homens, a todos os seres vivos e a toda a criação. Ainda “o mal está no coração humano” é conclusão a que chega o narrador, colocando-a em Deus:
“Eu não amaldiçoarei nunca mais a terra por causa do homem, porque os desígnios do coração do homem são maus desde a sua infância; nunca mais matarei todos os viventes, como fiz” (Gn 8,21).
1 O usual deveria ser “dominai-a” que é conjetural, procurando acomodar a frase àquela de Gn 1,28.
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Repetindo-se o que já foi escrito acima, não é destruindo e começando de novo a Criação que se acabará com as consequências do Pecado Original. É somente com a erradi-cação do mal de dentro do coração do homem que aqueles desígnios de Deus se cumprirão. Tornando justo o homem é que ele retornará à árvore da vida, no Éden, para onde Deus ain-da o chama para viver eternamente. Deus, autor da criação, também autor da salvação, é quem tudo conduz para o restabelecimento daquela comunhão de vidas anteriormente rom-pida pelo próprio Homem anunciada e prefigurada na preservação de um justo. O dilúvio é então um anúncio profético da salvação do homem a ser praticada por um justo. E, da mes-ma forma que o justo Noé e sua família viveriam num mundo lavado pelas águas também os cristãos, justos pela água do batismo, viverão no reino de Deus inaugurado na Encarnação, Vida, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, o Justo:
“Pois a Criação em expectativa anseia pela revelação dos filhos de Deus. De fato, a criação foi submetida à vaidade - não por seu querer, mas por vontade daquele que a submeteu - na esperança de ela também será liberta da escravidão da corrupção para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus. Pois sabemos que a criação inteira geme e sofre as dores de parto até o presente” (Rm 8,19-22).
O que o Dilúvio diz, fundamentalmente, é que somente se purificará o homem erra-dicando-se o mal de dentro do seu coração.
1.8.3. - A TORRE DE BABEL
O Autor Sacro não foi apenas compilador amorfo de narrativas advindas do seu pas-sado. Vai num crescendo, apresentando o rastro de efeitos do rompimento com Deus, em todo o ambiente em que se insere e cerca o Homem. Abordou todos os fatos em todos os ângulos onde sentiu provável presença desse desequilíbrio. Passa a abordar outro efeito ca-tastrófico dele com o nome de Torre de Babel.
É que o Homem desprovido da unidade que lhe proporcionaria Deus passa a buscá-la apenas a partir dos seus semelhantes, índole essa que lhe fora incutida na própria natureza social (Gn 2,18). Somente vivendo em agrupamentos humanos poderia ele vencer as diver-sas intempéries que o mundo hostil que o cercava lhe oferecia, e que sozinho nunca supera-ria. Várias obras arquitetônicas, monumentos e até mesmo cidades imensas vêm corroborar esse fato da vida organizada como fruto de sua inteligência, voltada para a conduta social e comportamento em comum. O equilíbrio advindo vem sublinhado com a afirmação de que “todo o mundo usava e se servia da mesma língua” (Gn 11,1) apesar de antes já se mencio-nar várias delas (Gn 10,5.20). O sentido aí impresso é que os homens se entendiam tendo um objetivo comum mantendo-os unidos por meio de uma obra monumental capaz de fazê-los superar a ameaça de separação.
As torres da Mesopotâmia tinham a forma de uma escada como a unir o céu e a terra, permitindo aos deuses descer pelos degraus para se entreter com os homens. A narração mostra que para se tornarem famosos e salvarem a unidade pretendeu-se construir “uma ci-dade e uma torre cujo ápice penetre nos céus”:
“Disseram um ao outro: Vinde! Façamos tijolos e cozamo-los ao fogo! O tijolo lhes serviu de pedra e o betume de argamassa. Disseram: Vinde! Construamos uma cidade e uma torre cujo ápice penetre nos céus! Façamo-nos um nome e não sejamos dispersos sobre toda a terra” (Gn 10, 3-4).
O “façamo-nos um nome” evidencia a busca de fama, como uma das fontes dos fatos narrados. Também a expressão “não sejamos dispersos sobre toda a terra” mostra com pro-priedade que a finalidade deles era a própria unidade em perigo eminente. Apegaram-se cio-samente uns aos outros, perdido o liame com o próprio Criador, mas contrariaram aquele desígnio que lhes imprimira com a ordem expressa de “povoar a terra e enchê-la” (Gn 9,1.7).
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Pelos degraus da Torre, “Iahweh desceu para ver a cidade e a Torre que os homens tinham construído” (Gn 11,5), e não se alegrou:
“E Iahweh disse: „Eis que todos constituem um só povo e falam uma só língua. Isso é o começo de suas iniciativas! Agora, nenhum desígnio será irrealizável para eles! Vinde! Desçamos! Confundamos sua linguagem para que não mais se entendam uns aos outros‟. Iahweh os dispersou dali por toda a face da terra, eles cessaram de construir a ci-dade” (Gn 11,6-8).
Há, nessa narrativa, muito mais que a tentativa de explicar a origem das línguas co-mo geralmente se presume. Não se pode esquecer de que “o coração do homem continua voltado para o mal” como já fora diagnosticado. Manifesta-se ainda em discordâncias fami-liares tais como entre Noé, dois de seus filhos e o caçula Cam, que ofendeu culturalmente a honra do pai (Gn 9,20-25). Apesar do Dilúvio a desarmonia familiar continuava e culmina com a maldição de Canaã, o primogênito de Cam. Nessa maldição se situa pretensa justifi-cação perante a consciência tribal de justiça do motivo pelo qual Deus retira-lhe a Terra de Canaã, para destiná-la aos descendentes do filho primogênito de Noé, Sem. Também, da descendência de Cam vêm os “homens que emigraram para o oriente,... um vale na terra de Senaar e aí se estabeleceram” (Gn 11,2.4 / 10,10.19): são os filhos amaldiçoados (Gn 9,25-27) e tal como os de Caim passaram a construir “cidades”, fontes de perdição, dentre elas Babel (Gn 10,10) e Sodoma e Gomorra (Gn 10,19; 13,13; 18,20; 19,4-11). É evidente que o narrador quer demonstrar as consequências do pecado difundindo-se e alastrando-se até mesmo pela vida social, pois os homens não mais se entendem, “não falam a mesma lín-gua”, fruto da mesma cobiça e do mesmo orgulho que os afastara da intimidade de Deus no Paraíso, deixando-se seduzir por suposta glória humana. É o que se nota em se comparando:
Gn 3,4-5
Gn 11,4
Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como Elo-him, versados no bem e no mal.
Construamos uma cidade e uma torre cujo ápice penetre nos céus.
Façamo-nos um nome e não sejamos dispersos sobre toda a terra.
Ao invés da própria glorificação nada conseguem a não ser repetir o infortúnio e a frustração anterior:
Gn 3,22
Gn 11,6-7
Se o homem é como um de nós, versado no bem e no mal, que ele agora não estenda a mão,
e colha também da árvore da vida, e coma e viva para sempre.
Isso é o começo de suas iniciativas!
Agora, nenhum desígnio será irrealizável para eles. Vinde! Desçamos! Confundamos sua linguagem para que não mais se entendam uns aos outros.
Há assim uma espécie de ratificação da Queda Original pela identidade dos efeitos finais. Por causa do preceito violado lá se deu a difusão do gênero humano advinda de ma-neira natural pela expulsão do Éden. Porém, como efeito da mesma causa ocorre outra difu-são humana oriunda desse novo acontecimento em virtude de não mais se falar a mesma língua, não mais se entendendo uns com os outros. Como se agrupavam contra os Desígnios do Criador, que determinara a dispersão dos homens por todo o mundo (... dominai a terra e possuí-a...) o narrador coloca em Deus a fonte do desentendimento. Do fato advém o nome Babel (Gn 11,9) que significa porta de Deus, naturalmente se referindo ao lugar por onde Deus desceu, causando a confusão e desentendimento, dispersando-os (Gn 11,8).
A grande mensagem dessa narrativa é a necessidade e premência do Homem sempre ter uma grande obra comum para se conseguir a unidade, mesmo que temporária, com os seus semelhantes. Inutilmente, porém. O desentendimento que se manifesta no relaciona-mento social foi originado no rompimento havido com o Criador. Comprometido o centro irradiador da energia unitiva de Deus não é possível a unidade humana a não ser a custa de esforços gigantescos tais como em obras de grande projeção. O próprio interesse humano se desviou não sendo por amor a Deus que se busca o progresso, mas por motivos humanos e egoístas, fama e vaidade ou qualquer outra forma de cobiça e orgulho.
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A mudança e a inversão desse quadro somente se darão com a inauguração da era cristã fato significado com o fenômeno de Pentecostes em que homens “vindos de todas as nações que há debaixo do céu... cada qual os ouvia falar em seu próprio idioma”:
“E todos ficaram repletos do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes conce-dia se exprimissem. Achavam-se então em Jerusalém judeus piedosos, vindos de todas as nações que há debaixo do céu... cada qual os ouvia falar em seu próprio idioma” (At 2,4-6).
Noé teve três filhos: Sem, Cam e Jafet (Gn 9,18-19 / 10,1-32 / 11,10-32) a partir dos quais foi estruturada a História da Salvação. De acordo com as genealogias bem delineadas estão as duas posições que aparecem desde Caim: a separação entre a geração dos bons, aqui em Sem, e a dos maus em Cam de cuja descendência Deus tirará a Terra Prometida para entregá-la aos descendentes de Sem (Gn 10,15-17 / 15,18-20 / Dt 7,1). Da mesma forma manifestar-se-ão na descendência de Cam às cidades pecadoras “Nínive, Sodoma e Gomor-ra” (Gn 10,11.19).
Até aqui o escritor sagrado quer mostrar o estado do mundo ou a situação e condi-ções a que ficou reduzida a Criação após a separação havida entre o Homem e Deus. Por sua vez, com a Queda perdido sentiu-se o Homem, desprovido do verdadeiro e único sentido da vida e ofuscado pela desordem consequente, difuso em sua estrutura e sem critérios básicos normais de conduta e comportamento, guiando-se apenas e tão somente pelo próprio instinto de sobrevivência e de conservação da espécie.
A ALIANÇA
1.9. - A PROMESSA
Aquela disposição de Deus em “plantar um jardim e nele colocar o Homem que cria-ra” (Gn 2,8) não sofrera solução de continuidade e persiste ativa apesar das consequências do pecado se manifestar por toda a Criação. Mas Deus é inexorável em seus desígnios os quais inicialmente passam a tomar forma e vão se corporificar a partir de uma promessa que faz então a outro justo, Abrão, descendente de Sem (Gn 11,10-32), e da linhagem de Set (Gn 5,3.6.30; 6,9-10). A seu respeito Josué dirá, quando da conquista da Terra Prometida, que anteriormente “Abraão servira a outros deuses...” (Js 24,2).
Antes é necessário rever alguma disposição da cultura daquele tempo. Atualmente POVO tem o sentido peculiar de um agrupamento em uma determinada área fixa de pessoas que possuem a mesma cultura, a mesma história, a mesma organização, obedecem às mes-mas leis e seguem costumes semelhantes. Não era assim nos tempos bíblicos! Um povo se identificava por seu deus ou deuses. Acreditava-se em vários deuses e cada um ou mais de-les tinha um agrupamento humano que o servia e era por ele ou eles protegido. Assim, cada clã tinha o seu deus ou deuses e o desvio de sua adoração e serviço ou a prática de ato dano-so e grave significava o afastamento do membro, como se demonstrou ter acontecido com Caim. Havia sempre uma idéia subjacente do soberano ditando normas para seus súditos ou vassalos. Isso pode ser confirmado em outros trechos:
"Pois todos os povos andam, cada um em nome do seu deus; mas nós andaremos para todo o sempre em o nome de Iahweh nosso Deus" (Mq 4,5) / "Vinde, ó casa de Jacó, e andemos na luz de Iahweh. Mas tu rejeitaste o teu povo, a casa de Jacó; porque desde tempos antigos está cheio de adivinhos, como os filisteus, e fazem alianças com os filhos dos estrangeiros" (Is 2,5-6).
É de se concluir das transcritas palavras de Josué que houve então uma conversão de Abrão, passando a adorar e a servir a Iahweh que, portanto, não pôde mais permanecer no mesmo clã:
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“Iahweh disse a Abrão: „Deixa teu país, tua parentela e a casa de teu pai, e vai para o país que te mostrarei. Eu farei de ti um grande povo...” (Gn 12,1-2).
E em se convertendo recebe de Deus a Promessa:
“Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome; seja tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem. Amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Por ti serão benditos todos os clãs da terra” (Gn 12,2-3).
Deus separa Abrão do meio de seu povo para prepará-lo e conduzi-lo à familiaridade e intimidade de vidas e a partir dele formar um povo, o Povo de Iahweh Deus. Apesar de ser grande privilégio ouvir tais palavras obedecê-las foi-lhe sobremaneira penoso, heróico, in-comum e verdadeira provação. Exigiu na verdade enorme esforço e abnegação que até mes-mo o desguarnece culturalmente e ã sua família.
Afastando-se pela conversão, de seus iguais, de sua família, de seus parentes, de seus amigos e de sua estabilidade econômica e tribal fica humanamente desprotegido e expõe-se a toda sorte de dificuldades comprometendo até mesmo a própria sobrevivência. Naquele tempo, afastar-se desses condicionamentos culturais era ficar sujeito até mesmo à morte pelo abandono entre estranhos. Era a insegurança total! Mas o seu papel na História da Salvação o destinava a uma especial eleição: abandonadas as divindades pagãs e a idolatria converte-se a Iahweh que o toma para formar um Povo, o Povo de Iahweh. Não há eleição ou vocação sem motivo ou por diletantismo e sem uma missão específica. Caberia ao Povo advindo dele reconduzir o Homem para a vida no Paraíso Perdido ou no Jardim de Deus, então significa-do na Terra Prometida a Abrão (Gn 12,7.14-17) e destinada futuramente ao Povo de Deus (Ex 3,8) para aquela vida em comunhão e intimidade perdidas com a Queda Original tal co-mo Jesus revela:
"... hoje estarás comigo no paraíso" (Lc 23,43).
Humanamente falando não é outro o Desígnio de Deus para a libertação do Homem das desastrosas consequências do afastamento da sua original participação na vida divina. É ato gratuito e fiel de Deus, fruto de Sua Misericórdia e Justiça, na coerência dinâmica que Lhe é imanente e sem nenhum mérito do Homem. A vocação, a eleição e a missão são gra-tuitas, pelas quais Deus somente exige Fé, condição de uma entrega incondicional, obediente e resposta natural do Homem em direção ao que lhe é oferecido:
"Pela FÉ Abraão, sendo chamado, obedeceu, saindo para um lugar que havia de receber por herança; e sa-iu, sem saber para onde ia. Pela FÉ peregrinou na terra da promessa, como em terra alheia, habitando em tendas..." (Hb 11,8-9) / Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí, perante aquele no qual creu, a saber, Deus, que vivifica os mortos, e chama as coisas que não são, como se já fossem. O qual, em esperança, creu contra a esperança, para que se tornasse pai de muitas nações, conforme o que lhe fora di-to: Assim será a tua descendência; e sem se enfraquecer na fé, considerou o seu próprio corpo já amorte-cido, pois tinha quase cem anos, e o amortecimento do ventre de Sara; contudo, à vista da promessa de Deus, não vacilou por incredulidade, antes foi fortalecido na fé, dando glória a Deus, e estando certíssimo de que o que Deus tinha prometido, também era poderoso para fazê-lo. Pelo que também isso lhe foi im-putado como justiça" (Rm 4,17-20).
Para Abrão aquela promessa de “nele serem abençoadas todas as nações da terra” (Gn 12,3) trazia em germe a existência de descendentes seus com a estéril Sarai (Gn 11,30). Quando se apresentou o Protoevangelho foram demonstradas a posição da mulher na Histó-ria da Salvação e a esterilidade habitual de todas as que lhe são vinculadas. (veja Capítulo I, nº 1.6.2). Deixa-se então conduzir por Iahweh Deus abandonando tudo e até mesmo a sua tribo, familiares e parentes para satisfazer-Lhe os Desígnios. Foi essa fé com a atitude que lhe adveio que lhe valeu também a qualidade de justo; e o deslocar-se de seu meio, entre-gando-se ao Desígnio de Deus condicionou-o a ser a fonte do Povo de Deus. Deu um povo para Deus, um agrupamento humano em torno da Vontade d‟Ele, subordinando-se apenas e tão somente ao Seu Desígnio, povo que vivesse em Sua familiaridade e divulgasse a entrega pessoal pela crença n‟Ele, por um testemunho vivo:
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“... cumular-te-ei de bênçãos e farei a tua posteridade numerosíssima como as estrelas do céu, e como a areia da praia do mar..., e na tua descendência dir-se-ão benditas todas as nações...” (Gn 22,17-18).
Abandonando tudo, sai com a sua mulher, seu sobrinho Ló, com tudo o que possuía, e foi para a terra de Canaã, terra que era destinada à tua descendência:
"Partiu, pois Abrão como Iahweh lhe ordenara, e Ló foi com ele. Tinha Abrão setenta e cinco anos quando saiu de Harã. Abrão levou consigo a Sarai, sua mulher, e a Ló, filho de seu irmão, e todos os bens que haviam adquirido, e as pessoas que lhes acresceram em Harã; e foram à terra de Canaã. Passou Abrão pela terra até o lugar de Siquém, até o carvalho de Moré. Nesse tempo estavam os cananeus na terra. Apareceu, porém, o Senhor a Abrão, e disse: À tua descendência darei esta terra. Abrão, pois, edificou ali um altar a Iahweh, que lhe aparecera. Então passou dali para o monte ao oriente de Betel, e armou a sua tenda, ficando-lhe Betel ao ocidente, e Hai ao oriente; também ali edificou um altar a Iahweh, e invocou o nome de Iahweh" (Gn 12,4-8).
Os livros da Sagrada Escritura não foram escritos para todos os povos, mas especi-almente para os Israelitas do tempo e resumidamente, pois finalidades conheciam os fatos e acontecimentos com os detalhes culturais da época, e se destinavam à quase sempre litúrgi-cas. Eram apenas auxiliares à memória ou recordação, dispensando-se os pormenores já co-nhecidos. Esse trecho é um exemplo característico disso: Abrão, ao percorrer a área que Deus lhe prometera, procura os “lugares altos” sob uma árvore, um carvalho de preferência, onde os antigos cultuavam os seus deuses e se doutrinavam para ali erguer um altar e invo-car Iahweh e satisfazer as particularidades referentes ao sacrifício, desde então o centro do culto. Abrão erradica os cultos pagãos ao "edificar um altar a Iahweh, e invocando o nome de Iahweh", continuando assim a invocar Iahweh, que se iniciou com Enós, o filho de Set (Gn 4,26).
1.10. - ABRÃO NO MUNDO DE ENTÃO
Prosseguindo a narrativa, registra-se um episódio que mostra as condições culturais do tempo em que Abrão começa a sua peregrinação. Aparece outra consequência do pecado: "era grande a fome na terra" (Gn 12,10), e Abrão desce ao Egito, o celeiro do mundo de en-tão, em busca de sobrevivência:
"Perto de entrar no Egito, disse a Sarai, sua mulher: „Eu sei que és bonita, vendo-te, os egípcios dirão „es-ta é a mulher dele‟ e matar-me-ão, conservando-te com vida. Dize, te peço, que és minha irmã, para que me tratem bem por tua causa e graças a ti minha vida seja salva‟. Quando Abrão entrou no Egito, os egíp-cios viram que sua mulher era verdadeiramente muito bonita. Ao vê-la, os oficiais do Faraó a elogiaram muito diante dele pelo que ela foi levada para o palácio do Faraó. Quanto a Abrão, foi muito bem tratado por causa dela, ganhando ovelhas, bois e jumentos, escravos, servas, mulas e camelos" (Gn 12,11-16).
Essa atitude de Abrão assusta por demais principalmente o cristão que não pode con-cordar com essa entrega da esposa para ser levada ao harém do faraó. Aqui também se im-põe a necessidade de se deslocar mentalmente ao tempo do acontecimento e analisá-lo como então, e não como hoje. Ora, Abrão estava consciente de sua missão e detentor de uma pro-messa de Iahweh a que tinha de corresponder eficazmente e ali ainda se aliam várias outras situações peculiares. Uma delas é a da luta pela sobrevivência num país hostil e de cultura diferente. Outra das situações peculiares é a inexistência do mesmo conceito moral uniforme e organizado que se tem atualmente, mas normas de conduta e comportamento às vezes iso-ladas e rudimentares, instintivas mesmo, ditadas mais pelas leis da sobrevivência. Inexistiam os Dez Mandamentos, só comandando o homem de então a Lei Natural. Então o que se im-põe é não o condenar pelas leis morais de hoje já que então se manifestavam as consequên-cias do pecado original sempre em conflito no justo, tateando e debatendo-se num mundo moralmente ainda confuso e desordenado. Conclui-se que houve uma intervenção de Deus em defesa da integridade ameaçada de Sarai, protegendo-a. "Iahweh feriu o faraó e sua corte com grandes flagelos por causa de Sarai, esposa de Abrão" (Gn 12,17 / Gn 20,4.14.16).
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Aconteceu exatamente o que Abrão havia previsto e temido, e teve sua vida não so-mente poupada, mas foi enriquecido "por causa dela ganhando ovelhas, bois e jumentos, escravos, servas, mulas e camelos" (Gn 12,16). Esse fato vai se repetir igualmente em Gerar, com Abimelec (Gn 20) bem como a intervenção de Deus, salvaguardando-o de qualquer violação na integridade de Sarai (Gn 12,17 / 20,3.4.14.16) e em defesa do casal, protegendo e tutelando seus eleitos, uma vez que Sarai era "meia-irmã" dele, filha do mesmo pai se bem que de mãe diferente (Gn 20,12-13). Apresentando-a como sua irmã, Abrão não mentiu nem aqui nem no Egito. O que se buscava era livrá-los da morte em vista da missão para a qual tinham sido eleitos. Para tanto, como no Jardim do Éden, a proteção de Deus que "fez para eles túnicas de peles e os vestiu" (Gn 3,21) se repete. Os desígnios de Deus são irreversíveis, e para conduzir o Homem ao Paraíso vai formar o povo a partir de Abrão que sai do Egito rico (Gn 13,2), retornando à Terra de Canaã, "ao lugar onde anteriormente erigira um altar e ali invocou Iahweh" (Gn 13,4). De novo eis o sacrifício, como centro do culto a Deus e da vida do Patriarca. Da mesma maneira que ocorreu com Abrão, o povo dele advindo também irá pelo mesmo motivo para o Egito e de lá também será expulso rico, e pelo faraó (Gn 15,13 / Ex 12,36.51).
De volta, já em sua terra surge sério problema entre os pastores de Abrão e os de Ló (Gn 13,5-12) tendo em vista dificuldades com o pastoreio, em virtude da exiguidade das pastagens insuficientes para a movimentação de ambos os rebanhos. Abrão não se deixa perturbar e em nome da paz deixa ao sobrinho a faculdade da escolha do local que melhor lhe servisse. Aparece de novo o justo a se debater num mundo que lhe é hostil, atingindo até mesmo a sua vida familiar por circunstâncias advindas do desequilíbrio reinante na natureza, em consequência do pecado bem como da agressividade, mesmo de seus pastores com os de membro de sua própria família. Não é outro o motivo por que o narrador inclui aqui esse episódio em que Abrão permanece na Terra de Canaã, que lhe foi prometida, enquanto Ló vai morar numa cidade, como já se viu desde Caim, vista como lugar de perdição:
"Abrão permaneceu no país de Canaã, enquanto Ló se estabeleceu nas cidades do vale e armava suas tendas até Sodoma. Ora, os habitantes de Sodoma eram muito perversos e pecavam gravemente contra Iahweh" (Gn 13,12-13).
Abrão é novamente premiado por sua fé, bem evidenciada pelo modo pacífico de contornar e solucionar a divergência sem perder ao menos de leve o equilíbrio, mesmo so-frendo a injustiça do egoísmo de Ló, que escolhe a melhor porção (Gn 13,10-12) ficando-lhe a da Promessa que Deus ratifica:
"Iahweh disse a Abrão, depois que Ló se separou dele: Levanta os olhos e, do lugar onde estás, contempla o norte e o sul, o oriente e o ocidente. Toda essa terra que vês, darei a ti e à tua descendência para sempre. Torna-rei tua descendência como o pó da terra. Se alguém pudesse contar o pó da terra, contaria também tua descen-dência. Levanta-te e percorre este país de ponta a ponta porque será a ti que o darei”. Abrão levantou as tendas e foi morar junto ao carvalho de Mambré, perto de Hebron, onde construiu um altar para o Senhor" (Gn 13,14-18).
“... e a tua descendência para sempre" - São Paulo revela a existência neste trecho de um anúncio de Cristo:
"Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à descendência dele. Não diz: “e a teus descendentes”, como se fossem muitos, mas fala de um só: e a tua descendência que é Cristo" (Gl 3,16).
Já se percebe que na realidade, Cristo é a razão primeira e única das Escrituras Sa-gradas e que o Antigo e o Novo Testamento na verdade não passa de um só, o anunciado naquele é cumprido neste. Descreve também a presença de dificuldades inúmeras no quoti-diano, advindo do desencontro causado pelas consequências eficazes do pecado em toda a criação:
"Porque a criação aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus. Porquanto a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que também a própria criação
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há de ser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, conjuntamente, geme e está com dores de parto até agora" (Rm 8,19-22).
Então Abrão se depara com outra situação de fato: a guerra entre cinco cidades em virtude do que Ló com as suas posses é levado como parte dos despojos de Sodoma e Go-morra pelos vencedores (Gn 14,1-12). Avisado, Abrão vai socorrer o sobrinho com um gru-po de apenas trezentos e dezoito homens, liberta-o e a todos os prisioneiros bem como recu-pera todos os bens saqueados. Aparece aqui o justo em luta com o mundo que lhe é total-mente avesso onde não se porta como um covarde nem foge à luta. Numa espécie de guerri-lha ("à noite") vence e liberta tudo e todos além do seu sobrinho com seus pertences (Gn 14,15-16). O rei de Sodoma lhe dá todos os bens e reclama as pessoas libertadas. Aparece então uma figura misteriosa por demais:
"Ora, Melquisedec, rei de Salém, trouxe pão e vinho; pois era sacerdote do Deus Altíssimo; e abençoou a Abrão, di-zendo: bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Criador dos céus e da terra! E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos! E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo" (Gn 14,18-20).
Porém o fato de Abrão receber a bênção, e Melquisedec oferecer pão e vinho no sa-crifício e receber o dízimo dos despojos advindos pela vitória evidencia-se a identidade de uma fé comum:
"Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés. (...) Jurou o Senhor, e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec” (Sl 110,1-4).
"Porque este Melquisedeque, rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, que saiu ao encontro de Abraão quando es-te regressava da matança dos reis, e o abençoou, a quem também Abraão separou o dízimo de tudo sendo primeira-mente, por interpretação do seu nome, rei de justiça, depois também rei de Salém, que é rei de paz; sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas feito semelhante ao Filho de Deus, perma-nece sacerdote para sempre. Considerai, pois, quão grande era este, a quem até o patriarca Abraão deu o dízimo den-tre os melhores despojos (...) Ora, sem contradição alguma, o menor é abençoado pelo maior". (Hb 7,1-7).
Vê-se que o Antigo Testamento transborda Cristo desde as primeiras narrativas, pre-figurando-O muitos dos personagens que aparecem. Assim Melquisedec "é feito semelhante ao Filho de Deus", e tal como Ele "permanece sacerdote para sempre". É que a família ou tribo de Judá a que Jesus pertencia segundo a sua genealogia não fora destinada ao exercício do sacerdócio, mas a tribo de Levi (Ex 29 / Nm 3,5+ e 8,14+). Isso é o que diz a Epístola aos Hebreus:
"E os que dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio têm ordem, segundo a lei, de tomar os dízimos do povo, is-to é, de seus irmãos, ainda que estes também tenham saído dos lombos de Abraão; mas aquele cuja genealogia não é contada entre eles, tomou dízimos de Abraão, e abençoou ao que tinha as promessas" (Hb 7,5-6). / "e abençoou a Abrão, dizendo: bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Criador dos céus e da terra! E bendito seja o Deus Altís-simo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos! E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo" (Gn 14,19-20).
Prosseguindo a narrativa, vê-se Abrão novamente se colocando em contradição com o mundo rejeitando os despojos a que tinha direito e de boa vontade oferecidos num claro reconhecimento de que os merecera:
"Então o rei de Sodoma disse a Abrão: Dá-me a mim as pessoas; e os bens toma-os para ti. Abrão, porém, respondeu ao rei de Sodoma: Levanto minha mão a Iahweh, o Deus Altíssimo, o Criador dos céus e da terra, jurando que não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu, nem um fio, nem uma correia de sapato, para que não digas: Eu enriqueci a Abrão; salvo tão somente o que os mancebos comeram, e a parte que toca aos homens Aner, Escol e Manre, que foram comigo; que estes tomem a sua parte" (Gn 14,21-24).
Não há dúvida alguma de que os fatos acontecidos geraram séria dificuldade para Abrão e acontecem sempre com aqueles eleitos de Deus colocados que são em posição não muito sintonizada com o mundo que os cerca, pelo que o próprio Deus o busca fortalecer:
"Depois destes acontecimentos veio a palavra do Senhor a Abrão numa visão, dizendo: Não temas, Abrão; eu sou o teu escudo, o teu galardão será grandíssimo. Então disse Abrão: Ó Iahweh Deus, que me darás, visto que morro sem
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filhos, e o herdeiro de minha casa é o damasceno Eliezer? Disse mais Abrão: A mim não me tens dado filhos; eis que um nascido na minha casa será o meu herdeiro" (Gn 15,1-3).
Abrão está livre e desapegado dos bens materiais é o que demonstra a sua atitude com referência às pastagens reclamadas por Ló e aqui aos despojos a que tinha direito, mas está consciente de sua eleição e a quer ver realizada. Mescla ainda à Obra de Deus suas pro-vidências humanas e não se curva a nada buscando apenas os Desígnios de Deus. Nem mesmo se deixa dominar pela cobiça e ambição já se manifestando livre de uma das primei-ras conseqüências do rompimento do Homem com Deus e fruto do primeiro lance do orgu-lho humano. Já se libertara por primeiro do apego aos bens como um sentimento de segu-rança deixando-se repousar apenas em Deus. Demonstra a sua condição de livre libertando os seus semelhantes e não se apegando aos despojos, nem humanos nem materiais. Só quem é livre liberta. Só liberta da cobiça e ambição quem é livre da cobiça e ambição. Só liberta do pecado quem é livre do pecado. Aí Abrão é pré-figura de Cristo, e eis que Cristo liberta do pecado por ser livre do pecado.
A própria Bíblia quase sempre fornece os subsídios para se compreender alguma obscuridade que apareça, tal como aqui a causa da reclamação de Abrão. Num mundo que lhe era terrivelmente hostil, lutando com todas as suas energias e usando de toda a paciência e controle possíveis ainda não vira se concretizar a Promessa que Deus lhe havia feito de que "toda essa terra que vês, darei a ti e à tua descendência para sempre" (Gn 13,14-18). Abrão não fora assaltado por aquela dúvida que contradiz a fé. Nunca! Foi uma espécie de dificuldade que lhe imprimiu a natureza confusa ao avaliar apenas as condições humanas e enfraquecidas pelas consequências do pecado original, em confronto e em avaliação real em face da entrega incondicional nas mãos de Deus que operava.
Tendo Deus lhe prometido dar e à descendência dele a terra em que peregrinava sen-tiu que nessa promessa estava embutida a geração de filhos dele com sua mulher Sarai que até aquele momento não vieram. É claro que sentiu dificuldades em compreender a situação e assim temeu, vindo Deus em seu socorro após o "morro sem filhos" e a quem deixar a he-rança:
"Ao que lhe veio a palavra de Iahweh, dizendo: Este não será o teu herdeiro; mas aquele que sair das tuas entranhas, esse será o teu herdeiro. Então o levou para fora, e disse: Olha agora para o céu e conta as estrelas, se as podes con-tar; e acrescentou-lhe: Assim será a tua descendência" (Gn 15,4-5).
Era a recompensa da renúncia, daquela renúncia de si mesmo que convulsionou e impulsionou a História da Salvação. História que foi e está sendo escrita exclusivamente por Deus pela Aliança refazendo o mesmo apelo do Éden ao coração do Homem. Ao chamado de Deus Abrão responde, após tão convulsionada esperança mostrando o sinal indelével que marcará a Obra da Redenção, a FÉ:
"Abrão creu em Deus, e isto lhe foi creditado como justiça" (Gn 15,6).
O sentido aqui é o que se lê: foi pela fé que teve em Deus que a sua dívida foi quita-da. Assim a Fé de Abrão que lhe valeu a justificação e o tornar-se "o Pai de todos os crentes" (Rm 4,11) servem de modelo perene para todos os fiéis de todos os tempos:
"Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, saindo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem sa-ber para onde ia. Pela fé peregrinou na terra da promessa, como em terra alheia, habitando em tendas com Isaac e Ja-có, herdeiros com ele da mesma promessa; porque esperava a cidade que tem os fundamentos, da qual o arquiteto e edificador é Deus" (Hb 11,8-10).
Também São Tiago, na sua Epístola, vai a ela se referir para vinculá-la à necessidade de expressão em obras, para não ser uma fé morta:
"Vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada; e se cumpriu a escritura que diz: E creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça, e foi chamado amigo de Deus" (Tg 2,22-23).
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1.11.- A ALIANÇA ESBOÇADA
Abrão prossegue apresentando as suas dificuldades a Deus com toda a franqueza e liberdade que caracterizam uma amizade profunda e familiar. Deus, por sua vez, o vai robus-tecendo e amadurecendo na fé:
"Disse-lhe mais: Eu sou Iahweh, que te tirei de Ur dos caldeus, para te dar esta terra em herança. Ao que lhe pergun-tou Abrão: Ó Iahweh Deus, como saberei que hei de herdá-la? Respondeu-lhe: Toma-me uma novilha de três anos, uma cabra de três anos, um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho. Ele, pois, lhe trouxe todos estes animais, partiu-os pelo meio, e pôs cada parte deles em frente da outra; mas não partiu as aves. E as aves de rapina desciam sobre os cadáveres; Abrão, porém, as enxotava. Ora, ao pôr do sol, caiu um profundo sono sobre Abrão; e eis que lhe sobrevieram grande pavor e densas trevas. (...) Quando o sol já estava posto, e era escuro, eis um fogo fumegante e uma tocha de fogo, que passaram por entre aquelas metades. Naquele mesmo dia fez o Iahweh uma Aliança com Abrão, dizendo: Á tua descendência tenho dado esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio Eufrates; e o queneu, o quenizeu, o cadmoneu, o heteu, o perizeu, os refains, o amorreu, o cananeu, o girgaseu e o jebuseu" (Gn 15,7-12.17-21).
Para melhor compreensão, separou-se os versículos 13-16 que anunciam um fato já referido no comentário anterior: a identidade de acontecimentos repetidos com o Povo de Abrão no Egito:
"Então disse Iahweh a Abrão: Sabe com certeza que a tua descendência será peregrina em terra alheia, e será reduzi-da à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos; sabe também que eu julgarei a nação a qual ela tem de servir; e depois sairá com muitos bens. Tu, porém, irás em paz para teus pais; em boa velhice serás sepultado. Na quarta ge-ração, porém, voltarão para cá; porque a medida da iniquidade dos amorreus não está ainda cheia" (Gn 15,13-16).
Volta-se ao exame dos demais versículos do ato de repartir animais em duas partes e caminhar entre eles; por demais estranho e incompreensível. Por isso foi dito acima que a Bíblia foi escrita especificamente para pessoas que tinham familiaridade cultural com os acontecimentos e conheciam detalhadamente todos os fatos. Vamos procurar esclarecer a situação partindo da própria Bíblia, em outro local, mas se referindo ao mesmo cerimonial:
"Entregarei os homens que transgrediram a minha Aliança, e não cumpriram as palavras da Aliança que fizeram di-ante de mim com o bezerro que dividiram em duas partes, passando pelo meio das duas porções - os príncipes de Judá, os príncipes de Jerusalém, os eunucos, os sacerdotes, e todo o povo da terra, os mesmos que passaram pelo meio das porções do bezerro, entregá-los-ei, digo, na mão de seus inimigos, e na mão dos que procuram a sua morte. Os cadáveres deles servirão de pasto para as aves do céu e para os animais da terra" (Jr 34,18-20).
Verifica-se pelas palavras acima do Profeta Jeremias que se trata de um juramento a cujo sacrifício seriam entregues os que não o cumprissem. Daí o pavor de Abrão ouvindo uma referência futura ao povo a que dará origem pelo que teme. É que se evidenciou a pre-sença de Deus no fogo, a cruzar os animais oferecidos. Também, naquele cerimonial Deus realmente incluía a sua descendência (Gl 3,8), Jesus Cristo, que iria sofrer aquela punição pela original violação humana. Assim Abrão é já partícipe da Aliança cujo início já se con-cretiza com uso do fogo já representando a presença de Deus, e projetando-se no futuro em várias etapas da História da Salvação (Ex 3,2; 13,21; 19,18). Fica-lhe claro pelo juramento o desígnio de Deus em dar-lhe uma descendência numerosa como as estrelas do céu e a quem daria aquela terra por onde peregrinava.
Passam-se dez anos e fica positivado que Sarai era estéril e a quem naturalmente te-ria sido narrada esperançosamente a promessa. Em face da frustração advinda da impossibi-lidade de vir-lhe filhos encontram então uma maneira de resolver o problema com um artifí-cio como sói acontecer quando se pretende satisfazer os desígnios de Deus com uma solução humana:
"Ora, Sarai, mulher de Abrão, não lhe dava filhos. Tinha ela uma serva egípcia, que se chamava Agar. Disse Sarai a Abrão: Eis que Iahweh me tem impedido de ter filhos; toma, pois, a minha serva; talvez eu possa ter filhos por meio dela. E ouviu Abrão a voz de Sarai. Assim Sarai, mulher de Abrão, tomou a Agar a egípcia, sua serva, e a deu por mulher a Abrão seu marido, depois de Abrão ter habitado dez anos na terra de Canaã. E ele conheceu a Agar, e ela concebeu..." (Gn 16,1-4a).
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Pelos costumes de então os filhos assim gerados eram considerados filhos de Sarai, como se pede a Abrão para tomar, pois, a minha serva; talvez eu possa ter filhos por meio dela. Assim satisfar-se-ia a promessa de Deus feita há dez anos passados: "toda essa terra que vês, darei a ti e à tua descendência para sempre" (Gn 13,14-18). Após o engravidamento de Agar vários fatos ocorrem característicos da época mostrando que, apesar do concubinato de Abrão com ela, Sarai não perdera sua condição de dona de casa, chegando conforme exi-gira de Abrão a oprimir de tal forma sua escrava que ela fugiu. No deserto em desespero tem a visão do anjo que determina o seu retorno e submissão a Sarai, com a promessa de fazer de seu filho Ismael, como será chamado, um grande povo (Gn 16,4b-16).
1.12.- A ALIANÇA ESTABELECIDA
Para Abrão e Sarai a condição básica para a posteridade dele ficaria satisfeita com o nascimento de Ismael (Gn 16,15-16). Porém, Deus então se manifesta e dá à Aliança uma nova dinâmica até agora não vista:
"Quando Abrão tinha noventa e nove anos, apareceu-lhe Iahweh e lhe disse: Eu sou El-Shaddai (= Deus Onipoten-te); anda em minha presença, e sê perfeito; e firmarei a minha Aliança contigo, e sobremaneira te multiplicarei" (Gn 17,1).
Até então a Aliança era unilateral sem nada exigir da conduta e comportamento do Homem a não ser alguma forma de expressão ritual como aquela de não comer o sangue dos animais da Aliança do Dilúvio (Gn 9,4). Desta vez exige a contrapartida e promete recom-pensa: anda em minha presença, e sê perfeito; e firmarei a minha Aliança contigo, e sobre-maneira te multiplicarei, passando a ser um acordo entre duas vontades conscientes. Busca-se assim recuperar para o Homem a imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26), e deverá re-fletir como num espelho (2Cor 3,18) a transcendência divina que não se confunde com a corrupção advinda do mundo profano. Deverá andar na presença de Deus, ao contrário de Adão e Eva que tiveram de se esconder por causa da desordem que causaram, cumprindo consciente e fielmente o Seu Santo Desígnio não dando motivo para dele se esconder. Ora, isso exige fé e tomada de consciência maior que o instinto de sobrevivência num mundo hostil e desviado do seu Criador.
Apresenta-se então uma das manifestações majestosas e solenes (= teofania) de Iah-weh, que aqui recebe o nome de El-Shaddai (Ex 6,3 = O Onipotente), tanto que: "... Abrão se prostrou com o rosto em terra..." (Gn 17,3a). O tempo de treze anos decorrido desde o nascimento de Ismael faz supor algum motivo sério necessário à Aliança, apenas esboçada e no seu nascedouro. Tudo indica que a solução humana de Abrão e Sarai com a geração de Ismael exige um amadurecimento de ambos no conhecimento de Deus, eis que demonstra-ram com seu gesto não LHE compreender o desígnio:
"... e Deus falou-lhe, dizendo: Quanto a mim, eis que a minha aliança é contigo, e serás pai de muitas nações; não mais serás chamado Abrão, mas Abraão será o teu nome; pois por pai de muitas nações te hei posto; far-te-ei frutifi-car sobremaneira, e de ti farei nações, e reis sairão de ti; estabelecerei a minha aliança contigo e com a tua descen-dência depois de ti em suas gerações, como Aliança perpétua, para te ser por Deus a ti e à tua descendência depois de ti. Dar-te-ei a ti e a tua descendência depois de ti a terra de tuas peregrinações, toda a terra de Canaã, em perpétua possessão; e serei o seu Deus" (Gn 17,3b-8).
Quando Abrão "prostra com o rosto em terra" (Gn 17,3) demonstra eficazmente a sua adesão e fé incondicional em El Shaddai bem como a aceitação dos termos da Aliança. Deus agora se apresenta com a firme e incondicional exigência de obediência, culto e adoração exclusivos. Também, e pelo próprio Deus será imposto um sinal no prepúcio que toma o nome de circuncisão caracterizando a adesão incondicional. Também ocorre a mudança de Abrão para o novo nome Abraão, e será pai de muitas nações (= „Ab. Raham‟ – pai de uma multidão):
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"Disse mais Deus a Abraão: Ora, quanto a ti, guardarás a minha aliança, tu e a tua descendência depois de ti, nas su-as gerações. Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós, e a tua descendência depois de ti: todo varão dentre vós será circuncidado. Circuncidar-vos-eis na carne do prepúcio; e isto será por sinal de aliança entre mim e vós" (Gn 17,9-11).
Tão fundamental é essa instituição que o não cumprimento dela determina que "... o que não se circuncidar na carne do prepúcio será extirpado do seu povo; violou a minha ali-ança" (Gn 17,13b-14). Todos os homens estavam subordinados à exigência até mesmo es-cravos e estrangeiros (Gn 17,12-14). Deus muda o nome de Abrão para Abraão e, também, muda nome de Sarai (= "minha princesa") para Sara (= "princesa"). Quando Deus dá o nome a alguém, elege-o para uma missão, e assume-lhe o domínio tal como se lê no Profeta Isaías: - "... chamei-te pelo nome, meu tu és" (Is 43,1c):
"Disse Deus a Abraão: Quanto a Sarai, tua, mulher, não lhe chamarás mais Sarai, porém Sara será o seu nome. A-bençoá-la-ei, e também dela te darei um filho; sim, abençoá-la-ei, e ela será mãe de nações; reis de povos sairão de-la. Ao que se prostrou Abraão com o rosto em terra, e riu-se, e disse no seu coração: A um homem de cem anos há de nascer um filho? Dará à luz Sara que tem noventa anos?" (Gn 17,15-17).
A grande dificuldade de Abraão agora se concretizava, eis que, o tempo passava, urgia e nada acontecia, e na idade avançada por demais quando não mais se podia esperar uma gravidez normal de Sara Deus vem anunciá-la. Por isso Abraão ri! Não um riso de dú-vida, riu crendo possuído por grande alegria e achando graça pelo contraste com que os fatos se manifestavam. No máximo só poderia ocorrer aquela dificuldade que lhe teria imprimido a natureza confusa ao avaliar apenas as condições humanas já enfraquecidas pelas idades avançadas. É a renúncia de si, indício de maturidade religiosa no marco inicial da História da Salvação, história que foi e está sendo escrita, exclusivamente por Deus, seu único Autor. São desses momentos em que Deus coloca os seus eleitos face a face com a realidade de Seus Desígnios e da Missão a que foram eleitos, provando-os e amadurecendo-os para isso. Pelos costumes de então Ismael era filho de Sara, e sentindo-o rejeitado Abraão se preocupa, quer se esclarecer e pede por ele: "depois disse Abraão a Deus: Oxalá que viva Ismael diante de ti!" (Gn 17,18) oferece-o para a missão tangencialmente como se pedisse que se lembras-se dele que também era filho seu:
"E Deus lhe respondeu: Na verdade, Sara, tua mulher, te dará à luz um filho, e lhe chamarás Isaac; com ele estabele-cerei a minha aliança como aliança perpétua para a sua descendência depois dele. E quanto a Ismael, também te te-nho ouvido; eis que o tenho abençoado, e fá-lo-ei frutificar, e multiplicá-lo-ei grandemente; doze príncipes gerará, e dele farei uma grande nação. A minha aliança, porém, estabelecerei com Isaac, que Sara te dará à luz neste tempo determinado, no ano vindouro. Ao acabar de falar com Abraão, subiu Deus diante dele" (Gn 17,19-22).
Deus insiste em seu desígnio ouvindo o pedido dele pelo filho e reafirmando a conti-nuidade da Aliança com um filho de Sara, não com o da escrava. Pelo que Sara também rirá quando ouvir o mesmo anúncio de sua gravidez (Gn 18,9-15) e quando der à luz e o nome ao filho, significado no nome Isaac (Gn 21,6), que é derivado da raiz hebraica para a palavra riso. Assim explicado o riso ai mencionado verifica-se que não se duvidou de Deus um ins-tante sequer, tal como São Paulo esclarece evidentemente conforme a concepção tradicional israelita:
"... a fim de que a promessa seja firme a toda a descendência, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos nós. Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí perante aquele no qual creu, a saber, Deus, que vivifica os mortos, e chama as coisas que não são, como se já fossem. O qual, em esperança, creu contra a esperança, para que se tornasse pai de muitas nações, conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência; e sem se enfraquecer na fé, considerou o seu próprio corpo já amortecido, pois tinha quase cem anos, e o amortecimento do ventre de Sara; contudo, à vista da promessa de Deus, não vacilou por incredulida-de, antes foi fortalecido na fé, dando glória a Deus, e estando certíssimo de que o que Deus tinha prometido, também era poderoso para fazê-lo" (Rm 4,17-21).
Houvesse alguma dúvida, Abraão e Sara teriam recebido de Deus o mesmo tratamen-to dado a Zacarias, o Pai de João Batista que ficou mudo como castigo de sua descrença (Lc
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1,19-20). Por fim, Abraão imediatamente parte para o cumprimento da Aliança e circuncida todos os homens, a começar consigo mesmo e seu filho Ismael (Gn 17,23-27). Essa institui-ção será observada pelos seus descendentes de maneira tão severa e séria que causará a sepa-ração deles dos demais povos, chamados de incircuncisos. Arraigar-se-á de tal maneira na cultura Israelita e, com o advento do cristianismo, a sua abolição será a causa de conflito do judaísmo com a doutrina de Cristo, questão só solucionada pelo primeiro Concílio reunido em Jerusalém (At 15,1-29).
A Aliança com o Homem é sempre apelo de amor e comunhão de vidas que parte de Deus, pois que por si só o Homem se tornou totalmente impotente para fazê-lo nada poden-do conseguir por causa do abismo erguido entre ambos pelas consequências dramáticas oca-sionadas pelo pecado original. Daí porque, somente por ato livre de Deus é que se pode con-seguir cumprimento e eficácia dela donde ser obra exclusiva d‟Ele. Amadurecido na fé e por ela justificado, Abraão torna-se "Amigo de Deus" (2Cro 20,7; Jdt 8,22; Is 41,8; Dn 3,35; Tg 2,23), vivendo então em Sua intimidade e comunhão.
Assim, recebe a visita de três anjos e os reconhece (Gn 18,1-33) considerados pelos Santos Padres dos primórdios do cristianismo como figuras ou anúncios ou projeções da Santíssima Trindade. É que, quando a tradução não é melhorada pelo tradutor (que infeliz-mente imprime à tradução sua opinião, nem sempre certa), os três são denominados, ora em conjunto (Gn 18,1), ora dois (Gn 18,20-22), ora um deles (Gn 18,23-33) pelo singular "Meu Senhor, tratando-os, de qualquer dos modos em que se apresentem como a uma só pessoa". São dois os motivos para a visita: primeiro, ratificando os termos da Aliança contraída, o anúncio da gravidez de Sara para o ano próximo. É quando chega a vez de Sara rir, tal como já se referiu acima mais de surpresa e contentamento nunca de dúvida de fé apesar de o anjo insistir que "não há nada difícil para Deus" (Gn 18,14). O segundo motivo foi comunicar a destruição de Sodoma e Gomorra, pois o considera tão "amigo" que dele não pode esconder "o que estou para fazer" (Gn 18,17). Mas, tal comunicação tem outra finalidade, mais ligada à Aliança:
"E disse o Senhor: Ocultarei eu a Abraão o que faço, visto que Abraão certamente virá a ser uma grande e poderosa nação, e por meio dele serão benditas todas as nações da terra? Porque eu o tenho escolhido, a fim de que ele ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor, para praticarem retidão e justiça; a fim de que o Senhor faça vir sobre Abraão o que a respeito dele tem falado" (Gn 18,17-19).
É que a Aliança não se confinava a Abraão apenas, mas teria prosseguimento em todos os seus termos com os seus descendentes por meio dos quais "virá a ser uma grande e poderosa nação, e serão benditas todas as nações da terra", desde que "seus filhos e a sua casa depois dele guardem o caminho do Iahweh, para praticarem retidão e justiça; a fim de que Iahweh faça vir sobre Abraão o que a respeito dele tem falado". Por isso a Aliança é conhecida também por Testamento, por causa da continuidade do "legado" nas gerações subsequentes. Já se anuncia o prosseguimento e a consecução da Obra da Redenção do Ho-mem na descendência de Abraão: - Jesus Cristo (Gl 3,16 / Mt 1,1):
"Ora, a Escritura, prevendo que Deus havia de justificar pela fé os gentios, previamente anunciou a boa nova (= E-vangelho) a Abraão, dizendo: Em ti serão abençoadas todas as nações. De modo que os que são da fé são abençoa-dos com o crente Abraão" (Gl 3,8-9).
Dada a notícia ao Patriarca, afirmam os Anjos (Deus) que "descerei (sing.) para ver se as suas obras chegaram a ser como o clamor que chegou até mim, e, se não, o saberei", evidenciando pelo descerei o sobrenatural do quadro apresentado, tendo Abraão sido eleva-do até Ele. E é nesse estado sobrenatural que Abraão vai demonstrar a sua "elevação" espiri-tual (Gn 18,22-33), quando afirma que "quanto mais Amigo de Deus, mais amigo dos ho-mens". É o efeito natural da caridade, "o Amor de Deus” que é "derramado no coração do Homem pelo Espírito Santo" (Rm 5,5) e o estado da "elevação" de Abraão, "justificado pela sua fé". Vai regateando com Deus, paulatinamente se esforçando para salvar a tudo e a todos da punição iminente e justa. Intercede habilidosamente e com toda a humildade possível
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representada pelo modo de se expressar próprio do tempo, cuidadosa e lentamente vai de-crescendo o número de pessoas boas que, possivelmente, possam existir nas duas cidades até um mínimo de dez bem razoáveis, ficando claro que, se existisse uma pequena quantidade de justos nas localidades Deus as pouparia por causa deles.
Prefigura esse quadro a Redenção que será operada por Jesus Cristo com a Nova Aliança (Lc 22,20) unindo definitivamente o Homem a Deus na Sua Igreja, a comunidade de seus discípulos refletindo a Graça e a Misericórdia de Deus no mundo que "perdoa a todo o lugar em atenção a eles" (Gn 18,26.28.30.31.32), "justificados" pelo Sangue do Cordeiro de Deus. Essa comunhão de afetos entre Deus e Abraão, entre Deus e um Homem, é o arquéti-po da Caridade Cristã tornada virtude humana na ação, mas de fonte impulsionadora divina. Tal como lá, a caridade é a presença de Deus entre os homens, em amizade e íntima comu-nhão de vidas, não mais entre Criador e Criatura, mas entre Pai e Filho, que se difunde por mediação e eleição dos justos a todos os outros, bons e maus. Repete-se sempre a presença do justo, do que vive nos "caminhos de Iahweh praticando a justiça e o direito" (Gn 18,19). Caridade é isso, é viver o desígnio de Deus para o Homem; começa em Deus e explode radi-ante de amor divino nos homens. O Homem não a cria, é fruto do amor e misericórdia de Deus propagando-se entre os homens assim como a fé e a esperança. A caridade vem de Deus e não se confunde com nenhuma ação humana, não se exaure na esmola nem em ne-nhuma assistência social e supera qualquer atividade por mais humanitária ou filantrópica que seja. A caridade é a expressão da Aliança de Deus com o Homem e é inseparável da justiça:
"Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio, de modo que o justo seja como o ímpio; esteja isto longe de ti. Não fará justiça o juiz de toda a terra?" (Gn 18,25)
A confiante e diplomática intervenção de Abraão dá ao contexto a viva e colorida visão da intimidade vivencial de ambos. Deus é o único autor do amor entre os homens, "justos e injustos, bons e maus" (Mt 5,45). Na prática, quando Abraão se referia aos justos, conseguia a salvação "do justo e do ímpio". Não pediu que afastassem da cidade os justos nem pediu ao menos por seu sobrinho Ló. Pedindo que nada destruísse por causa dos justos intercedeu pelos bons e maus na tentativa de salvá-los da destruição iminente. Sem Deus não há amor fraterno, não há fraternidade, falta um ponto comum de referência, eis que não há fraternidade sem um Pai comum.
1.13. - A ALIANÇA E SODOMA E GOMORRA
Jesus nos revela que Sodoma e Gomorra, tal como o Dilúvio, é outra expressão das consequências do pecado na Criação e um anúncio do quadro revolucionário a ser causado no mundo criado quando da revelação do Filho do Homem ao erradicar definitivamente o pecado:
"Como aconteceu nos dias de Noé, assim também será nos dias do Filho do homem. Comiam, bebiam, casavam e dava-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e os destruiu a todos. Como também da mesma forma aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; mas no dia em que Ló saiu de Sodoma choveu do céu fogo e enxofre, e os destruiu a todos; assim será no dia em que o Filho do homem se há de manifestar" (Lc 17,26-30).
O Evangelista coloca num mesmo plano o cataclismo de Dilúvio e o da destruição das cidades de Sodoma e Gomorra e os evidencia como transformações imprevisíveis tal como acontecerá nos dias da manifestação gloriosa do Filho do Homem. É precisamente para isso que Jesus quis alertar. Torna-se necessária a explicação para essa narrativa tão i-dêntica às do Dilúvio e também da Torre de Babel principalmente no colóquio franco e aber-to de Deus. Deve-se aplicar novamente a mesma regra de se locomover abstratamente ao tempo da cultura do narrador. Que houve a destruição das cidades, houve; não há o que se discutir. Porém, o importante é o que significou para o narrador bíblico e o que corresponde
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ao evidenciado pelos fatos. Considerou ele como castigo pelo pecado que era praticado nas cidades e que recebeu a alcunha de sodomia, palavra formada a partir do nome de Sodoma para significar o homossexualismo então reinante (Gn 19,5), a ponto de Ló reclamar a vir-gindade das filhas e ter coragem de oferecê-las (Gn 19,8). Por isso foi rechaçado e atacado violentamente sentindo-se ofendidos pela sua intervenção e sua conduta moral, um justo que não se contaminara com o mesmo pecado (Gn 19,9). Aparece aqui outra das consequências do pecado original nessa manifestação da desordem carnal e a da imoralidade generalizada na concupiscência advinda e generalizada da inversão do natural e normal.
Chama a atenção o "descerei" (Gn 18,21) tal como no relato da Torre de Babel (Gn 11,6.7) mostrando a mesma concepção cultural de um deus em figura de homem (visão "an-tropomórfica" de Deus), habitando no alto, para onde também sobe (Gn 17,22). Não pode ser diferente aqui a intenção do narrador, querendo também evidenciar a continuidade e a coexistência das consequências do pecado apesar da Aliança recentemente contraída. Vincu-la ambos os fenômenos à memória dos descendentes de Abraão para não se esquecerem e perturbarem mais ainda pela sua conduta o cumprimento dos Desígnios de Deus com a Ali-ança, que quer reconduzir o Homem à comunhão, intimidade e familiaridade perdidas:
"E disse Iahweh: Ocultarei eu a Abraão o que vou fazer, visto que Abraão certamente virá a ser um grande e podero-so povo, e por meio dele serão abençoadas todas as nações da terra? Porque eu o escolhi, para que ele ordene a seus filhos e a sua casa depois dele que guardem o caminho de Iahweh praticando a retidão e a justiça; para que Iahweh cumpra em Abraão o que lhe foi predito" (Gn 18,17-19).
Como Ló fora morar nas cidades pecadoras seria também com elas vítima da catás-trofe. Mas, era ele também um justo e o narrador mostra como Deus vem em socorro de seus fiéis e os protege e só destrói as cidades após libertá-lo:
"Porque se Deus não poupou (...) reduzindo a cinza as cidades de Sodoma e Gomorra, condenou-as à destruição, ha-vendo-as posto para exemplo aos que vivessem impiamente; e se livrou ao justo Ló, atribulado pela vida dissoluta daqueles perversos, porque este justo, habitando entre eles, por ver e ouvir afligia todos os dias a sua alma justa com as injustas obras deles; também sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar para o dia do juízo os injus-tos, que já estão sendo castigados; especialmente aqueles que, seguindo a carne, andam em imundas concupiscên-cias, e desprezam toda autoridade" (2Pe 2,4.6-10).
Pedro retoma a afirmação do narrador que já exprimia nesse quadro, também e a seu modo, a Obra da Redenção principalmente quando insiste com o justo Ló para salvá-lo e a sua família (Gn 19,12-29), em atenção a Abraão:
"Ora, aconteceu que, destruindo Elohim as cidades da planície, lembrou-se de Abraão, e tirou Ló do meio da destru-ição, enquanto aniquilava as cidades em que Ló habitara" (Gn 19,29). / “Apressa-te, escapa-te para lá; porque nada poderei fazer enquanto não tiveres ali chegado...” (Gn 19,22).
Da destruição total somente restou Ló e duas filhas numa caverna [morta a mulher que foi inexplicavelmente petrificada em estátua de sal (Gn 19,16.26.30)], onde praticam um incesto (Gn 19,36-37), embriagando o pai, supondo a inexistência da outros homens. Não deixa de ser outra cena isenta de críticas mesmo aos olhos daquela cultura, apesar de ter sido necessário embriagar o pai para a consumação do ato. Concorre para o fato a pressão cultu-ral, impulsionadora e atuante por demais naqueles tempos, da necessidade de descendência para o pai (Gn 19,32), num mundo destruído e onde inexistiam outros homens. Não se pode deixar de ver aí, ao lado da influência da concepção social e moral do tempo, atuando com todas as forças o instinto de conservação da espécie a falar mais alto que tudo; nem se pode estabelecer um julgamento com o aculturamento atual, pois tal necessidade de prole, atual-mente, não tem o mesmo vigor.
Digno de nota é o episódio da morte da mulher de Ló que se transforma em pedra de sal ao olhar para trás: Atribui-se quase unanimemente à narrativa a existência de algum local da região onde se vê um monte com a forma que pode se identificar a uma pessoa, e com o qual se buscou acomodar o contexto. Esse acidente geográfico é conhecido entre os árabes como “monte da mulher de Ló”. Por outro lado, também há quem diga que, possivelmente,
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tendo ela falecido nessa região onde o sal tudo contamina, tendo ficado exposta impregnou-se e enrijeceu-se numa estátua de sal:
“Havendo-os levado fora, disse um deles: Livra-te, salva a tua vida; não olhes para trás, nem pares em toda a cam-pina; foge para o monte, para que não pereças. Respondeu-lhes Ló: Assim não, Senhor meu! Eis que o teu servo a-chou mercê diante de ti, e engrandeceste a tua misericórdia que me mostraste, salvando-me a vida; não posso escapar no monte, pois receio que o mal me apanhe, e eu morra. Eis aí uma cidade perto para a qual eu posso fugir, e é pe-quena. Permite que eu fuja para lá (porventura, não é pequena?), e nela viverá a minha alma. Disse-lhe: Quanto a is-so, estou de acordo, para não subverter a cidade de que acabas de falar. Apressa-te, refugia-te nela; pois nada posso fazer, enquanto não tiveres chegado lá. Por isso, se chamou Zoar o nome da cidade. Saía o sol sobre a terra, quando Ló entrou em Zoar. Então, fez Iahweh chover enxofre e fogo, da parte de Iahweh, sobre Sodoma e Gomorra. E sub-verteu aquelas cidades, e toda a campina, e todos os moradores das cidades, e o que nascia na terra. E a mulher de Ló olhou para trás e converteu-se numa estátua de sal” (Gn 19,17.26).
Porém, Lucas no Evangelho (cfr Lc 9,62) e Paulo na Epístola aos Filipenses (cfr Flp 3,13) mostram o uso da mesma expressão e esbarra-se com a probabilidade de que haja en-tendimento diverso, por causa de situações que muito se aproximam. A primeira, “quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus”, insinua apego aos entes familiares; e, a segunda, “somente faço uma coisa: esquecendo-me do que fica para trás e avançando para as coisa que me estão diante... ”, traz uma confissão de São Paulo de que deixou tudo para trás a fim de seguir Jesus Cristo, traduzindo o mesmo desapego. É de se concluir daí que a mulher de Ló, com os olhos na vida que levavam e nos bens que possuíam anteriormente, passou a amargurar a vida dela e de todos, reclamando sempre e “olhando fixamente para trás torna-se uma pedra de sal”, isto é, fica deprimida, descontente, desequi-librada, rancorosa ou pesarosa demais pela perda sofrida, pois “quem procurar salvar sua vida perdê-la-á”, estando sempre a reclamar:
“(„Jesus‟) Disse...: „segue-me‟... disse-lhe...: „Eu te seguirei, Senhor, mas permite-me primeiro despedir-me dos que estão em minha casa.‟ Jesus, porém, lhe respondeu: „Quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus‟” (Lc 9,61-62); “Lembrai-vos da mulher de Ló. Todo o que procurar salvar sua vida perdê-la-á; e to-do o que a perder, salva-la-á” (Lc 17,32) / “Não que eu tenha já alcançado o prêmio ou seja já perfeito, mas prossigo para ver se o poderei apreender, porque eu também fui apreendido por Jesus Cristo. Irmãos, eu não julgo ter já alcan-çado a meta. Mas, somente faço uma coisa: esquecendo-me do que fica para trás e avançando para as coisa que me estão diante...” (Fl 3,13).
Da mesma forma que, após o Dilúvio aconteceu com Canaã (Gn 9,18-29), aparece outra justificativa para a inimizade reinante entre os israelitas e dois outros povos parentes e vizinhos, os moabitas e os amonitas (Nm 22,1 / 26,3.63), tratados como "bastardos" (Dt 23,4), e nascidos de um “abominável incesto" (Dt 27,20.23; Lv 18,6-18), qual seja:
“Ao tempo que destruía as cidades da campina, lembrou-se Deus de Abraão e tirou a Ló do meio das ruínas, quando subverteu as cidades em que Ló habitara. Subiu Ló de Zoar e habitou no monte, ele e suas duas filhas, porque recea-vam permanecer em Zoar; e habitou numa caverna, e com ele as duas filhas. Então, a primogênita disse à mais moça: Nosso pai está velho, e não há homem na terra que venha unir-se conosco, segundo o costume de toda terra. Vem, façamo-lo beber vinho, deitemo-nos com ele e conservemos a descendência de nosso pai. Naquela noite, pois, deram a beber vinho a seu pai, e, entrando a primogênita, se deitou com ele, sem que ele o notasse, nem quando ela se dei-tou, nem quando se levantou. No dia seguinte, disse a primogênita à mais nova: Deitei-me, ontem, à noite, com o meu pai. Demos-lhe a beber vinho também esta noite; entra e deita-te com ele, para que preservemos a descendência de nosso pai. De novo, pois, deram, aquela noite, a beber vinho a seu pai, e, entrando a mais nova, se deitou com ele, sem que ele o notasse, nem quando ela se deitou, nem quando se levantou. E assim as duas filhas de Ló conceberam do próprio pai. A primogênita deu à luz um filho e lhe chamou Moab: é o pai dos moabitas, até ao dia de hoje. A mais nova também deu à luz um filho e lhe chamou Ben-Ami: é o pai dos filhos de Amon („Amonitas‟), até ao dia de hoje” (Gn 19,29-38).
1.14. - A ALIANÇA, ABRAÃO E ISAAC
Após essas situações dramáticas nasce Isaac (Gn 21,1-5), o Filho da Promessa, cau-sando grande alegria e regozijo. A esterilidade era considerada maldição e motivo de grande vergonha (Gn 30,23 / 1Sm 1,5-8 / 2Sm 6,23 / Os 9,11 / Lc 1,25) e a fecundidade uma bên-ção de Deus. Por isso Sara se regozija e manifesta tudo isso com o riso, como se nota das expressões "Deus me propiciou motivo de riso e todo o que o ouvir rir-se-á comigo" e "lhe
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dei um filho na sua velhice", motivo mais que suficiente para se vangloriar. Daí vem etimo-logicamente o nome de Isaac, que na sua raiz tem a conotação indefinida "rir":
"Pelo que disse Sara: Deus me propiciou motivo de riso e todo aquele que o ouvir, rir-se-á comigo. E acrescentou: Quem diria a Abraão que Sara havia de amamentar filhos? no entanto lhe dei um filho na sua velhice" (Gn 21,6-7).
No dia em que se comemorava o seu desmame Sara viu Ismael gracejar de Isaac (Gn 21,9), provavelmente em torno de seu nome, alguma piada de mau gosto, rindo dele, dirigida por um já rapazola ao recém-desmamado, criança ainda. A antiga tensão familiar (Gn 16,4d-6) não desanuviara e agora se manifestava tanto no gracejo de Ismael, que deveria conhecer o que acontecera e as consequências para ele sendo já pressentidas. Assim, como pressentira, ocorre a reação de Sara que violentamente aproveita a oportunidade e exige uma atitude de-finitiva de Abraão (Gn 21,10). Ele, em obediência a Deus, que valoriza a primeira esposa, ao impulso da visão e promessa com referência ao futuro do filho se tornando também um grande povo expulsa-o com Agar (Gn 21,11-14). Tais acontecimentos vão ser identificados de várias maneiras aos cristãos vindos do paganismo, quando São Paulo os interpreta con-forme a diferença entre Ismael, o filho advindo da vontade e plano do Homem e Isaac, o Filho da Promessa, advindo dos Desígnios de Deus:
"Porque está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava, e outro da livre. Todavia o que era da escrava nas-ceu segundo a carne, mas, o que era da livre, por promessa. O que se entende por alegoria: pois essas mulheres são duas alianças; uma do monte Sinai, que dá à luz filhos para a servidão, e que é Agar. Ora, esta Agar é o monte Sinai na Arábia e corresponde à Jerusalém atual, pois é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém que é de cima é livre; a qual é nossa mãe. Pois está escrito: Alegra-te, estéril, que não dás à luz; esforça-te e clama, tu que não estás de par-to; porque mais são os filhos da desolada do que os da que tem marido. Ora vós, irmãos, sois filhos da promessa, como Isaac. Mas, como naquele tempo o que nasceu segundo a carne perseguia ao que nasceu segundo o Espírito, assim é também agora. Que diz, porém, a Escritura? Lança fora a escrava e seu filho, porque de modo algum o filho da escrava herdará com o filho da livre. Pelo que, irmãos, não somos filhos da escrava, mas da livre" (Gl 4,22-31). / "... Em Isaac será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus; mas os fi-lhos da promessa são contados como descendência..." (Rm 9,6-9).
Esses acontecimentos redundam para Abraão em atroz sofrimento debatendo-se entre as desordens do mundo corrompido e coexistindo com o mundo da Aliança ainda no nasce-douro. É de se observar a existência de narrativas muito estranhas atualmente quanto aos costumes de então. Não faz mal repetir que, quando se lê a Bíblia, deve-se evitar a precipita-ção de um julgamento com base nos usos atuais, mas manter a naturalidade e prestar atenção nesses procedimentos antigos por demais incrustados na vida social e aparentando muitas vezes a forma de leis, dada a obrigação que é imposta pelas próprias circunstâncias. No re-gime patriarcal, de acordo com o falso conceito que dele se faz, uma mulher não poderia exigir com a energia de Sara (Gn 21,10) que o marido expulsasse o próprio filho com a mãe. Tudo indica que o conceito seja precipitado e, ao contrário, existiam naquele tempo normas sociais que assim autorizavam. Pode até mesmo parecer uma espécie de alforria para a liber-tação da servidão de Agar, mas apesar de tudo, isso não deixa de perturbar até mesmo o pró-prio Abraão que consegue a intervenção de Deus com a promessa de protegê-los, já que "vai tornar o filho um grande povo por ser da posteridade dele" (Gn 21,12-13).
Outra dificuldade aparece quanto ao acontecimento com Abimeleque em Gerar, e já se analisou fato idêntico quando da estadia do casal no Egito, e a aliança com ele em Bersa-béia, para a solução de pendência por causa de poços de água (Gn 21,22-34), mostrando a continuidade da luta pela sobrevivência a que se sujeitou até mesmo um eleito. Cumpre ao leitor da Bíblia sempre separar os costumes de então, não se deixando influenciar no julga-mento por questões assim acessórias, que não alteram em nada os Desígnios de Deus no desenrolar da História da Salvação, em que o escolhido vive e se debate sem a rota dos mandamentos ainda inexistentes. O essencial é a importância da fé vivida por Abraão e de-monstrada eficazmente por todos os seus atos:
"Abraão plantou uma tamargueira em Bersabéia, e invocou ali o nome de Iahweh, o Deus eterno. E peregrinou A-braão na terra dos filisteus muito tempo" (Gn 21,33-34).
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A presença de hostilidades do mundo contra o que sempre lutou Abraão vai muito contribuir para a sua maturação e crescimento na fé, solidificando-o para a missão que ape-nas se esboçava. Numa luta desigual, Abraão ainda se vê em sérias dificuldades quanto aos costumes religiosos do tempo. São os momentos em que Deus coloca os seus eleitos face a face com a realidade de Seus Desígnios e da Missão que lhe cabe, provando-os e maturando-os para ela. Esses momentos chegam a ser dramáticos. Deus lhe pede a oferta do próprio filho Isaac em sacrifício, o legítimo herdeiro da Aliança, em quem se concretizaria toda a esperança e solidez da fé de Abraão:
"Sucedeu, depois destas coisas, que Deus provou Abraão, dizendo-lhe: Abraão! E este respondeu: Eis-me aqui. Prosseguiu Deus: Toma agora teu filho, o teu único filho, Isaac, a quem amas; vai à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre um dos montes que te hei de mostrar" (Gn 22,1-2).
A contradição é mais que evidente pois ainda soavam aos ouvidos de Abraão aquelas palavras de Deus, quando Lhe apresentara Ismael:
“... e lhe chamarás Isaac; com ele estabelecerei a minha aliança como aliança perpétua para a sua descendência de-pois dele. (...) A minha aliança, porém, estabelecerei com Isaac, que Sara te dará à luz neste tempo determinado, no ano vindouro" (Gn 17,18-21).
Porém, apesar disso, Abraão não vacila, crê! A prontidão da obediência de Abraão, levantando-se cedo para cumprir a ordem de Deus e a sequência súbita da narrativa, o de-monstra. A fé o leva à obediência, servindo-lhe de alicerce. Conduz Isaac imediatamente ao monte determinado a sacrificá-lo, como oferenda a Deus. E, sacrificar Isaac, que nascera por obra de Deus em virtude da esterilidade natural de Sara, que nascera consagrado deveria soar-lhe como um absurdo. E a situação o coloca face a face com duas posições: de um lado Deus, e do outro lado o filho. Abraão escolheu Deus:
"Levantou-se Abraão de manhã cedo, selou o seu jumento, e tomou consigo dois de seus servos e Isaac, seu filho; e, cortou lenha para o holocausto, e partiu para o lugar que Deus lhe dissera" (Gn 22,3).
Na opção por Deus é que se encontra a verdadeira libertação do Homem de tudo que pode escravizá-lo, a começar pelo medo de que deve ter sido assaltado, dada a confusão de emoções que pode ter sentido pela grande contradição que ocorria. Já estava conformado com a esterilidade de Sara e com Ismael sendo o seu único filho, quando o próprio Deus lhe acenara com a felicidade de ter Isaac de sua mulher verdadeira, Sara. Não pedira mais um filho após aceitar o filho de Agar, escrava de Sara. E, agora, após recebê-lo quando a nature-za lho negava vem Deus e exige dele o seu holocausto e o quer levar. Alguma coisa não es-tava nos eixos. Era um ser humano, e sua reação seria humana com todo o colorido sobrena-tural do acontecimento. E essa reação bem que poderia ser de medo que é a emoção natural que se tem quando se depara com situações contrárias, contraditórias ou conflitantes, e até mesmo incompreensíveis. Na mente do Patriarca ainda ressoava a voz de Deus dizendo-lhe ser "de Isaac que nascerá a posteridade que terá o seu nome" (Gn 21,12); voz que lhe exige agora a vítima Isaac, em oferenda sacrificial. É uma grande dificuldade que somente uma robusta fé consegue suportar e vencer. Claro fica que somente ele não entendia o aconteci-mento, Deus sabe o que faz e a fé de Abraão completa tudo, apesar da enorme contradição. Para se cumprir o que Deus afirmara quanto à Aliança, no sacrifício de Isaac, a morte seria vencida pela vida. Deus nele venceria a morte e a vida teria prosseguimento, completamente restaurada. Isaac renasceria ali mesmo, não morreria. Abraão teve assim em figura uma an-tevisão da Ressurreição e nela acreditou, conforme o próprio Cristo dirá:
"Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia; viu-o, e alegrou-se" (Jo 8,56).
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Abraão não vacila e prossegue morro acima, consagrando a cada passo o próprio filho. Percebeu assim que já participava da Obra da Redenção do Homem, e rejubilou-se com a sua proximidade:
"Pela fé, Abraão, sendo provado, ofereceu Isaac; ofereceu o seu unigênito aquele que recebera as promessas, e a quem se havia dito: 'Em Isaac será assegurada a tua descendência', julgando que Deus era poderoso para até dos mortos o ressuscitar; e daí também em figura o recobrou" (Hb 11,17-19).
Isaac carregava o lenho para a fogueira, e Abraão o fogo sagrado. Morro acima, am-bos caminhavam ensimesmando, Abraão mudo de dor, Isaac mudo de espanto:
“Meu pai!”.
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Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?
...
“Deus proverá o cordeiro para o holocausto, meu filho...” (Gn 22,7-8).
Falou a fé. Abraão ainda esperava em Deus e prossegue morro acima, consagrando a cada passo o próprio filho. Sentiu então participar da Obra da Redenção do Homem e rejubi-lou-se com a proximidade da concretização da promessa de que "por ti serão abençoadas todas as nações da terra" (Gn 12,3). Quando ultimava os preparativos para imolar o próprio filho Isaac, cuja submissão à vontade do próprio pai que o oferece em sacrifício o identifica a Cristo com a Cruz - na opinião dos Santos Padres - um anjo o impede:
"Mas o anjo do Senhor lhe bradou desde o céu, e disse: Abraão, Abraão! Ele respondeu: Eis-me aqui. Então disse o anjo: Não estendas a mão sobre o menino, e não lhe faças nenhum mal; porquanto agora sei que temes a Deus, visto que não me negaste teu filho, o teu único filho. Nisso levantou Abraão os olhos e olhou, e eis atrás de si um carneiro embaraçado pelos chifres no mato; e foi Abraão, tomou o carneiro e o ofereceu em holocausto em lugar de seu fi-lho..." (Gn 22,11-14).
Aqui se corporifica, ratificada por Deus a substituição eficaz do ser humano por um animal, no caso o cordeiro em lugar de Isaac; e em todo sacrifício oferecido o ofertante é "substituído pela vítima imolada, recebendo ela a penitência dele, pelo que tomou o nome de resgate. Assim, as palavras de Abraão a Isaac de que "Deus providenciará o cordeiro para o sacrifício, meu filho" são proféticas e vão se concretizar no mesmo morro, segundo antiga tradição (2Cro 3,1) no Sacrifício de Jesus Cristo na Cruz. Maria como o "Novo Abraão", a Mãe dos Crentes, a Mãe da Igreja, galgando o Calvário ao lado do Filho, tal como Abraão ao lado de Isaac, carregando o "lenho" da Cruz, "cumpre" a Profecia de Abraão entregando ao Pai "o cordeiro que o próprio Deus providenciara para o sacrifício". Assim como o cor-deiro substituiu Isaac na oferenda de Abraão, Cristo substitui o Homem no Sacrifício pelo Pecado, na Cruz.
A prova a que Deus o submete não se destina a um exame do eleito para Deus co-nhecê-lo, eis que o Deus Onisciente conhece tudo e todos (1Sm 16,7). Destina-se ao amadu-recimento e à tomada de consciência que cada um tenha de si mesmo e das dimensões da sua missão, dela saindo então robustecido, e assim Deus reforça e ratifica a Aliança. Termina aqui a prova de Abraão e, não só de Abraão, mas também do próprio Isaac que, mudo, dela participou, demonstrando ambos, para a "descendência" deles, aptidão e maturidade para o prosseguimento da Aliança. E, como sempre, Abraão remata com o sacrifício do carneiro, de cujo holocausto, a eficácia se comprova nas palavras do Anjo:
"Então o anjo de Iahweh bradou a Abraão pela segunda vez desde o céu, e disse: juro por mim mesmo, diz Iahweh, porquanto fizeste isto, e não me negaste teu filho, o teu único filho, que te cumularei de bênçãos, e multiplicarei ex-traordinariamente a tua descendência, como as estrelas do céu e como a areia que está na praia do mar; e a tua des-cendência possuirá a porta dos seus inimigos; e em tua descendência serão benditas todas as nações da terra; por-quanto me obedeceste" (Gn 22,15-18).
Abraão, pela sua Fé, está no fundamento da Aliança: é o seu alicerce humano e vai orientar sempre o caminho dela, sempre lembrado e sempre exaltado (Sb 10,5; Eclo 44,19-
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22; 1Mb 2,52; Tg 2,20-24; Rm 4,1; Hb 11,8-19), até mesmo nos dias, atuais na Igreja de Cristo:
"Para reunir a humanidade dispersa, Deus escolheu Abrão, chamando-o para "fora do seu país, da sua parentela e da sua casa" (Gn12,1), para o fazer Abraão, quer dizer, "pai duma multidão de nações" (Gn 17,5): "Em ti serão abenço-adas todas as nações da Terra" (Gn 12,3 LXX)" (Catecismo Da Igreja Católica n.º 59; v. também n.°s. 144-147; 422; 1079-1080; 1819; 2570-2572 etc.). / "Desde o princípio, Deus abençoa os seres vivos, especialmente o homem e a mulher. A aliança com Noé e todos os seres animados renova esta bênção de fecundidade, apesar do pecado do ho-mem, que leva à maldição da terra. Mas, a partir de Abraão, a bênção divina penetra na história dos homens, que caminhava em direção à morte, para a fazer regressar à vida, à sua fonte: pela fé do "pai dos crentes" que recebe a bênção, é inaugurada a história da salvação" (idem n.° 1080)
Essa fé valer-lhe-á o reconhecimento de "Pai dos Crentes":
"E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé, que teve quando ainda não era circuncidado, para que fosse pai de todos os crentes, estando eles na incircuncisão, a fim de que a justiça lhes seja imputada, bem como fosse pai dos circuncisos, dos que não somente são da circuncisão, mas também andam nas pisadas daquela fé que teve nosso pai Abraão, antes de ser circuncidado" (Rm 4,11-12) / "Sabei, pois, que os crentes é que são filhos de Abraão" (Gl 3,7).
1.15. - A ALIANÇA E ISAAC, O FILHO DA PROMESSA
Outro costume antigo que não se identifica com o aculturamento atual é sempre se referir à genealogia das pessoas de que toda a Escritura está cheia, desde Adão (Gn 5,1-32), Noé (Gn 10,1-32) e até mesmo da própria Criação (Gn 2,4).O interesse principal é o de se conhecer a origem, problema fundamental para os Israelitas, seja em virtude da vinculação à Aliança, seja pela possibilidade de mistura com uma variedade enorme de pagãos submeten-do-se aos mais abomináveis costumes (Gn 6,1-3). Mais ainda pela vinculação do clã a um ou mais deuses gentílicos em cujos rituais oferecia-se em holocausto até os próprios filhos (Jr 32,35; 1Rs 16,34 2Rs 3,27; 23,10). Além disso, era necessário um conhecimento mais deta-lhado de cada pessoa para se evitar as vezes o desvio, a diminuição ou a perda definitiva de entes queridos pelo casamento e do patrimônio econômico da tribo pela consequente evasão hereditária dos bens tribais, principalmente propriedades.
É tão fundamental essa condição que até mesmo no Novo Testamento, São Mateus escrevendo aos judeus começa o seu Evangelho com uma genealogia para apresentar Jesus como "Filho de Davi, Filho de Abraão" (Mt 1,1-16) e Lucas, apesar de destinar o seu Evan-gelho aos gentios, faz o mesmo e retrocede até Adão, pela universalidade da salvação (Lc 3,23-38).
Claro está que, com o compromisso que assumira com os termos da Aliança, Abraão, já velho e após a morte e sepultamento de Sara (Gn 23), se preocupa com quem seria a futu-ra esposa de Isaac. Solucionou a dificuldade com uma de sua parentela (Gn 24,3-4) apresen-tando o narrador a genealogia de Rebeca, a futura esposa de Isaac, sobrinha de Abrão, filha de seu irmão Nakor (Gn 22,20-24), vinculando-a assim à linhagem de Set (Gn, 4,25) a pro-gênie da História da Salvação. Garantia-se assim fidelidade tribal a Iahweh e à Aliança, já em processo. É bom observar que a única porção de terra que Abraão possuiu como sua, adquirindo-a e pagando por ela foi o terreno onde sepultou sua mulher Sara (Gn 23). O rela-to da compra mostra o ritual então em uso, que se pode até mesmo denominar de escritura pública da compra, como diz o narrador "foi assegurado a Abraão por aquisição na presença dos heteus, e de todos os que se achavam presentes na porta da cidade" (Gn 23,18). A "porta da cidade" representava naqueles tempos o que hoje representam os cartórios de registro de aquisição de propriedades, ou seja, a publicidade necessária para tornar de conhecimento público em geral, para não mais se revogar, e reconhecendo-se então a tradição da proprie-dade.
A principal preocupação de Abraão era a Aliança como manifesta ao exigir sob ju-ramento ("com a mão sob a coxa" [no membro viril] Gn 24,2) para a escolha da noiva que não fosse das "filhas dos cananeus no meio dos quais habito, mas irás à minha terra natal e aos meus parentes e tomará dali mulher para meu filho Isaac"; bem como, "não tirasse seu
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filho da terra onde morava que era a propriedade que Deus prometera a sua descendência" (Gn 24,3-9). A narrativa da conquista da noiva para Isaac deve ser lida também dentro das perspectivas do aculturamento de então num mundo ainda rude, selvagem e bárbaro, em que a sobrevivência se devia a detalhes atualmente sem valor algum, mas naqueles tempos eram uma imposição insuperável.
A pretensão do narrador não se limita ao casamento de Isaac, mas destaca também a fé de Abraão que prevê a ajuda de Iahweh:
“Iahweh, Deus do céu, que me tirou da casa de meu pai e da terra da minha parentela, e que me falou, e que me ju-rou, (...) ele enviará o seu anjo diante de si, para que tomes de lá mulher para meu filho" (Gn 24,7).
Não é só isso. Destaca também que Iahweh o atende e faz com que a noiva seja en-contrada na forma imaginada e pedida pelo servo, encontrada junto ao poço onde ela sacia sua sede, a dos animais e a da comitiva (Gn 24,12-14). Sobrinha de Abraão, cuja família acata o pedido e lhe entrega a filha para o casamento (Gn 24,10-61). Partilhando a mesma fé, (Gn 24,51) acataram como vontade de Iahweh, satisfazendo assim à segurança necessária ao prosseguimento da Aliança. Quando o servo volta é recebido pelo próprio Isaac que "saí-ra para prantear ('ou meditar' - são válidas as duas traduções) no campo", a quem "narra tudo o que tinha acontecido com ele. Imediatamente Isaac introduziu Rebeca na tenda, e recebeu-a por esposa e a amou" (Gn 24,66-67).
Ora, o pranto (ou a reflexão) de Isaac leva à conclusão que Abraão morrera antes da chegada do servo que presta contas a Isaac. Mas, também não é só isso. Narra dessa maneira que Isaac assumiu a Aliança a quem "Abraão deu tudo o que possuía" (Gn 24,36 e 25,5). A morte de Abraão é narrada em seguida e em separado (Gn 25,7-8). É o modo como a Bíblia traz suas narrativas terminando uma, e mesmo que algo venha a modificar a sequência e cronologia vai narrá-lo após e em separado.
Outros filhos de Abraão são apresentados destacando-se Madiã, em cuja tribo Moisés futuramente irá se abrigar fugindo do faraó do Egito (Ex 2,15). Enumeram-se vários nomes de povos descendentes dele demonstrando o quanto foi abençoado por Deus, destacando-se "doze chefes de outros povos" (Gn 25,16) na descendência de Ismael tal como lhe prometera (Gn 17,20) e à Agar (Gn 16,10ss e 21,18), e a de Isaac, bem menor, só com dois filhos (Gn 25,24ss). Vai se repetir com Isaac o mesmo drama por que passou seu Pai, também em ou-tros acontecimentos semelhantes, maneira de se demonstrar escriturísticamente a identidade de vidas, de amadurecimento na fé e de missão (Gn 26,1-33). Frisa assim a esterilidade de Rebeca e a intercessão de Isaac por ela (Gn 25,21) pelo que gera dois filhos, cuja hostilidade mútua já se manifesta desde o útero:
"Ora, Isaac orou insistentemente ao Senhor por sua mulher, porquanto ela era estéril; e o Senhor ouviu as suas ora-ções, e Rebeca, sua mulher, concebeu. E os filhos lutavam no ventre dela; então ela disse: Por que estou eu assim? E foi consultar ao Senhor. Respondeu-lhe o Senhor: Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas estranhas, e um povo será mais forte do que o outro povo, e o mais velho servirá ao mais moço. Cumpridos que fo-ram os dias para ela dar à luz, eis que havia gêmeos no seu ventre. Saiu o primeiro, ruivo, todo ele como um vestido de pelo; e chamaram-lhe Esaú. Depois saiu o seu irmão, agarrada sua mão ao calcanhar de Esaú; pelo que foi cha-mado Jacó. E Isaac tinha sessenta anos quando Rebeca os deu à luz" (Gn 25,21-26).
São Paulo verá nesse acontecimento a figura da conversão dos pagãos, tornando-se também filhos da promessa pela fé e não por qualquer obra que a merecesse:
"Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus; mas os filhos da promessa são contados como descendên-cia. Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho. E não somente isso, mas tam-bém a Rebeca, que havia concebido de um, de Isaac, nosso pai, pois não tendo os gêmeos ainda nascido, nem tendo praticado bem ou mal, para que o propósito de Deus segundo a eleição permanecesse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama, foi-lhe dito: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e aborreci a Esaú. (...) Que diremos, pois? Que os gentios, que não buscavam a justiça, alcançaram a justiça, mas a justiça que vem da fé" (Rm 9,8-13.30).
É de se observar a esterilidade sempre presente nas mulheres dos Patriarcas contras-tando com a fecundidade ou bênção embutida no Protoevangelho (Gn 3,15) e na Promessa a
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Abraão de que "sua descendência seria como as estrelas do céu e como a areia do mar" (Gn 22,17; 15,5). Já se antevê que a História da Salvação é Obra exclusiva de Deus que se mani-festa nesses pequenos detalhes da Sua Intervenção em atendimento ao pedido do eleito, pois é com Isaac que a Aliança se confirma:
"E apareceu-lhe Iahweh e disse: Não desças ao Egito; habita na terra que eu te disser; peregrina nesta terra, e serei contigo e te abençoarei; porque a ti, e aos que descenderem de ti, darei todas estas terras, e confirmarei o juramento que fiz a Abraão teu pai; e multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu, e lhe darei todas estas terras; e por meio dela serão benditas todas as nações da terra; porquanto Abraão obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis" (Gn 26,2-5). / "E apareceu-lhe Iahweh na mesma noite e disse: Eu sou o Deus de Abraão, teu pai; não temas, porque eu sou contigo, e te abençoarei e multiplicarei a tua descendência por amor do meu servo Abraão" (Gn 26,24).
E prosseguindo a mesma missão, observa-se o mesmo culto tendo por centro gravita-cional o sacrifício como meio de comunhão e santificação com Iahweh:
"Isaac, pois, edificou ali um altar e invocou o nome de Iahweh; então armou ali a sua tenda..." (Gn 26,25).
1.16. - A ALIANÇA PROSSEGUE COM JACÓ, O PRIMOGÊNITO
Entre as instituições religiosas ou costumes que a Bíblia menciona, cujo sentido se perdeu, destaca-se o da primogenitura que manifesta sua influência e observância desde as suas primeiras páginas. É o caso de Abel que "ofereceu um sacrifício a Deus dos primogêni-tos (ou primícias como algumas Bíblias) de seu rebanho e dos mais gordos" (Gn 4,4) en-quanto Caim ofereceu "dos produtos da terra" (Gn 4,3). Se a única diferença entre as ofertas for essa das denominações, “dos primogênitos” e "dos produtos da terra", não se pode con-cluir que Caim tivesse oferecido maus produtos. Porém, o que aí se evidencia é alguma in-fluência cultural e religiosa que nos foge, pois Deus "olhou para Abel e sua oferta e não o-lhou para Caim e sua oferta" (Gn 4,4-5). Também na relação genealógica dos primeiros des-cendentes de Adão (Gn 5) e após a Torre de Babel (Gn 11,10-32) o nome do primogênito é o único mencionado prosseguindo-se com a descendência dele, formando outra tribo. Mesmo em outras genealogias, ele sempre ocupa o primeiro lugar (Gn 9,18; 10,1-32 / Ex 6,20 / Nm 26,59).
A suspeita de que algo de imperioso existe vai se esclarecer a partir de uma observa-ção do narrador, criticando o descaso de Esaú pela primogenitura (Gn 25,34c: “Tanto des-prezou Esaú a primogenitura”) e da luta que trava com seu irmão gêmeo Jacó por causa dela (Gn 27,1-28,5). Além disso, Esaú toma por esposas duas pagãs da região (Gn 26,34), cau-sando grande desgosto a Jacó e Rebeca e justificando assim a perda para Jacó do direito de primogenitura. Aconteceu que, em certa ocasião, Esaú, tendo fome, trocou com Jacó o seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas, no que é veementemente criticado pelo narrador (Gn 25,34). Claro que Rebeca tomando disso conhecimento, e também pelo des-gosto por causa do casamento de Esaú com mulheres hetéias, passa a se dedicar mais ainda a Jacó, o seu já predileto (Gn 25,28). Assim, à promessa do pai em dar a Esaú a denominada "bênção da primogenitura" reage disfarçando Jacó de maneiras a ludibriar Isaac, que já esta-va velho e sem visão (Gn 27,1-17). Jacó consegue assim receber a ambicionada e irreversí-vel "bênção" (Gn 27,27-29) em lugar do irmão, que na verdade a havia desprezado e trocado com ele pelo prato de lentilhas.
A importância desse fato se prende às reações dramáticas que lhe sucedem pelas quais se podem dimensionar o alcance cultural do instituto (Gn 27,30-45). Quando chega Esaú da caça onde buscara o "guisado a gosto do pai" (Gn 27,4) e é descoberta a troca, "Isa-ac estremeceu tomado de enorme terror", declarando ainda que, apesar de assim concedida, "permanecerá abençoado" (Gn 27,33). Por sua vez "Esaú, ao ouvir as palavras de seu pai, gritou altíssimo com grande e extremamente amargurado brado, e disse a seu pai: Abençoa-me também a mim, meu pai! (...)... E chorando prorrompeu em altos gritos" e planeja matar
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o irmão (Gn 27,34.38.41). Tem-se mais conhecimento da importância da instituição pela resposta de Isaac:
"Respondeu Isaac a Esaú: Eis que o tenho posto por senhor sobre ti, e todos os seus irmãos lhe tenho dado por ser-vos; e de trigo e de mosto o provi. Que, pois, poderei eu fazer por ti, meu filho?" (Gn 27,37).
Já se percebe que um dos privilégios outorgados com a bênção é a chefia do clã ou da tribo, fato esse confirmado por outros trechos das Escrituras (1Cro 26,10), pelo que rece-bia "dupla porção da herança" (Dt 21,17) pela responsabilidade por todos os seus familiares e demais integrantes, falecido o pai. O assunto voltará a ser abordado no decorrer dos de-mais livros, eis que outros elementos que entram na composição desse direito somente pode-rão ser examinados futuramente em confronto com outras instituições. Por enquanto é de se reter apenas o exposto.
Coerente com a bênção correspondente à primogenitura que lhe deu, Isaac confia-lhe o desenrolar da Aliança, não sem antes admoestá-lo quando às mulheres pagãs ou cananéias. De certa maneira até se pode suspeitar que todo o fato narrado tenha sido arquitetado pelo casal para destronar Esaú, que se comprometeu com as mulheres estranhas aos costumes Israelitas. Este fato fica bem destacado principalmente levando-se em conta a advertência feita em conjunto, quando recebem a mesma “bênção de Abraão”:
"Isaac, pois, chamou Jacó, e o abençoou, e ordenou-lhe, dizendo: Não tomes mulher dentre as filhas de Canaã. Le-vanta-te, vai a Mesopotâmia, à casa de Betuel, pai de tua mãe, e toma de lá uma mulher dentre as filhas de Labão, irmão de tua mãe. Deus Todo-Poderoso te abençoe, te faça frutificar e te multiplique, para que venhas a ser uma multidão de povos; e te dê a bênção de Abraão, a ti e à tua descendência contigo, para que herdes a terra de tuas pe-regrinações, que Deus deu a Abraão. Assim despediu Isaac a Jacó, o qual foi a Mesopotâmia, para a casa de Labão, filho de Betuel, o arameu, irmão de Rebeca, mãe de Jacó e de Esaú" (Gn 28,1-5).
Assim equipado, quando ia para a Mesopotâmia em busca de esposa e em fuga de Esaú, Jacó, como seus antepassados Abraão e Isaac, tem a visão em que lhe são ratificadas: a promessa e a Aliança:
“... por cima da escada estava o Senhor, que disse: Eu sou Iahweh, o Deus de Abraão teu pai, e o Deus de Isaac; esta terra em que estás deitado, eu a darei a ti e à tua descendência; e a tua descendência será como o pó da terra; dilatar-te-ás para o ocidente, para o oriente, para o norte e para o sul; por meio de ti e da tua descendência serão benditas todas as famílias da terra. Eis que estou contigo, e te guardarei onde quer que fores, e te farei tornar a esta terra; pois não te deixarei até que haja cumprido aquilo de que te tenho falado" (Gn 28,13-15).
Tal como com Abraão (Gn 18), com Isaac (Gn 26,2.24), ocorreu uma manifestação sensível de Deus, a teofania, neste episódio da escada em que Iahweh dele se aproxima e profere a mesma bênção para a posteridade de Abraão e a mesma promessa da herança da mesma terra das suas peregrinações (Gn 12,7; 13,14-17; 22,17-18; 26,4.24). Além disso se repete a mesma resposta do Patriarca erigindo lugar de culto acompanhado do sacrifício. É de se observar que, aqui com Jacó, trata-se da libação e da unção da pedra erigida em cipo, muito usado naqueles tempos como testemunho ou prova de algum fato seja ele profano ou sagrado e religioso (Gn 31,45; Js 4,9.20; 24,26-27), e até mesmo para as coisas de Iahweh Deus:
"Pois os filhos de Israel ficarão por muitos dias sem rei, sem príncipe, sem sacrifício, sem cipos, e sem éfode ou te-rafins" (Os 3,4) / “Israel é vide frondosa que dá o seu fruto; conforme a abundância do seu fruto, assim multiplicou os altares; conforme a prosperidade da terra, assim fizeram belos cipos" (Os 10,1) / “Tirarei as feitiçarias da tua mão, e não terás adivinhadores; arrancarei do meio de ti as tuas imagens esculpidas e os teus cipos; e não adorarás mais a obra das tuas mãos" (Mq 5,12).
Pode-se até mesmo admitir a preferência de Jacó por este tipo de oferenda em virtude do seu caráter mais pacífico (“... homem tranquilo, habitante de tenda" Gn 25,27c). A teofa-nia atinge o clímax com a presença de uma escada, tal como aquela da Torre de Babel, aqui servindo de comprovação do elo e meio de comunicação dos anjos do céu para o seu minis-tério no mundo. Assim interpretaram os Santos Padres e também que, apesar da separação
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ou distância entre o céu e a terra, pode atingi-lo sempre aquele que ama a Deus. Por Jacó viria o prosseguimento da História da Salvação, que culminaria em Jesus Cristo, motivo por que se caracterizam a promessa e a aliança com Abraão, com Isaac e com Jacó (também em Gn 35,11-13 e 46,3-4), como Messiânicas. Por isso, tal como seus antepassados faz do sacri-fício o centro do seu culto, e ainda rudimentar meio de comunhão e santificação, prometen-do erguer no local o Santuário de Elohim para o qual destinará a décima parte (o dízimo ainda não era uma instituição levítica, por isso é melhor dizer a décima parte, evitando-se confusão), do que recebesse de Elohim:
"E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Elohim; e esta é a porta dos céus. Jacó levantou-se de manhã cedo, tomou a pedra que pusera debaixo da cabeça, e a pôs como cipo; e derramou-lhe azeite em cima. E chamou aquele lugar Betel (= „casa de Deus‟); porém o nome da cidade antes era Luz. Fez também Jacó um voto, dizendo: Se Deus for comigo e me guardar neste caminho que vou seguindo, e me der pão para comer e vestes para vestir, de modo que eu volte em paz à casa de meu pai, e se Iahweh for o meu Deus, então esta pedra que tenho posto como cipo será casa de Elohim; e de tudo quanto me deres certamente te darei o dízimo" (Gn 28,17-22).
Jacó recebe de Deus tudo aquilo que seja correspondente ao conteúdo da Aliança de Abraão, já se antevendo a confirmação da Bênção recebida de Isaac, contrariando assim uma opinião por demais generalizada de que o ato de Jacó e Rebeca fossem condenáveis. Mas, é preciso que se veja na cultura dos antigos uma formação moral ainda rude e até mesmo ru-dimentar e selvagem. Mas, ainda que assim não fora, não se pode esquecer que Esaú não deu à Primogenitura, nem mesmo à Aliança, os valores que mereciam: à Primogenitura por tê-la desprezado (Gn 25,32) e trocado por um prato de lentilhas com Jacó e à Aliança por contrair casamento com mulheres hetéias, pagãs, como já se mencionou. E as Escrituras não conde-nam Jacó tal como o autor sacro condena Esaú, ao contrário o louvam e respeitam:
"Foi ela (“a sabedoria") quem conduziu por veredas retas o justo ('Jacó') que fugia da cólera de seu irmão; mostrou-lhe o reino de Deus e lhe deu a conhecer os santos; proporcionou-lhe êxito nos rudes labores e fez frutificar seus trabalhos. Esteve a seu lado contra a cobiça dos que o oprimiam e o enriqueceu. Protegeu-o contra os inimigos e o defendeu daqueles que lhe armavam ciladas. Atuou como árbitro a seu favor em rude combate, para ensinar-lhe que a piedade é mais poderosa do que tudo" (Sb 10,10-12) / "A bênção de todos os homens e a aliança, ele as fez repou-sar sobre a cabeça de Jacó. Confirmou-o nas bênçãos que eram dele, e concedeu-lhe o país em herança. E ele divi-diu-o em lotes"...(Eclo 44,23).
Até Jesus o aponta e situa junto dos Patriarcas na bem-aventurança da Vida Eterna:
"Digo-vos, pois: Muitos virão do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa com Abraão, Isaac e Jacó no reino dos céus" (Mt 8,11).
Por outro lado, também Jesus Cristo usa a mesma imagem da sua visão, porém a si mesmo se referindo como a escada, situando-se como a união entre Deus e os Homens:
"E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem" (Jo 1,51).
1.17. - A ALIANÇA E AS DOZE TRIBOS DE ISRAEL (JACÓ)
Jacó necessita da mesma forma que Abraão e Isaac, de amadurecimento e conscienti-zação para o exercício, prosseguimento e consecução da Aliança. Deus não faz exceções nem mesmo aos seus eleitos e, apesar de terem missão a cumprir, vivendo no mundo, têm de sentir e sofrer todas as deformações que o pecado lhes imprimiu. Assim, Jacó parte, fugindo para a casa de Labão, o irmão de sua mãe Rebeca, e também à procura de uma mulher que fosse de sua parentela, tal como lhe aconselharam os pais, tendo em vista o malogro que Esaú vai tentar corrigir tardiamente (Gn 26,34-35 e 28,6-9).
Seu encontro com Raquel, sua prima e pastora de ovelhas, ao trazê-las para beber água se dá de imediato no poço (Gn 29,1-14), repetindo, pela presença de Deus dirigindo os acontecimentos, o mesmo que ocorrera quando da busca de uma mulher para Isaac. É con-
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duzido para a casa do tio e lá fixa sua residência e passa a trabalhar; melhor se diria que pas-sa a ser explorado. Apaixona-se por Raquel e aceita trabalhar sete anos para então desposá-la. Mas, o sogro ardilosamente o desposa com Lia com o pretexto de que não poderia casar a mais nova e permanecer com a mais velha solteira. Descoberto o embuste após o cerimonial concluído, introduzida a esposa em sua tenda à surdina, Jacó reclama, mas acaba aceitando trabalhar mais sete anos para receber Raquel daí a uma semana (Gn 29,14c-30).
Aparece então outra vez a esterilidade das mulheres dos Patriarcas e vinculadas à História da Salvação, que só se tornavam férteis por uma ação especial de Deus, por ser o Único Autor da Salvação:
"Viu, pois, o Senhor que Lia era desprezada tornou-a fecunda; Raquel, porém, era estéril" (Gn 29,31) / " Lembrou-se Deus de Raquel, ouviu-a e a tornou fecunda" (Gn 30,22).
Dessa união lhe advieram doze filhos e uma filha (Gn 29,32-30,24 / 35,16-18), que deram origem às doze tribos dos Filhos de Israel, o nome que Deus dará a Jacó (Gn 32,29; 35,9), donde vai se formar o Povo de Israel. Não há necessidade de se delongar no relato dos nascimentos de todos eles, ficando para o leitor o dever de ler aquilo que não for aqui expos-to. Basta relatar os nomes dos filhos de Jacó com os das mulheres e das concubinas que os geraram (Gn 35,23-26):
De Lia vieram: Rubem, Simão, Levi, Judá, Issacar, Zabulon e Dina (mulher); e,
pela serva dela Zelfa: Gad e Aser.
De Raquel vieram: José e Benjamim (Gn 35,16-18); e,
pela serva dela Bala: Dan e Neftali.
Vários elementos culturais já conhecidos se repetem: tanto a substituição da mulher estéril por sua serva para lhe dar filhos como o fato da mulher mesma escolher um nome com um significado seu para o filho, manifestando-se assim o prosseguimento da sua luta contra a serpente iniciada por Eva (Gn 3,15 / 4,25 - cfr. Capítulo 1, n.º 1.6.2, sob o título O Protoevangelho). Jacó tinha em mira principalmente a Aliança, por ela se guia e por causa dela reclama, e pede para retornar à sua terra, ou seja, à Terra Prometida a Abraão, a Isaac e a ele próprio. Fato normal e até mesmo corriqueiro naquele tempo do filho buscar a casa do pai torna-se para ele por demais penoso e de difícil solução amistosa. Decide-se então e foge "iludindo a vigilância de Labão", aproveitando-se da ocupação dele na tosquia, que desco-brindo a fuga vai a seu encalço e o alcança (Gn 31,1-23). Somente nessa ocasião é que o pacífico Jacó esboça uma reação:
"Então se irou Jacó e contendeu com Labão, dizendo: Qual é a minha transgressão? Qual é o meu pecado, que tão furiosamente me tens perseguido? Depois de teres apalpados todos os meus móveis, que achaste em todos os móveis que seja da tua casa? Põe-no aqui diante de meus irmãos e de teus irmãos, para que eles julguem entre nós ambos. Estes vinte anos estive eu contigo; as tuas ovelhas e as tuas cabras nunca abortaram, e não comi os carneiros do teu rebanho. Não te trouxe eu o despedaçado; eu sofri o dano; da minha mão requerias tanto o furtado de dia como o furtado de noite. Assim andava eu; de dia me consumia o calor, e de noite a geada; e o sono me fugia dos olhos. Es-tive vinte anos em tua casa; catorze anos te servi por tuas duas filhas, e seis anos por teu rebanho; dez vezes mudas-te o meu salário. Se o Deus de meu pai, o Deus de Abraão e o Temor de Isaac não fora por mim, certamente hoje me mandarias embora vazio. Mas Deus tem visto a minha aflição e o trabalho das minhas mãos, e repreendeu-te ontem à noite" (Gn 31,36-42).
Revendo com mais detalhes o acontecimento é de se destacar a firmeza da fé de Jacó que se traduz em profunda e humilde paciência que a tudo sofre resignadamente sem esboçar reação alguma. Confia só em Deus que lhe prometera, quando iniciou sua peregrinação (Gn 47,9), que "estou contigo e proteger-te-ei onde quer que vás, e te reconduzirei a esta terra" (Gn 28,15). Então, dirigindo-se ao tio, pediu-lhe para partir e o seu pagamento (Gn 30,25-28), notando-se que até aquele momento não trabalhara ainda para si mesmo, e reconhecen-
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do Labão que seus bens aumentaram graças à bênção de Deus a Jacó (Gn 30,29-30). Não se chegava a uma composição justa e Jacó então propõe voltar ao trabalho do sogro e receber em pagamento os animais do rebanho que viessem a nascer, "malhados e mosqueados", da-quela data em diante (Gn 30,31-34). Tudo assim combinado, Labão imediatamente separa do rebanho todos os animais "malhados e mosqueados" entrega-os aos filhos, para afastá-los três dias de distância para impossibilitar Jacó de conseguir seu pagamento (Gn 30,35-36). É Deus que vem em socorro de seu eleito, em virtude da Aliança que continua com ele (Gn 28,12-15):
"Disse o Senhor, então, a Jacó: Volta para a terra de teus pais e para a tua parentela; e eu serei contigo. Pelo que Jacó mandou chamar Raquel e Lia ao campo, onde estava o seu rebanho, e lhes disse: vejo que o rosto de vosso pai para comigo não é como anteriormente; porém o Deus de meu pai tem estado comigo. Ora, vós mesmas sabeis que com todas as minhas forças tenho servido a vosso pai. Mas vosso pai me tem enganado, e dez vezes mudou o meu salá-rio; Deus, porém, não permitiu que me fizesse mal. Quando ele dizia assim: Os salpicados serão o teu salário; então todo o rebanho dava salpicados. E quando ele dizia assim: Os listrados serão o teu salário, então todo o rebanho da-va listrados. De modo que Deus tem tirado o gado de vosso pai, e mo tem dado a mim. Pois sucedeu que, ao tempo em que o rebanho concebia, levantei os olhos e num sonho vi que os bodes que cobriam o rebanho eram listrados, salpicados e malhados. Disse-me o anjo de Deus no sonho: Jacó! Eu respondi: Eis-me aqui. Prosseguiu o anjo: Le-vanta os teus olhos e vê que todos os bodes que cobrem o rebanho são listrados, salpicados e malhados; porque te-nho visto tudo o que Labão te vem fazendo. Eu sou o Deus de Betel, onde ungiste um cipo, onde me fizeste um vo-to; levanta-te, pois, sai desta terra e volta para a terra da tua parentela" (Gn 31,3-13).
Percebendo o embuste, Jacó reagiu com habilidade para tentar conseguir recuperar o que lhe pertencia (Gn 30,37-43), mas não conseguiu se libertar e o seu sogro continua espo-liando-o (Gn 31,6-16.36-42). Foi ainda difamado pelos cunhados que se juntam ao pai para mais ainda o maltratar (Gn 31,1-2). Necessário se tornou que o próprio Deus lhe manifestas-se como transcrito, o que o fez trocar idéias com suas mulheres (Gn 31,3-13) que lhe de-monstraram que, ao contrário do costume, Labão em vez de dar-lhe o dote legal ficara com todo o direito delas, incentivando-o à separação (Gn 31,4-18). Assim encorajado, foge com os seus familiares e bens.
Quando o alcança, Labão a princípio o agride e após a reação dele se contorce todo, fingindo amor estremado pelas filhas e netos, e onde não inclui Jacó (Gn 31,26-28). Após alguma altercação fazem as pazes e Jacó oferece então um Sacrifício do qual participam toda a família e vai tranquilo para Isaac (Gn 31,18-54). Não deixa de ser um incômodo a recla-mação de Labão pelos seus deuses (Gn 31,30-35), mas não se deve esquecer que se acredi-tava em vários, bem como, assim se denominavam poderes intermediários as vezes imaginá-rios e fruto de superstições, espécie de talismãs, que se infiltravam na fé, ainda em forma-ção, pelo que não se deve assustar nem se preocupar.
Deus não tratou a verdadeira ciência religiosa de maneira diferente das outras ciên-cias e, do mesmo modo que, da alquimia o homem caminhou para a Química, do curandei-rismo para a Medicina moderna, assim também caminhou da feitiçaria, da magia e das su-perstições que se mesclavam no campo doutrinário para a Plena Revelação por Jesus Cristo.
Finalmente, Jacó volta à terra do Pai e então procura Esaú para fazer as pazes, ato de humildade (Gn 33,1-17), muito conforme a sua formação pacífica e peculiar a um homem que vive em comunhão com Deus. Quando estava a caminho teve medo e foi assaltado por grande angústia, o que lhe significou uma luta misteriosa com o próprio Deus pelo conflito íntimo ensejado com Sua Vontade, ocasião em que o anjo lhe muda o nome para Israel (Gn 32,23-32) pelo qual será para sempre conhecido, bem como, o povo formado pelos seus des-cendentes. Deste fato não há testemunhas tendo sido narrado pelo próprio Jacó. Mas, tudo vai sendo confirmado até mesmo nos contrastes, que não param, e sua luta prossegue incan-sável:
Dina sua filha é ultrajada e apesar de se acertar com a família do ofensor o casamento com ela, conseguiu até mesmo que se deixassem circuncidar, con-vertendo-se ao Deus da Aliança.
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Porém, seus filhos Simão e Levi, irmãos uterinos dela, atacam e matam todos os va-rões em vingança, deixando Jacó em situação difícil perante os habitantes da região e com grave perigo para a sobrevivência geral (Gn 33,18-34,31). Nem assim há o mais leve sinal de perda de equilíbrio em Jacó. Recebe logo após, do próprio Deus, a ratificação de tudo o que lhe foi prometido quando iniciou sua fuga (Gn 28,11-15) e quando lhe foi mudado o nome para Israel (Gn 32,24-29):
"Apareceu Deus outra vez a Jacó, quando ele voltou de Mesopotâmia, e o abençoou. E disse-lhe Deus: O teu nome é Jacó; não te chamarás mais Jacó, mas Israel será o teu nome. E chamou-lhe Israel. Disse-lhe mais: Eu sou Deus To-do-Poderoso; frutifica e multiplica-te; uma nação, sim, uma multidão de nações sairá de ti, e reis procederão dos teus lombos; a terra que dei a Abraão e a Isaac, a ti a darei; também à tua descendência depois de ti a darei. E Deus subiu dele, do lugar onde lhe falara. Então Jacó erigiu um cipo no lugar onde Deus lhe falara, um cipo de pedra; e sobre ele derramou uma libação e deitou-lhe também azeite; e Jacó chamou Betel ao lugar onde Deus lhe falara" (Gn 35,9-15).
O sacrifício novamente como o centro do culto dos Patriarcas vai ser oferecido em cumprimento ao prometido por Jacó (Gn 28,10-22), agora Israel, em Betel, no mesmo local junto ao carvalhal onde Abraão já havia erigido um altar e oferecido sacrifício (Gn 12,6-8; 22,14), dando um sentido de prosseguimento à Aliança. Porém, em obediência a uma ordem específica de Deus, quanto ao cumprimento do compromisso de Jacó de erigir ali um santuá-rio, era preciso uma purificação geral de tudo o que fosse profano, uma conversão plena tal como havia prometido (Gn 28,21 - “... Iahweh será o meu Deus..."), pelo que determina:
"Depois disse Elohim a Jacó: Levanta-te, sobe a Betel e habita ali; e ergue ali um altar ao Elohim que te apareceu quando fugia da face de Esaú, teu irmão. Então disse Jacó à sua família, e a todos os que com ele estavam: Lançai fora os deuses estranhos que há no meio de vós, e purificai-vos e mudai as vossas vestes. Levantemo-nos, e subamos a Betel; ali farei um altar ao Deus que me respondeu no dia da minha angústia, e que foi comigo no caminho por on-de andei. Entregaram, pois, a Jacó todos os deuses estranhos, que tinham nas mãos, e as arrecadas que pendiam das suas orelhas; e Jacó os enterrou debaixo do carvalho que está junto a Siquém. (...) Assim chegou Jacó à Luz (...). E-dificou ali um altar, e chamou ao lugar de "O Deus de Betel"; porque ali Iahweh se lhe tinha manifestado quando fu-gia da face de seu irmão" (Gn 35,1-7).
Com esse gesto, Jacó manifesta publicamente e para sempre a sua adesão, a de sua família e a dos seus descendentes, exclusiva e incondicional a Elohim (nessa fase da Bíblia, esse era um dos nomes do Deus de Israel, o que será visto oportunamente); do mesmo modo, será objeto de outra ratificação igual, séculos depois, no mesmo local quando da Conquista da Terra Prometida, por Josué:
"... temei a Iahweh, e servi-o com sinceridade e com verdade; deitai fora os deuses a que serviram vossos pais dalém do Rio, e no Egito, e servi a Iahweh. Mas, se vos parece mal o servirdes a Iahweh, escolhei hoje a quem haveis de servir; se aos deuses a quem serviram vossos pais, que estavam além do Rio, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais. Porém eu e a minha casa serviremos a Iahweh. Então respondeu o povo, e disse: Longe esteja de nós o abandonarmos a Iahweh para servirmos a outros deuses: porque Iahweh é o nosso Deus..." (Js 24,13-17).
Também foi nesse mesmo local que Jesus Cristo se encontrou com a Samaritana, cumprindo (Mt 5,17) semelhante propósito:
"... achava-se ali o poço de Jacó. Jesus, pois, cansado da viagem, sentou-se assim junto do poço; era cerca da hora sexta. Veio uma mulher de Samaria tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber. Pois seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida. Disse-lhe então a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? (Porque os judeus não se comunicam com os samaritanos.) Respondeu-lhe Jesus: Se tivesse conhecido o dom de Deus e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe terias pedido e ele te haveria dado água vi-va. Disse-lhe a mulher: Senhor, tu não tens com que tirá-la, e o poço é fundo; donde, pois, tens essa água viva? És tu, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do qual também ele mesmo bebeu, e os filhos, e o seu gado?" (Jo 4,6-12).
Jesus repete a mesma atividade de Jacó, confirmada por Josué, de reconduzir o Ho-mem para Deus pela Aliança, dando-lhe então "pleno cumprimento" (Mt 5,17), na mesma porção de terra onde Jacó se purificou com todos os seus, onde também Josué repetiu a ope-ração com o já Povo de Israel e no mesmo lugar que Jacó doou ao seu filho predileto, José. Era um lugar sagrado desde Abraão e Isaac:
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"Os ossos de José, que os filhos de Israel trouxeram do Egito, foram enterrados em Siquém, naquela parte do campo que Jacó comprara aos filhos de Hamor, pai de Siquém, por cem peças de prata, e que se tornara herança dos filhos de José" (Js 24,32).
Tanto é assim que a própria Samaritana Lhe diz:
"És tu, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do qual também ele mesmo bebeu, e os fi-lhos, e o seu gado?" (Jo 4,12) / "Disse-lhe a mulher: Senhor, vejo que és um profeta. Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar" (Jo 4,19-20).
Ao que Jesus lhe responde, tal como Jacó e Josué, definindo toda e qualquer adora-ção daí em diante, e revelando a verdadeira natureza do Deus de Israel, bem como pela pri-meira vez em todo o Evangelho confessa-se o Cristo:
"Disse-lhe Jesus: Mulher crê-me, a hora vem, em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. (...) Mas vem a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai pro-cura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e é necessário que os que o adoram o adorem em espírito e em ver-dade. Replicou-lhe a mulher: Eu sei que vem o Messias (que se chama o Cristo); quando ele vier há de nos anunciar todas as coisas. Disse-lhe Jesus: Eu o sou, eu que falo contigo" (Jo 4,21-26)
Claro fica, pela própria Revelação de Jesus à Samaritana, que a reta final da forma-ção do Povo de Israel começara com aquele ato de Jacó, em Betel. Esse local é o repositório das mais antigas e sólidas tradições dos Patriarcas a começar com Abrão erigindo ali um altar, tornando-o um lugar sagrado (Gn 12,6+; 13,3) e mais tarde Jacó erguendo ali outro (Gn 35,1-15) em cumprimento de sua promessa (Gn 28,10-22). Além disso, foi escolhido pelo próprio Moisés para nele Josué, atravessado o Jordão, ratificar a Aliança (Js 8,30-35) com o Povo de Israel então formado (Dt 27,1-10). Jesus retoma todo o acontecimento ante-rior e, vinculando todo o passado israelita com a Sua Presença no mesmo monte onde "se atiraram fora os deuses estranhos", revela o estabelecimento dos "novos adoradores de Deus em espírito e em verdade", isto é, não mais na carne e no exterior, mas no coração e a partir do interior do Homem, fruto da Graça.
O quadro a seguir mostra melhor que palavras:
JACÓ (Gn 35,1-7)
JOSUÉ (Js 24,1.14-16.26-26)
JESUS (Jo 4,19-26)
"Depois disse Deus a Jacó: Levanta-te, sobe a Betel e habita ali; e ergue ali um altar ao Deus que te apareceu quando fugias da face de Esaú, teu irmão.
“Josué reuniu em Siquém todas as tribos de Israel (...)”.
"Disse-lhe a mulher: Senhor, vejo que és um profeta. Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar" (Jo 4,19-20).
Então disse Jacó à sua família, e a todos os que com ele estavam:
“E Josué disse a todo o povo: (...) Agora, pois, temei ao Senhor, e servi-o com sinceri-dade e com verdade”;
“Disse-lhe Jesus”:
Lançai fora os deuses estranhos que há no meio de vós, e purificai-vos e mudai as vossas vestes.
deitai fora os deuses a que serviram vossos pais dalém do Rio, e no Egito, e servi ao Senhor.
Mulher crê-me, a hora vem, em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai.
Levantemo-nos, e subamos a Betel; ali farei um altar ao Deus que me res-pondeu no dia da minha angústia, e que foi comigo no caminho por onde andei.
Mas, se vos parece mal o servirdes ao Se-nhor, escolhei hoje a quem haveis de servir; se aos deuses a quem serviram vossos pais, (...). Porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor.
(...) Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; (...) Deus é Espíri-to, e é necessário que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.
"Entregaram, pois, a Jacó todos os deuses estranhos (...)e Jacó os enterrou debaixo do carvalho que está junto a Siquém. Então partiram; (...).todo o povo que estava com ele. Edificou ali um altar (...) e chamou ao lugar Deus - Betel; porque ali Deus se lhe tinha manifestado..."
Então respondeu o povo, e disse: Longe esteja de nós o abandonarmos ao Senhor para servirmos a outros deuses: porque o Senhor é o nosso Deus (...)
Disse o povo a Josué: Serviremos ao Senhor nosso Deus, e obedeceremos à sua voz.
Replicou-lhe a mulher: Eu sei que vem o Messias (que se chama o Cristo); quando ele vier há de nos anunciar todas as coisas.
Disse-lhe Jesus:
Eu o sou,
eu que falo contigo" (Jo 4,21-26).
Voltando ao assunto em exame, surgem então para Jacó dois fatos novos e bem dolo-rosos. Em primeiro lugar a morte de Raquel ao dar à luz Benjamim [a quem, antes de expi-rar, ela deu o nome de "Ben-noni” (= filho de minha dor) e que Jacó mudou para "Ben-yamin" (= filho de minha direita) (Gn 35,16-21)]; e, em segundo, a traição de seu filho pri-
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mogênito Ruben pernoitando com sua concubina Bala (Gn 35,22), ato naquele tempo consi-derado como condenável incesto.
Finalmente volta Jacó para a residência oficial dos Patriarcas, em Mamré, que se denomina também Hebron, onde e quando falece Isaac (Gn 35,27-29). Prosseguindo o nar-rador inclui genealogias a partir da de Esaú, que se mesclou com os gentios ou pagãos da região, comprometendo a Aliança na sua geração, e ficando definitivamente desligado dela.
1.18. - A ALIANÇA E JOSÉ, O PRIMOGÊNITO DE JACÓ
José, o filho primogênito de Raquel, a amada de Jacó, é um dos marcos mais impor-tante da História da Salvação, cuja significação nunca se apagará nem da memória Israelita nem da Cristã. Com ele se encerra um período fundamental - a Era dos Patriarcas, e se abre outro - a Era do Povo de Israel em prosseguimento à concretização da Aliança. Manifesta-se a fertilidade de bênçãos de Deus que se vai avolumando num crescendo e em uníssono com os seus desígnios sempre presentes e tirando da maldade humana, fruto do pecado, o bem e a sua consumação. Quer assim reconduzir o Homem para o seu lugar - o Jardim do Éden, qual seja, para a vida em comunhão com Ele. E os acontecimentos que se vão sucedendo, muitas vezes contraditórios com a lógica que deveria ter o desígnio de um Deus, bem traçado hu-manamente falando, parecem comprometer seu sucesso. A História de José, conhecido como "José do Egito" retrata a verdade de que nada perturba a concretização de Sua vontade e que do mal humano sempre retira o bem e a Sua Justiça, traduzida na realização do Seu Desíg-nio, como ensina a Igreja:
"Assim, com o passar do tempo, pode-se descobrir que Deus, em sua Providência todo poderosa, pode extrair um bem das consequências de um mal, mesmo moral, causado por suas criaturas: 'Não, não fostes vós, diz José a seus irmãos, que me enviastes para cá, foi Deus... o mal que tínheis a intenção de fazer-me, o desígnio de Deus o mudou em bem a fim de... salvar a vida de um povo numeroso (Gn 45,8; 50,2. Cfr. Tb 2,12-18 Vulg.). Do maior mal moral jamais cometido, a saber, a rejeição e o homicídio do Filho de Deus, causado pelos pecados de todos os homens, Deus, pela superabundância de sua graça (Rm 5,20), tirou o maior dos bens: a glorificação de Cristo e a nossa re-denção. Com isso, porém, o mal não se converte em bem" (Catecismo da Igreja Católica, nº 312).
Como toda a família humana a de Jacó também tinha seus dramas e problemas pecu-liares. É compreensível que Jacó tivesse uma predileção especial por José, filho de sua ama-da, o "primogênito do seu coração" e tanto é assim que lhe tecera uma "túnica talar" (Gn 37,3c). Esse tipo de túnica caracteriza bem o valor que José tinha aos olhos do pai; uma des-sas túnicas usadas pelas pessoas que integravam uma corte real de mangas com cavas largas e de longo comprimento que, por si só, se impunha como algo de majestoso e incomum, capaz até mesmo de incentivar o ciúme, a inveja, o despeito tal como de fato aconteceu, e o ódio dos irmãos (Gn 37,4). Mesmo porque José também lhes contara o sonho que tivera com os irmãos e os pais lhe prestando reverências reais (Gn 37,6-11). Naquele tempo o sonho tinha muito crédito e por isso ficaram mais magoados ainda. E, quando Jacó o mandou a procura dos irmãos, que estavam pastoreando o gado em local distante, concordaram em atirá-lo numa cisterna vazia para depois de lá retirá-lo e vendê-lo, como escravo, aos Madia-nitas ou Ismaelitas, ambos descendentes de Abraão.
Cabe aqui uma observação importante: - muitas narrações das Escrituras vêm de di-ferentes tradições e são duplicadas ou mescladas, até mesmo triplicadas, gerando alguma confusão. Não se deve rejeitá-las simplesmente, mas somar as informações que nos trazem sem as desprezar, eis que se referem a um mesmo fato real, alterado às vezes pela natureza das fontes. Além disso, é fato conhecido no meio jurídico que duas testemunhas de mesmo fato nunca o narram sem contradições, principalmente nos detalhes contingentes. Assim a narração de que teriam sido os ismaelitas ou madianitas não modifica a realidade de que José fora vendido pelos irmãos, fato confirmado pelo restante da exposição.
Para mostrar a Jacó levaram apenas a sua túnica talar toda embebida em sangue, cau-sando-lhe mais um sofrimento atroz e levando-o a um luto estremado (Gn 37,31-35). Já se
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crê na vida após a morte pelo que Jacó diz: "chorando descerei a meu filho debaixo da ter-ra", tal como se acreditava, lá ficando no estado em que se falecia (Gn 37,35 / Gn 44,29 / Nm 16,30), sendo ainda uma ofuscada figura do Purgatório, ou Mansão dos Mortos e do Limbo.
Neste ponto a história é cortada, intercalando-se uma ocorrência com Judá digna de nota em virtude de registrar uma instituição, a Lei do Levirato, que impunha ao cunhado (= "levir") a obrigação de casar-se com a viúva do irmão, para lhe suscitar prole (Gn 38,8), herdeiro, o qual seria descendência do falecido para todos os efeitos legais e religiosos, e não do verdadeiro pai biológico. São costumes que se solidificam em instituições sagradas. Judá não se importando com a sorte da sua nora forçou-a, para salvaguardar os direitos seus e de seu marido, a disfarçar-se de mulher pública cultual, qual seja uma mulher que oferecia seu corpo à divindade em prostituição sagrada (Dt 23,18; Os 4,14; 1Rs 14,24; 15,12; 2Rs 23,7). Consegue, ardilosamente, uma relação sexual com o sogro Judá, recém-enviuvado (Gn 38,12), sabendo-se que, na falta de irmãos do falecido, um parente próximo (até mesmo o pai) satisfaria o costume, da qual advieram dois filhos gêmeos (Gn 38,14-30), um dos quais se chamou Farés, que foi antepassado do Rei Davi (1Cro 2,4-5 / Rt 4,18-21).
Terminado o parêntesis de Judá, o narrador volta-se novamente para José, vendido a Putifar, um egípcio, oficial e chefe da guarda do faraó (Gn 37,1-36) e acaba trabalhando na casa dele, gozando de sua plena confiança, pois "Deus estava com ele e por seu meio levava a bom termo tudo o que empreendia, pelo que depositou em suas mãos todos os seus bens" (Gn 39,1-6). A mulher de Putifar pretendeu seduzi-lo e, "por fidelidade ao seu senhor e a Deus" (Gn 39,9) recusou-a, levando-a a vingar-se acusando-o falsamente, fato que o leva à prisão, onde se repete a bênção de Deus fazendo com que gozasse da confiança do carcereiro (Gn 39,10-23). Na prisão fica conhecendo presos como ele, o padeiro e o copeiro reais aos quais lhes desvendou sonhos que tiveram, indo, tal como interpretara, o padeiro para a forca e o copeiro de volta às suas funções (Gn 40,1-22). "O copeiro se esqueceu de José" a quem prometera pedir ao faraó que o libertasse, inocente que era de todas as acusações que lhe fizeram (Gn 40,23 / 40,14-15).
1.19. - JOSÉ PASSA A GOVERNAR O EGITO
Apesar disso, Deus, "que tem os seus caminhos", vem em seu socorro e o Faraó tem dois sonhos que o incomodam (Gn 41,1-7). Naqueles tempos acreditar em sonhos como pre-visões de futuro era muito comum, por demais valorizados e até mesmo aproveitados por Deus, que sempre utiliza a cultura humana para seus desígnios. Vê-se que atua na hora certa, podendo-se crer que impediu que o copeiro se lembrasse dele antes da hora, até que se crias-se uma situação favorável, não apenas ao seu eleito em si, mas ao prosseguimento da Alian-ça. O Faraó não encontra quem o tranquilize com a solução e então o copeiro se lembra de sugerir o nome de José, a quem apresentou os sonhos. O famoso sonho das "vacas magras e das vacas gordas", e o das "espigas mirradas e queimadas, e espigas granosas e cheias" umas devorando as outras, pelo que José pressagiou sete anos de fartura e sete anos de escassez.
Manifesta-se então a sabedoria de José, desvendando os sonhos e ainda sugerindo um plano de ação para cujo sucesso foi promovido a uma espécie de Primeiro Ministro do Faraó (Gn 41,38-44) com autoridade e poderes para executá-lo. É realmente ótimo administrador e durante os anos de fartura José adquiriu e armazenou o máximo do trigo produzido que pôde para distribuí-lo no tempo da escassez e de fome que atingiu o mundo todo de então (Gn 41,53-57). Por causa disso, os filhos de Jacó vão, a mando do pai, ao Egito em busca de pro-visões e são reconhecidos por José, mas não o reconhecem. José foi visto pelos Padres dos Primórdios como uma figura de Jesus, que vendido pelos irmãos, humilhado e após grande sofrimento, inocente e resignado, atinge a glória, os perdoa, salva e prepara-lhes um lugar.
José que já demonstrara especial sabedoria e discernimento no governo, também vai fazê-lo no trato com seus irmãos. Imediatamente após reconhecê-los, formando eles um gru-
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po coeso de dez estrangeiros, os acusa de espiões, estratagema que usa para forçá-los a se identificar totalmente, fornecendo-lhe todos os detalhes familiares. Conhecia-os suficiente-mente bem pelo mal que lhe fizeram e até mesmo o motivo. Por isso quis notícias do pai e principalmente da integridade do único irmão uterino, Benjamim, também filho de Raquel, a preferida, fonte do mesmo ódio e, possivelmente, vítima de igual represália. Fez tudo o que pôde até conseguir que o trouxessem a sua presença para vê-lo e se certificar de sua incolu-midade. Também com tais manobras, sem deixar transparecer que entendia o que conversa-vam, ouviu quando manifestaram com angústia o arrependimento do que fizeram com ele, aceitando os dissabores pelos quais José os fazia passar como se fora um castigo pelo que lhe haviam feito de mal. Depois de muita peripécia, buscando conhecer e certificando-se da condição moral e das condições de vida dos irmãos, seu relacionamento com o pai e princi-palmente com o seu irmão Benjamim, depois de prová-los, José se dá a conhecer (Gn 42-45):
"Disse, então, José a seus irmãos: Eu sou José; vive ainda meu pai? E seus irmãos não lhe puderam responder, pois estavam pasmados diante dele. José disse mais a seus irmãos: Chegai-vos a mim, peço-vos. E eles se chegaram. En-tão ele prosseguiu: Eu sou José, vosso irmão, a quem vendestes para o Egito. Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos aborreçais por me haverdes vendido para cá; porque para preservar vida é que Deus me enviou adiante de vós. Porque já houve dois anos de fome na terra, e ainda restam cinco anos em que não haverá lavoura nem sega. Deus enviou-me adiante de vós, para conservar-vos descendência na terra, e para guardar-vos em vida por um grande li-vramento. Assim não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus, que me tem posto por pai de Faraó, e por se-nhor de toda a sua casa, e como governador sobre toda a terra do Egito" (Gn 45,3-8).
Aparece aqui além da grande sabedoria de José, o seu conhecimento das coisas de Deus pelo que tranquiliza os irmãos. Repete-se o mesmo sinal da presença da fé aliada com o amor pelos homens que vimos em Abraão, reconhecendo em todo o acontecimento o dedo de Deus a tudo dirigindo (Gn 50,19). Levam a notícia de que estava vivo e de sua posição ao pai, que demorou a crer e não foi fácil convencê-lo de que José, além de vivo, governava o Egito:
"Então subiram do Egito, vieram à terra de Canaã, a Jacó seu pai, e lhe anunciaram, dizendo: José ainda vive, e é governador de toda a terra do Egito. E o seu coração desmaiou, porque não acreditava neles. Quando, porém, eles lhe contaram todas as palavras que José lhes falara, e vendo Jacó, seu pai, os carros que José enviara para levá-lo, reanimou-se-lhe o espírito; e disse Israel: Basta; ainda vive meu filho José; eu irei e o verei antes que morra. Partiu, pois, Israel com tudo quanto tinha e veio a Bersabéia, onde ofereceu sacrifícios ao Deus de seu pai Isaac" (Gn 45,25-46,1).
A princípio quis apenas rever seu filho antes de morrer. Chegando a Bersabéia onde residiu Abraão temeu pela sorte da Aliança, saindo para terra estranha distinta da prometida e até aquele momento indefinida. Isso o levou ao oferecimento do Sacrifício buscando saber qual seria o desígnio de Deus:
"Partiu, pois, Israel com tudo quanto tinha e veio a Bersabéia, onde ofereceu sacrifícios ao Deus de seu pai Isaac. Falou Deus a Israel em visões de noite, e disse: Jacó, Jacó! Respondeu Jacó: Eis-me aqui. E Deus disse: Eu sou Deus, o Deus de teu pai; não temas descer para o Egito; porque eu te farei ali uma grande nação. Eu descerei contigo para o Egito, e certamente te farei tornar a subir; e José porá a sua mão sobre os teus olhos" (Gn 46,1-4).
O não temas da resposta evidencia a indecisão de Jacó com o temor que sempre as-salta o eleito em face do contraditório do mundo com os desígnios de Deus (Gn 15,1; 26,24c). Após o sacrifício e pela visão fica-lhe claro que no Egito, em prosseguimento da Aliança, formar-se-ia dele uma grande nação. Então desce, não mais para apenas ver José antes de morrer, mas com todos os seus familiares e bens, isto é, toda a Tribo dos Filhos de Israel. Lá fixariam residência em peregrinação, mas desde o início sofrendo certa animosi-dade, pois "os egípcios detestam todos os pastores de rebanhos" (Gn 46,33-34). Assim pre-viu José, levando-os para a região de Gessem, onde poderiam permanecer ou se mover, sem molestar ou serem molestados, e onde a sua religião poderia ser preservada incólume sem se contaminar com a idolatria egípcia.
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1.20. - A ALIANÇA E AS BÊNÇÃOS DE JACÓ NO EGITO
Após tal reviravolta, Jacó, já vivendo no Egito volta-se para a rotina do passado e passa a se lembrar de vários acontecimentos que lhe exigiram a atenção na época, agora qua-se esquecidos, com os quais até se conformara e que agora se lhe apresentavam novamente com vigor renovado:
"... viremos, eu e tua mãe, e teus irmãos, a inclinar-nos com o rosto em terra diante de ti?... seu pai meditava o caso no seu coração" (Gn 37,10-11).
É mais do que evidente que meditava o caso no seu coração, quanto ao que ocorria com referência à Aliança, procurando saber por onde Deus a encaminharia. Tudo lhe mos-trava então que era por meio de José e sua descendência que ela se concretizaria, e passa a agir na direção que se lhe descortinava o sinal dos tempos. Com o desaparecimento dele tudo mudara e Jacó passara a viver de acordo com o que Deus dispusera. Agora, porém, que "o sonho de José se realiza" tal como meditava, exige do filho, primeiro, que não o sepulte em terra estrangeira, naquele tempo terrível maldição. Fê-lo jurar com a mão debaixo da coxa comprometendo-se assim na própria virilidade tal como se usava (Gn 47,29-31). Em segundo lugar, já sabendo para onde caminhava o Desígnio de Deus, com referência à Ali-ança, passa a preparar o terreno onde plantar a Bênção da Primogenitura e onde transplantar a da Aliança, tal como prometida a Abraão, que passou ao seu pai Isaac e deste lha transmi-tiu.
Adoecendo, José leva-lhe seus dois filhos, Efraim e Manassés, nascidos no Egito de seu casamento com Asenete (Gn 41,45.50-52). Concluído ser em José o prosseguimento da Aliança é a ele que destina ambas as bênçãos e lhe entrega a dupla parte da herança (Dt 21,17) em forma da adoção dos dois filhos dele como seus, tornando-os herdeiros como qualquer dos outros filhos e com eles concorrendo à herança (Gn 48,5-6):
"E disse Jacó a José: O Deus Todo-Poderoso me apareceu em Luz, na terra de Canaã, e me abençoou, e me disse: 'Eis que te farei frutificar e te multiplicarei; tornar-te-ei uma multidão de povos e darei esta terra à tua descendência depois de ti, em possessão perpétua'. Agora, pois, os teus dois filhos, que nasceram na terra do Egito antes que eu viesse a ti no Egito, são meus: Efraim e Manassés serão meus, como Rúben e Simeão; mas a prole que tiveres depois deles será tua; segundo o nome de seus irmãos serão eles chamados na sua herança. (...) Quem são estes? Respondeu José a seu pai: Eles são meus filhos, que Deus me tem dado aqui. Continuou Israel: Trazei-mos aqui, e eu os aben-çoarei. (...) E José tomou os dois, a Efraim com a sua mão direita, à esquerda de Israel, e a Manassés com a sua mão esquerda, à direita de Israel, e assim os fez chegar a ele. Mas Israel, estendendo a mão direita, colocou-a sobre a ca-beça de Efraim, que era o menor, e a esquerda sobre a cabeça de Manassés, dirigindo as mãos assim propositada-mente, sendo embora este o primogênito. E abençoou a José, dizendo: O Deus em cuja presença andaram os meus pais Abraão e Isaac, o Deus que tem sido o meu pastor durante toda a minha vida até este dia, o anjo que me tem li-vrado de todo o mal, abençoe estes meninos, e seja chamado neles o meu nome, e o nome de meus pais Abraão e I-saac; e multipliquem-se abundantemente no meio da terra" (Gn 48,3-16).
Acreditava-se que pelas mãos se comunicavam intenções, estado, poderes ou virtu-des da pessoa (Lv 1,4), mais ainda pela mão direita, que era assim depositada na cabeça do primogênito, alvo de maior bênção. Há uma inversão e Jacó abençoa Efraim como se fora o mais velho de José e Manassés como o mais novo, anunciando a preeminência dele sobre o irmão maior (Gn 48,17-20). Apesar do protesto do pai deles encerra esse primeiro momento praticando o ato a que se propusera, mantendo as mãos trocadas, repetindo a mesma tônica da bênção de Abraão (Gn 12,2-3). Ainda diz que “Efraim e Manassés serão meus, como Rúben e Simeão”, isto é, foram guindados à substituição dos seus primogênitos destituídos. E, separadamente a José, antecipa a doação de uma propriedade em Siquém antes da con-quista e do sorteio que se fará da Terra Prometida, no mesmo local onde vai ocorrer o en-contro de Jesus com a Samaritana (Jo 4):
"Depois disse Israel a José: Eis que eu morro; mas Deus será convosco, e vos fará tornar para a terra de vossos pais. E eu te dou Siquém um pedaço de terra a mais do que a teus irmãos, o qual tomei com a minha espada e com o meu arco da mão dos amorreus" (Gn 48,21-22).
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Essa determinação tem a mesma dimensão da que fará José a seus irmãos (Gn 50,24-25), o que evidencia a transitoriedade da mudança da tribo para o Egito. Além disso, conso-ante a Bênção de Jacó, a Tribo de Efraim na realidade será bem mais numerosa e de grande projeção e poder no seio do Povo de Israel e irá se destacar durante a Monarquia, quando irá fundar, constituir e conduzir o Reino do Norte na sedição das tribos (1Rs 11,26 / 1Rs 12). Sua preeminência será tão notória que o próprio Moisés a afirmará, já no seu tempo, compa-rando-a com Manassés:
"... Eis o seu novilho primogênito; ele tem majestade; e os seus chifres são chifres de boi selvagem; com eles recha-çará todos os povos, sim, todas as extremidades da terra. Tais são as miríades de Efraim, e tais são os milhares de Manassés" (Dt 33,17c).
Além disso, aqui nesse trecho, o próprio Moisés trata José como "novilho primogêni-to, com majestade e chifres de boi selvagem". Esta narrativa da Bênção dos filhos de José é um ótimo exemplo daquela regra oferecida na Introdução para não se ater aos capítulos e versículos, mas sempre observar o começo e o fim do assunto que se lê. Observe-se que a divisão entre capítulo 48 e 49 não tem sentido e é aleatória não se tratando de momentos diferentes mas do prosseguimento de um mesmo ato, a Bênção de Jacó a todos os seus fi-lhos. Então, após confirmar a Aliança de Abraão com a distribuição inicial da Bênção para José e seus filhos Efraim e Manassés Jacó se volta para seus outros filhos e completa o seu trabalho com uma locução que se conhece, ora como oráculo (Gn 49,1b) ora como bênção, (Gn 49,28c):
"Depois chamou Jacó a seus filhos, e disse: Ajuntai-vos para que eu vos anuncie o que vos há de acontecer nos dias vindouros. Ajuntai-vos, e ouvi, filhos de Jacó; ouvi a Israel vosso pai..." (Gn 49,1-2) / "Todas estas são as doze tri-bos de Israel: e isto é o que lhes falou seu pai quando os abençoou; a cada um deles abençoou segundo a sua bênção" (Gn 49,28).
Ao que tudo indica, porém teria sido proferida próximo da própria morte que, com o desenrolar da História do Povo de Israel foi sendo acrescida de fatos pertinentes às tribos que tinham referência até mesmo remota com as palavras de Jacó, mantidos no contexto pelo narrador o que lhe chegou por tradição oral, e na forma de um poema. Isso acontece muito na Bíblia, eis que, não se escreve o fato no momento de sua ocorrência, mas muito tempo após já mesclado com várias acomodações e em vários matizes pela variedade de testemunhos. Por causa disso, é necessário que o oráculo de Judá seja examinado principal-mente no seu conteúdo religioso e destacando-se o seu teor messiânico. Ainda no aspecto cultural é de se verificar a existência de detalhes da primogenitura que vai nos realçar a sua importância, principalmente, ao se dirigir a Rubem que como já se viu traiu o pai praticando um "incesto" com a concubina dele, Bala, a serva de Raquel (Gn 35,22):
"Rúben, tu és meu primogênito, minha força e as primícias do meu vigor, preeminente em dignidade e preeminente em poder. Impetuoso como a água, não reterás a preeminência; porquanto subiste ao leito de teu pai; então o profa-naste. Sim, ele subiu à minha cama" (Gn 49,3-4).
Esse trecho exibe parte da importância do primogênito principalmente quando o de-fine como "minha força e as primícias do meu vigor", qual seja, onde se manifesta a força geradora de Jacó com toda a capacidade no sentido bíblico de "primícias” como o impulso inicial e o princípio de fecundidade anunciando farta colheita. Por isso é por natureza "pre-eminente em dignidade e preeminente em poder", sendo assim por si só, uma qualidade de sua própria constituição (cfr. Gn 43,33). Tudo isso ele perdeu - "subiste ao leito de teu pai, e o profanaste", "não te pertencerá mais a preeminência que tens direito de gozar". Essa pree-minência compreende até mesmo a chefia do clã ou da tribo ou da família, na cultura da é-poca:
"De Hosa, dos filhos de Merari, foram filhos: Sínri o chefe, ainda que não era o primogênito, contudo seu pai o cons-tituiu chefe..." (1Cro 26,10).
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O pai tinha o direito de ratificar ou retirar o direito do primogênito. Assim perdido por Rubem, o direito teria de ir logicamente para Simeão e Levi, mas, por sua vez, também traíram o pai (Gn 34,25-31), no caso de Dina, e não o recebem, com o ato deles não queren-do compactuar Jacó:
"Simeão e Levi são irmãos; as suas espadas são instrumentos de violência. No seu concílio não entres, ó minha al-ma! com a sua assembléia não te ajuntes, ó minha glória! porque no seu furor mataram homens, e na sua ira estropi-aram bois. Maldito o seu furor, porque violento! maldita a sua ira, porque cruel! Dividi-los-ei em Jacó, e os espalha-rei em Israel" (Gn 49,5-7).
A frase "dividi-los-ei em Jacó e os espalharei em Israel" mostra a modificação ope-rada no texto com os acontecimentos que ocorreram após o seu pronunciamento. Jacó não tinha condições de saber que o seu povo seria conhecido por "Israel" nem que ambas as tri-bos seriam tragadas pelas outras, praticamente desaparecendo. Mas ambos praticaram juntos o ato injusto e comprometedor de que se ressente ainda e juntos deveriam participar das con-sequências e da mesma perda. Assim, além de não gozar da Primogenitura Simeão vai se mesclar no território de Judá (Js 19,1-9) e Levi, apesar do exercício do sacerdócio que lhe adveio pela postura no episódio do Bezerro de Ouro (Ex 32,26-29), teve suas propriedades disseminadas por toda a nação (Js 21,1-40). Ora, os vaticínios bíblicos nunca são menciona-dos assim com tanta clareza, sem simbologia adequada e misteriosa. Por causa desse fato, não faz mal repetir, o que se referiu a cada um e a todos os filhos de Israel, bem como aquilo do vaticínio de Jacó que se entendeu haver sido cumprido de alguma forma, foi esclarecido por um redator posterior, acrescido e incorporado ao contexto, o que se denomina de glosa, que os copistas e tradutores respeitaram e mantiveram como parte do conteúdo.
Percebe-se que deve ter sido um problema difícil para Jacó, esse de desenvolver e conciliar o prosseguimento da Aliança entre os filhos, pois caso seguisse uma ordem normal e lógica, a primogenitura caberia agora a Judá, que assim esperava ficando definido o cami-nho. Não que necessariamente devesse seguir uma hierarquia determinada pela ordem cro-nológica dos nascimentos, mas deve ter seguido qualquer, mesmo que pensada, planejada e amadurecida no decorrer de sua vida toda. Agora, o advento de José da forma como aconte-ceu, alterou tudo clamando por uma revisão, já que um novo elemento vem integrar a dispo-sição racional já deliberada e pronta. Principalmente por "conservar na memória os fatos" (Gn 37,11b) e já lhe "ter urdido uma túnica talar" (Gn 37,3c) e os "sonhos que teve" (Gn 37,5.9) o convencerem então do lugar onde iria desaguar a corrente da Aliança. Sendo as-sim, o que planejara com o seu desaparecimento ficaria alterado, não mais se admitindo que seguisse tudo apenas em Judá. É que, agora, com o encontro e o retorno de José, impunha-se a revisão total:
"Judá, a ti te louvarão teus irmãos; a tua mão será sobre o pescoço de teus inimigos: diante de ti se prostrarão os fi-lhos de teu pai. Judá é um leão novo. Voltaste da presa, meu filho. Ele se encurva e se deita como um leão, e como uma leoa; quem o despertará? O cetro não se afastará de Judá, nem o bastão de comando dentre seus pés, até que venha aquele a quem pertence; e a ele obedecerão os povos. Atando ele o seu jumentinho à vide, e o filho da sua ju-menta à videira seleta, lava as suas roupas em vinho e a sua vestidura em sangue de uvas. Os olhos serão escurecidos pelo vinho, e os dentes brancos de leite" (Gn 49,8-12).
O colorido messiânico desse vaticínio é facilmente visível onde aparece a força guer-reira (Gn 49,9), fartura e prosperidade (Gn 49,11-12) realçadas com imagens simbólicas e sem necessidade de muita análise. É preciso, porém ler um trecho de um livro bem adiante, para melhor precisar outros acontecimentos a que se subordinou esse oráculo de Jacó, modi-ficando-o:
"Quanto aos filhos de Rúben, o primogênito de Israel, pois ele era o primogênito; mas, porquanto profanara a cama de seu pai, deu-se a sua primogenitura aos filhos de José, filho de Israel, de sorte que a sua genealogia não é contada segundo o direito da primogenitura; pois Judá prevaleceu sobre seus irmãos, e dele proveio o príncipe; porém a pri-mogenitura foi de José..." (1Cro 5,1-2).
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E é o próprio redator do livro de Crônicas que nos revela, por pronunciamento de Davi, o modo como Judá prevaleceu sobre seus irmãos:
"Todavia Iahweh Deus de Israel escolheu-me de toda a casa de meu pai, para ser rei sobre Israel para sempre; por-que a Judá escolheu por príncipe, e na casa de Judá a casa de meu pai, e entre os filhos de meu pai se agradou de mim para me fazer rei sobre todo o Israel" (1Cro 28,4).
Assim, em Davi, descendente de Judá, foi cumprido o oráculo:
"Judá, a ti te louvarão teus irmãos; a tua mão será sobre o pescoço de teus inimigos: diante de ti se prostrarão os fi-lhos de teu pai" (Gn 49,8).
Uma comparação mostrará que, já nos primórdios, dava-se a esse oráculo um sentido profundamente messiânico, como se lê em Apocalipse, que tirou a denominação de "leão" para Jesus, das palavras de Jacó:
Gn 49,9
Ap 5,5
Judá é um
"E disse-me um dentre os anciãos: Não chores; eis que o
Leãozinho. Voltaste da presa, meu filho.
Ele se encurva e se deita como um leão,
e como uma leoa; quem o despertará?"
Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi,
Venceu para abrir o livro e romper os seus sete selos."
E é muito aceitável esse conteúdo messiânico por causa de um fato muito conhecido do Evangelho de Mateus, quando narra a visita dos Reis Magos, em que é digno de nota o que queriam saber de Herodes e o que aconteceu por causa disso:
"Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? pois do oriente vimos a sua estrela e viemos adorá-lo. O rei Hero-des, ouvindo isso, perturbou-se, e com ele toda a Jerusalém; e, reunindo todos os principais sacerdotes e os escribas do povo, perguntava-lhes onde havia de nascer o Cristo. Responderam-lhe eles: Em Belém da Judéia..." (Mt 2,2-5).
Com base neste trecho, pergunta-se:
 "O rei Herodes, ouvindo isso, perturbou-se..." - ora, somente por ter nascido um menino a quem os estrangeiros qualificavam de "rei dos judeus”?
 Além disso, "os principais sacerdotes e os escribas", por sua vez, souberam di-zer onde nasceria o Cristo (em hebraico, o Messias)?
Essas indagações mostram que ao tempo de Herodes, o Messias (Cristo, do grego) era esperado. Eis que o rei se perturbou e só quis saber onde nasceria, do que foi informado, tendo como certa a sua existência. É que, quando Herodes, que não era israelita nem da Tri-bo de Judá foi nomeado rei por Roma, o cetro não mais pertencendo à Tribo de Judá, cum-pria-se o vaticínio de Jacó uma vez que "viria já aquele a quem pertence e a ele obedecerão os povos" (Gn 49,10cd). Tanto é assim que, com base nas informações que recebeu, e teme-roso com a sua segurança no trono "Herodes mandou matar todos os meninos de até dois anos" (Mt 2,16), pelo que o Evangelista viu cumprido antigo oráculo (Jr 31,15).
Tudo mostra, que pelos acontecimentos acrescidos a Judá, foi preservada a chefia, quando Israel se constituísse como os outros povos em reino, já que fala em "cetro" com colorido messiânico. Não é oportuno se discutir isso aqui, mas parece uma glosa para justifi-car a posse de Judá da coroa israelita. Era impossível para Jacó prever que Israel seria uma monarquia em certa ocasião histórica. Porém a José é dada a Bênção da Primogenitura, com todos os seus elementos, todas as bênçãos, inclusive a indispensável consagração, prosse-guindo-se nele a Aliança:
"José é um ramo frutífero, ramo frutífero junto a uma fonte; seus raminhos se estendem sobre o muro. Os flecheiros lhe deram amargura, e o flecharam e perseguiram, mas o seu arco permaneceu firme, e os seus braços foram fortale-cidos pelas mãos do Poderoso de Jacó, o Pastor, o Rochedo de Israel, pelo Deus de teu pai, o qual te ajudará, e pelo Todo-Poderoso, o qual te abençoara, com bênçãos dos céus em cima, com bênçãos do abismo que jaz embaixo, com bênçãos dos seios e da madre. As bênçãos de teu pai excedem as bênçãos dos montes eternos, as coisas desejadas
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dos eternos outeiros; sejam elas sobre a cabeça de José, e sobre o alto da cabeça daquele que foi consagrado de seus irmãos" (Gn 49,22-26).
À tribo de Efraim pela imposição da mão direita de Jacó caberia então o exercício da chefia do clã após José, na forma da tradição cultural correspondente ao equilíbrio tribal, em vigor na época. Tudo fica mais claro com a revisão sucinta do passado, que agora se impõe para maior clareza e necessidade ao raciocínio. É que José era o filho predileto de Jacó, por isso seus irmãos o odiavam e também pelos sonhos que previam sua supremacia futura (Gn 37,3-4.5-11), sonhos esses que se cumpriram (Gn 42,6.9). José e Judá são os dois filhos pri-mogênitos das mulheres de Jacó, Raquel e Lia. De Lia, Judá seria o primogênito em lugar de Rúben, Simeão e Levi que perderam o direito (Gn 49,4-6); e de Raquel, José, a quem Jacó amava com predileção e a quem devolveu a primogenitura. Por sua vez, fora a tribo de Judá abençoada por Jacó com um colorido messiânico (Gn 49,8-12), e cabia-lhe o direito da pri-mogenitura, se obedecida a ordem cronológica de nascimento (Gn 29,31-35). Assim como Esaú odiou de morte a Jacó por causa da primogenitura é de se esperar algum ressentimento de Judá, quando essa seria destinada por predileção a José. Não se deve perder de mira que foi Judá quem chefiou a venda de José para os ismaelitas (Gn 37,26-27), contra a vontade de Rúben, que o queria restituir ileso ao pai (Gn 37,22), antes da bênção de Jacó (Gn 49). E, no futuro, tanto com a correspondente bênção como com Efraim e Manassés igualados a Rúben e Simeão (Gn 48,5) e na porção maior dada a José (Gn 48,22), Jacó restabelece a José o seu lugar. Quanto a isso Judá não concorda se propõe e consegue retomá-la. Assim, os antago-nismos familiares fervilhavam, fermentando-se uma divisão futura que irá certamente ocor-rer. Não é à toa que, em Dt 21,17, se vai proibir a preferência do pai pelo primogênito da mulher amada, coincidência demais com os fatos da tribo de Jacó.
Os demais elementos integrantes do oráculo de Jacó e atinentes aos seus outros fi-lhos, quase sempre históricos ou geográficos de cada tribo, podem ser facilmente verificados na medida em que os demais livros da Bíblia mencionarem o nome deles, quando então se deverá fazer comparação com esse texto, caso necessário. A essa altura é bom que se recor-de que, nem sempre, é possível conhecer de imediato todos os detalhes integrantes das Es-crituras, condicionando-se à cultura humana com todas as suas implicações, que às vezes, hoje, não se pode compreender com exatidão o sentido das narrativas escritas para os ho-mens daquele tempo.
Isso acontece muitas vezes quando se lê a Bíblia. Em Jesus Cristo é que se vai escla-recer o que é essencial com a Revelação definitiva que faz e que sem Ele é impossível, como afirma São Paulo:
“Tendo, pois, tal esperança, servimo-nos de muita ousadia no falar. E não somos como Moisés, que punha véu sobre a face, para que os filhos de Israel não atentassem na terminação do que se desvanecia. Mas os sentidos deles se em-botaram. Pois até ao dia de hoje, quando fazem a leitura da antiga aliança, o mesmo véu permanece, não lhes sendo revelado que, em Cristo, é removido. Mas até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles.” (2Cor 3,12-15).
Terminadas as Bênçãos, Jacó se despede:
"Depois lhes deu ordem, dizendo-lhes: Eu estou para ser congregado ao meu povo; sepultai-me com meus pais, na cova que está no campo de Efrom, o heteu, na cova que está no campo de Macpela, que está em frente de Manre, na terra de Canaã, cova esta que Abraão comprou de Efrom, o heteu, juntamente com o respectivo campo, como pro-priedade de sepultura. Ali sepultaram a Abraão e a Sara, sua mulher; ali sepultaram a Isaac e a Rebeca, sua mulher; e ali eu sepultei a Lia. O campo e a cova que está nele foram comprados aos filhos de Hete. Acabando Jacó de dar estas instruções a seus filhos, encolheu os seus pés na cama, expirou e foi congregado ao seu povo" (Gn 49,29-33).
Quando Abraão comprou a gruta onde sepultou Sara (Gn 23,1-20), tal como se pen-sava na antiguidade, tomou posse da Terra Prometida, sua residência para sempre e é para o mesmo lugar que deverá ser transportado Jacó para ser congregado ao seu povo, tal como se acreditava na vida após a morte como se verá também em outros lugares da Escritura. É o que foi feito (Gn 50,7-14). Sepultado o pai, José é assediado pelos irmãos que dele agora temiam uma represália pelo que lhe fizeram ao que lhes comunica a isenção de qualquer
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mágoa e de profunda fé na direção dos acontecimentos por Deus (Gn 50,15-21). E, quando se aproxima o fim de seus dias bem vividos, dita as últimas ordens a seus irmãos o que com-prova a sua qualidade de chefe, de primogênito no exercício de suas funções, e em direção aos compromissos da Aliança:
"Depois disse José a seus irmãos: Eu morro; mas Deus certamente vos visitará, e vos fará subir desta terra para a ter-ra que jurou a Abraão, a Isaac e a Jacó. E José fez jurar os filhos de Israel, dizendo: Certamente Deus vos visitará, e fareis transportar daqui os meus ossos. Assim morreu José, tendo cento e dez anos de idade; e o embalsamaram e o puseram num caixão no Egito" (Gn 50,24-26). / "Moisés levou consigo os ossos de José, porquanto havia este sole-nemente ajuramentado os filhos de Israel, dizendo: Certamente Deus vos visitará; e vós haveis de levar daqui con-vosco os meus ossos" (Ex 13,19) / "Os ossos de José, que os filhos de Israel trouxeram do Egito, foram enterrados em Siquém, naquela parte do campo que Jacó comprara aos filhos de Hamor, pai de Siquém, por cem peças de prata, e que se tornara herança dos filhos de José" (Js 24,32) .
Aqui termina o Livro de Gênesis, base de todo estudo da Bíblia, trazendo a gloriosa e Santa História dos Patriarcas Abraão, Isaac e Jacó, que lançaram os fundamentos de nossa fé. Nenhuma menção honrosa será maior que a da própria Igreja, cujos alicerces lançaram e ergueram:
"Para reunir a humanidade dispersa, Deus escolheu Abrão, chamando-o para fora do seu país, da sua parentela e da sua casa" (Gn 12,1), para o fazer Abraão, quer dizer, "pai duma multidão de nações" (Gn 17,5): "Em ti serão aben-çoadas todas as nações da Terra" [Gn 12,3 LXX (cfr. Gl 3,8)]".
"O povo saído de Abraão será o depositário da promessa feita aos patriarcas, o povo eleito (Rm 11,28), chamado a preparar a reunião, um dia, de todos os filhos de Deus na unidade da Igreja (Jo 11,52; 10,16). Será o tronco em que serão enxertados os pagãos tornados crentes (Rm 11,17-18,24)".
“Os patriarcas, os profetas e outras personagens do Antigo Testamento foram e serão sempre venerados como santos em todas as tradições litúrgicas da Igreja” (Catecismo da Igreja Católica, n s.º 59, 60 e 61 - destaques a propósito)”.


Fonte: www.mundocatolico.com.br/Biblia/curso.htm

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